<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-900875850386783289</id><updated>2012-02-10T09:51:29.229-08:00</updated><category term='caminho'/><category term='picardia'/><category term='rua'/><category term='pequenas coisas'/><category term='aparecido'/><category term='irreverencia'/><title type='text'>APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Blog oficial do escritor Aparecido Raimundo de Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02993589939207432978</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>6</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-900875850386783289.post-8380406662029568753</id><published>2010-03-22T04:48:00.000-07:00</published><updated>2010-03-22T04:48:34.201-07:00</updated><title type='text'>ISABELLA NARDONI. MAIS UM CRIME SEM RESPOSTA OU A SOLUÇÃO AOS OLHOS DE TODOS???</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_iuE-GxrAkVk/R_XqFBWxV6I/AAAAAAAAYi0/hqcaGGihF8o/s1600/LUTOISABELLA.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_iuE-GxrAkVk/R_XqFBWxV6I/AAAAAAAAYi0/hqcaGGihF8o/s320/LUTOISABELLA.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;pre&gt;(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza &lt;/pre&gt;&lt;pre&gt;&lt;meta content="text/html; charset=utf-8" http-equiv="Content-Type"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Word.Document" name="ProgId"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 11" name="Generator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 11" name="Originator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CUsuario%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtml1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"&gt;&lt;/link&gt;&lt;o:smarttagtype name="metricconverter" namespaceuri="urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags"&gt;&lt;/o:smarttagtype&gt;&lt;o:smarttagtype name="PersonName" namespaceuri="urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags"&gt;&lt;/o:smarttagtype&gt;&lt;style&gt;&lt;br /&gt;&lt;!--&lt;br /&gt; /* Style Definitions */&lt;br /&gt; p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal&lt;br /&gt;	{mso-style-parent:"";&lt;br /&gt;	margin:0cm;&lt;br /&gt;	margin-bottom:.0001pt;&lt;br /&gt;	mso-pagination:widow-orphan;&lt;br /&gt;	font-size:12.0pt;&lt;br /&gt;	font-family:"Times New Roman";&lt;br /&gt;	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";}&lt;br /&gt;pre&lt;br /&gt;	{margin:0cm;&lt;br /&gt;	margin-bottom:.0001pt;&lt;br /&gt;	mso-pagination:widow-orphan;&lt;br /&gt;	font-size:10.0pt;&lt;br /&gt;	font-family:"Courier New";&lt;br /&gt;	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";}&lt;br /&gt;@page Section1&lt;br /&gt;	{size:595.3pt 841.9pt;&lt;br /&gt;	margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm;&lt;br /&gt;	mso-header-margin:35.4pt;&lt;br /&gt;	mso-footer-margin:35.4pt;&lt;br /&gt;	mso-paper-source:0;}&lt;br /&gt;div.Section1&lt;br /&gt;	{page:Section1;}&lt;br /&gt;--&gt;&lt;br /&gt;&lt;/style&gt;&lt;br /&gt;&lt;pre style="text-align: justify;"&gt;Vamos refletir em cima do que nos foi passado até agora e em tudo o que vimos pessoalmente na cena do crime, no caso da menina ISABELLA NARDONI, de cinco anos e tentar chegar a um consenso lógico, ou pelo menos, nos colocar no ângulo da visão bestial do criminoso e montar o quebra cabeças cujas pedras, no enorme tabuleiro, se acham totalmente desencontradas. De certo, temos que ela realmente foi morta no sábado, dia 29 de março, por volta de 23h e 39 minutos, após ser jogada do 6º andar, arremessada, de cabeça para baixo, ou mais precisamente do apto 62 do Condomínio do Edifício Residencial London, situado na Rua Santa Leocárdia nº. 138 na Vila Mazzei, zona norte de São Paulo.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É fato notório que a queda ocorreu a partir da janela do quarto dos irmãos dela (Cauã, de 11 meses e Pietro, de 4 anos), por parte de pai, advindos da união dele com ANNA CAROLINA TROTA JATOBÁ. O apartamento do Condomínio do Edifício London é um prédio novo, recém entregue e de alto padrão. Cada unidade possui &lt;st1:metricconverter productid="88 metros quadrados" w:st="on"&gt;88 metros quadrados&lt;/st1:metricconverter&gt;, &lt;st1:metricconverter productid="3 quartos" w:st="on"&gt;3 quartos&lt;/st1:metricconverter&gt;, sala ampla, cozinha e varanda.&amp;nbsp; A área de laser, logo à entrada, ostenta todas as comodidades para quem gosta de viver bem: churrasqueira, salão de jogos, salão de ginástica, sala de massagem, sauna, quadra poli esportiva playground e, nos fundos, um muro de &lt;st1:metricconverter productid="4 metros" w:st="on"&gt;4 metros&lt;/st1:metricconverter&gt; de altura, com cerca eletrificada. Moderno circuito interno de televisão, monitora todas as dependências 24 horas por dia. Isso leva a conclusão óbvia que ninguém entra ou sai, sem ser visto ou identificado, a não ser que existam interesses escusos por debaixo dos panos.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é necessário dizermos que o apartamento 62, palco de toda essa brutalidade pertence a Alexandre Nardoni, cidadão formado em ciências jurídicas, porém, não exerce a profissão, vive às custas e&amp;nbsp; a sombra do pai que, por sinal, é também um profissional do ramo do direito. No mesmo andar, sua irmã Cristiane Nardoni é proprietária do apartamento nº. 63. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De palpável, além de tudo o que já foi esmiuçado, nada nos sobra, nada nos resta, que possamos agarrar e chegar a uma conclusão positiva, clara, séria, que não deixe dúvidas pairando no ar. De certo, sabemos que uma princesinha, cinco anos, 21 quilos e &lt;st1:metricconverter productid="500 gramas" w:st="on"&gt;500 gramas&lt;/st1:metricconverter&gt;,&amp;nbsp; antes de ser friamente lançada pela janela, foi barbaramente torturada. Em seguida, o assassino a asfixiou - ela que tinha toda uma vida pela frente não mais poderá reunir seus amiguinhos para festejar seu aniversario - que ocorreria dia 18 de abril. É quase certo que, diante das evidencias, e pelo rumo das investigações (apesar da seriedade com que vem sendo conduzido o caso pelo brilhante delegado de policia Doutor Calixto Calil Filho, do 9º Distrito Policial, na Rua dos Camarás, no Bairro do Carandiru, e da delegada assistente, Dra. Renata Pontes), mormente todo esse trabalho exaustivo, com depoimentos sendo colhidos dia e noite, alguns deles no mais completo sigilo, tudo leva a crer, dentro em pouco, engoliremos mais um crime atroz e bárbaro que, certamente deverá ficar impune, como os de João Hélio, Vinícius, Gabriela Cristina, e, agora, por último, da menina Madelene MC Cann e tantos mais que aconteceram por ai e não chegaram ao conhecimento da mídia. Bem sabemos daí para o esquecimento completo é questão de tempo. Basta um jogo de futebol, um final de semana prolongado... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De certo temos ainda, a sociedade paralisada, estarrecida, de pernas e mãos atadas, voando nas asas de um mistério que teve inicio no 6º andar e cujo trajeto não foi além dos &lt;st1:metricconverter productid="20 metros" w:st="on"&gt;20 metros&lt;/st1:metricconverter&gt; (a distancia do 6º pavimento até o jardim onde Isabella terminou a sua trajetória) deixando em todos nós o apogeu de uma morte sem razão aparente, o troféu funesto e mesquinhamente sinistro de um acontecimento assemelhado ao de um longa metragem de péssimo gosto. De palpável, temos um pouquinho mais: a figura fria do criminoso, alguém que até agora não apareceu; um terceiro elemento, um suspeito de rosto não revelado, uma figura retórica, que se move oculta, que se mantém cercada por pesadas nuvens de fumaça e, neste exato momento deve estar em casa assistindo a tudo pela sua tela plana, e rindo, talvez, quem sabe, saboreando uma cervejinha gelada e curtindo um churrasquinho em companhia de amigos. Essa terceira pessoa, a nosso ver, NÃO EXISTE. Pode ser fruto da imaginação de certos indivíduos, entre aspas, que insistem em manter a farsa, que perseveram em continuar mentindo, enganando, intentando levar as evidencias para sendas onde tudo caia no esquecimento e acabe em pizzas. É sabido, por todos, que o Tenente Neves, comandante da operação que esteve no local, procedeu a uma varredura minuciosa em todos os apartamentos, nela incluída revistas em armários, guarda-roupas, áreas de serviços e clarabóias. Referida devassa se estendeu também às unidades não ocupadas, cujas chaves ficam na portaria aos cuidados de um porteiro. Restou evidente, nessa operação, que nenhuma porta, ou fechadura, veio a ser arrombada, como igualmente nenhuma pessoa alheia ao conhecimento dos moradores transitou pelo prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa confusão toda, de certo, para nos agarrarmos, sabemos que o casal Alexandre Carlos Nardoni, de 29 anos e Anna Carolina Trotta Peixoto, de 23, continua atrás das grades desde 5ª feira p.p., dia 03 de abril, prisão que ocorreu por volta das 16h40, após os dois se apresentarem “espontaneamente” a Justiça.&amp;nbsp; Ressaltamos que essa prisão se deu depois de um circo magistralmente bem armado, onde o ápice do espetáculo trazido ao respeitável público culminou com a notícia de que os advogados de ambos, encabeçado pelo Doutor Ricardo Martins fecharam um acordo com o juiz do 2º Tribunal do Júri de Santana, Doutor Mauricio Fossem e com o representante do Ministério Público, Doutor Francisco Cabraneli. Ora, se o senhor Alexandre não tem nenhuma culpa, nem tampouco sua esposa Anna Carolina, não havia necessidade de uma manada de advogados (isso mesmo, manada) promover um estardalhaço dos diabos e, em seguida, pactuar qualquer tipo de acordo, seja com o delegado, com o juiz ou com o promotor. Se os dois, realmente, não têm nada a esconder, nada devem, estão “limpos”, são, portanto, marionetes, bodes expiatórios, em todo esse triste e vergonhoso episódio, evidentemente um único representante do direito teria sido suficiente para desempenhar o papel de defensor. Paralelo a isso, se nada devem, nada temem, nada receiam, para que recorrer a “acordos”? Acordos, geralmente levam os cidadãos a pensar em, primeiro plano, &lt;st1:personname productid="em falcatruas. Acordos" w:st="on"&gt;em falcatruas. Acordos&lt;/st1:personname&gt;, num segundo patamar, induzem os manés da vida a imaginar que pai e madrasta morrem de medo, estão intranqüilos, se aquietam se borram, e temem represálias ou uma possível condenação futura. Até o presente momento, pelo que nos foi empurrado garganta abaixo, tudo leva a crer e as investigações não sinalizam ou não apontam caminho diferente: existe algo ungido de sujeira grossa; vemos um amontoado de lixo escondido por detrás das cortinas. Persiste na atmosfera, um ar rarefeito, com algo de muito grave se arrastando pelos bastidores, algo considerado fétido, que, até onde conseguimos alcançar, se amontoa imensamente monstruoso diante do nariz da sociedade. A sua constituição, como um todo, deve permanecer encoberto e trancado a sete chaves. Acordos, dimensionados por outra ótica, cheiram a dinheiro sujo, a mutretas, a modificações de conversinhas por debaixo dos tapetes. Acordos são brechas que certos causídicos (regiamente recompensados por polpudos honorários) deles se utilizam visando favorecimentos ilícitos, induções de má-fé e incorreções fantasiosas junto aos representantes do judiciário e, num plano mais complexo, descambam para uma somatória de opiniões contrárias, no sentido de denegrir a imagem já bastante agastada do judiciário, que inclusive, diríamos, anda as raias da total falta de credibilidade por parte da população. Acordos, num lanço espúrio, exalam o odor inexpugnável de jogadas ensaiadas, além de atonar planos bem traçados e estratégias buriladas por cabeças imaginativas, mentes que sabem exatamente como usar os códigos e as leis a seu favor, e, nesse bolo, delas se beneficiarem a bel prazer. O final dessa desordem a galera imagina, dispensa comentários: culpados e devedores, assassinos e salafrários acabam inocentados diante dos tribunais que lhes clamam a carcaça.&amp;nbsp; Devemos ter em conta que são literalmente através de acordos previamente temperados, que a impunidade toma vida e forma, aflora e avança, cresce se e expande a olhos vistos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De certo, temos mais de cem depoimentos tomados, dezenas de perícias feitas no local do crime, com possíveis retornos a ela. A polícia alega nesse juntar de peças, que 70% da cena do crime se conclui fechada, pronta, faltando apenas 30% para ser elucidado todo o mistério. Isso tudo é uma farsa. A policia mente, as testemunhas se contradizem, os familiares empurram "pra barriga", enfim, há todo um pandemônio construído para a trama, para o enredo terminar &lt;st1:personname productid="em nada. As" w:st="on"&gt;em nada. As&lt;/st1:personname&gt;&amp;nbsp; informações que a policia diz ter em mãos, parece manipuladas, espoliadas, lavadas, divorciadas,&amp;nbsp; portanto, de espelharem a verdade que o Brasil inteiro espera, a verdade sem rótulos, sem maquiagem, a verdade&amp;nbsp; nua e crua. Se o senhor Alexandre, voltamos a repetir, não teve nenhuma participação na morte da filha, de igual sorte, a madrasta Anna Carolina é politicamente inocente, se a queridinha irmã Cristiane não vomitou a frase “MEU IRMÃO FEZ UMA GRANDE BESTEIRA” ou teria sido uma “GRANDE MERDA”, não vemos necessidade de toda essa procrastinação, de toda essa enrolação, de todas essas jogadas ensaiadas de cenas marcadas, com câmeras, luzes, refletores, diretores, produtores e, igualmente, não valoramos motivos palpáveis para dar prosseguimento a essa palhaçada tecnicamente bem engendrada, onde, a cada minuto, a cada novo dia, surgem, no picadeiro entrançados e diferentes “disse-disse”, bem ainda, atores novos contracenando com velhas raposas, todos na esperança de subir, crescer e se firmar no papel que lhes foi atribuído pelos autores dessa comedia infame. A morte da pobre e indefesa Isabelle, na verdade virou mídia, deu o IBOPE que todos esperavam. Fez sucesso, se suplantou, engoliu as emissoras rivais com suas traminhas de água com açúcar. Os autores agora, querem fazer de todos nós, telespectadores e integrantes dessa turba de desesperados, um bando de apalermados e bufões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No contra fluxo, atentem para a programação vista a todo instante. É só ligar a tevê. Desde o início da novela, um forte esquema de segurança se posicionou em estado de alerta para conduzir, pelas ruas da cidade, em viaturas da PM e da Policia Civil, os dois possíveis acusados. O trânsito nas imediações do 9º Distrito Policial, do 77º DP e do 89º DP, paralisou horas a fio.&amp;nbsp; O fórum de Santana fechou. As ruas paralelas tiveram o acesso desviado. Formou-se um verdadeiro caos urbano. Um pandemônio de informações desencontradas surgiu em todos os programas levados ao ar, ao vivo, em rede nacional. A encenação foi tanta e tamanha, que pouco ou quase nada se falou do seqüestro de um membro da família do cartunista Maurício de Souza, o pai da Mônica e do Cebolinha e, antes dele, da menina Lucélia, mantida em cativeiro pela empresaria Sílvia Calabrezi. Sem mencionarmos o fato de que até o diretor geral do Departamento de Policia Judiciária, de São Paulo, o brilhante delegado Doutor Aldo Galiano, mostrou a cara, tomando a linha de frente, como bucha de canhão. Estamos batendo nessa tecla, porque segundo a própria imprensa (escrita, falada e televisada), em nenhum outro caso de tamanha ou igual envergadura tivemos o brilhante policial fronteiriço ao palco das investigações, ainda que para tentar passar um mínimo de credibilidade e respeito à população. Possivelmente ele pretende fazer nome às custas da pobre menina morta.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, afinal, nesse conjunto de pequenas doses que nos servem do remédio da inércia, gostaríamos de colocar as seguintes indagações: qual das crianças teria gritado, “pára pai, pára pai?” Pietro de 4 anos ao ver o pai batendo na irmãzinha, ou a própria vítima, a Isabella ao ser espancada? Quem subiu com a menina, o pai, a madrasta, um terceiro elemento? Quem permaneceu no carro? E por quê? Por que a família tão querida e unida não subiu com todos seus integrantes? Onde está a fita com a gravação das imagens mostrando o instante exato da chegada do Ford K de propriedade de Alexandre no interior da garagem, e a movimentação das pessoas que o ocupavam, até o minuto fatídico que culminou com a morte da Isabella? O porteiro de plantão não presenciou essa chegada?&amp;nbsp; Nada viu de anormal? Até quando, meu Deus, até quando vão nos fazer de babacas e bobos da corte? Até que ponto pretendem tapar o sol com a peneira e continuar a atirar excrementos em todo nós? Por que o senhor Alexandre&amp;nbsp; não ligou para o socorro, para o bombeiro, ou para o resgate? Por que, antes de qualquer outra atitude normal de um ser humano perfeitamente situado no tempo e no espaço fez uso do telefone para se comunicar, primeiramente com o pai, o sogro e a irmã?&amp;nbsp; Falta agora o Tribunal de Justiça dar o veredicto final, ou a porrada faltosa: COLOCAR O LINDO CASAL DE POMBINHOS NA&amp;nbsp; RUA E OS DEFENSORES DE AMBOS PEDIREM PROTEÇÃO POLICIAL PARA QUE NADA DE RUIM OU DE&amp;nbsp; MAL ACONTEÇA A ELES. SÓ NOS FALTA, MEUS AMIGOS, A CIVIL OU A MILITAR VIRAREM BABÁS. Não devemos esquecer, em nenhum momento que isto aqui é Brasil, um país de corruptos e baderneiros que se vendem por uma cesta básica. Um apelo veemente pretendemos deixar registrado. Por favor, senhores, não nos subestimem. Não faça de nós, meras bestas e patetas. Melhor colocando a oração: não só a nós, prezados amigos, advogados, familiares dos envolvidos, mas igualmente, os milhares e milhares de pais, mães, avós, os trocentos cidadãos de brio e vergonha espalhados em cada canto deste mundão sem porteiras; enfim, a sociedade como um todo. Mostrem logo a verdade. Para que continuar alimentando essa palhaçada? Essa babaquice está fazendo mais sucesso que “Duas Caras”, da Rede Globo.&amp;nbsp; Não acham os ilustres envolvidos no caso da menina Isabella (e aqui abrimos um parêntese) para nos dirigirmos diretamente aos assassinos... Não seria de bom alvitre, uma vez que estamos todos contaminados pela síndrome da cara de pau envernizada, todos nós, participarmos de um torneiro de ferraduras?!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por todo o exposto, e no meio desta sacanagem, a pergunta que não quer calar: quem, afinal, matou a menina ISABELLA NARDONI?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simples: se no local do crime só estava o casal Alexandre e Anna Carolina - e não foi nenhum dos dois que jogou a menina pela janela - só nos resta vestir a carapuça de bobos e apalermados e engolirmos toda essa balela misturada com um bom prato de arroz com feijão e um copo de refri bem gelado. Terminando, meus caros, meus amados, a terceira pessoa que o casal alega ter estado no apartamento (e por essa razão ninguém viu, claro, nem poderia...) essa terceira pessoa, não é outra senão o Espírito Santo. Só um espírito assim, daninho, consegue dar umas escapadelas lá do céu, ou dos quintos, vir a terra, fazer uma merda dessas e, depois, dar uma banana bem grande para todo mundo e sair da mesma forma que entrou. Voando! Foi isso: o Espírito Santo entrou no apartamento, jogou a menina pela janela, pretendia dar uma trepadinha com a Anna, mas o Alexandre estava puto da vida e ele, o Espírito Santo, achou melhor cair fora. Por esta razão, Senhores Representantes desta nossa justiça de bosta, senhores juízes, promotores, acusadores e outros ores. ACABEM COM ESSA FARSA. CHEGA DE ESPETÁCULOS CIRCENSES. O POVO NÃO AGUENTA MAIS. PONHAM OS NARDONES NA RUA, OS ADVOGADOS DELES JA COMERAM MUITA GRANA. RASGUEM OS PROCESSOS, OU, POR ECONOMIA, DISTRIBUAM OS VOLUMES A UMA INSTITUIÇÃO DE CARIDADE OU, POR DERRADEIRO, USEM COMO PAPEL SANITÁRIO &lt;st1:personname productid="EM CASA PARA LIMPAREM" w:st="on"&gt;EM CASA PARA LIMPAREM&lt;/st1:personname&gt; A BUNDA.&amp;nbsp; PRENDAM, SEM MAIS DELONGAS, PELO AMOR DE DEUS, O ESPÍRITO SANTO. ELE É UM MANÍACO, UM TARADO, UM PEDÓFILO E PODE PINTAR &lt;st1:personname productid="EM OUTRO APARTAMENTO E" w:st="on"&gt;EM OUTRO APARTAMENTO E&lt;/st1:personname&gt; “APRONTAR DE NOVO” MATANDO OUTRA CRIANÇA INOCENTE. VISTO POR OUTRA ÓTICA: PENSEM NA MÃE DE VOCÊS... QUALQUER UMA DELAS PODE VIR A SER A PRÓXIMA VITIMA!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/pre&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;(*) Aparecido Raimundo de Souza, 57 anos, é jornalista. Este texto foi publicado originariamente em 11.04.2008 e anexado aos autos do inquérito quando da fase policial em 12.04.2008.         &lt;/pre&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/900875850386783289-8380406662029568753?l=aparecidodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/feeds/8380406662029568753/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=900875850386783289&amp;postID=8380406662029568753' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/8380406662029568753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/8380406662029568753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/2010/03/isabella-nardoni-mais-um-crime-sem.html' title='ISABELLA NARDONI. MAIS UM CRIME SEM RESPOSTA OU A SOLUÇÃO AOS OLHOS DE TODOS???'/><author><name>Ellen Vieira Martins</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_4368lBpkMvE/S5jwLL7NIyI/AAAAAAAAAHs/Q76XxZvhkcc/S220/thumbs3.phphhhh3333.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_iuE-GxrAkVk/R_XqFBWxV6I/AAAAAAAAYi0/hqcaGGihF8o/s72-c/LUTOISABELLA.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-900875850386783289.post-4023235088149966474</id><published>2010-01-28T02:39:00.000-08:00</published><updated>2010-01-28T02:44:34.043-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pequenas coisas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='aparecido'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='caminho'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rua'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='irreverencia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='picardia'/><title type='text'>Aparecido Raimundo de Souza e seus textos cheios de picardia</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_4368lBpkMvE/S2FqihbzsRI/AAAAAAAAAFc/sSP5CvsFyN4/s1600-h/aparecido_de_amarelo.png"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 107px; height: 163px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4368lBpkMvE/S2FqihbzsRI/AAAAAAAAAFc/sSP5CvsFyN4/s320/aparecido_de_amarelo.png" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431739766908629266" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="padding-top: 5px; text-align: justify;"&gt;  &lt;table style="text-align: left; margin-left: 0px; margin-right: 0px;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" width="100%"&gt; &lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;  &lt;td style="border: 1px solid rgb(170, 170, 170); padding: 4px; font-weight: bold; color: rgb(170, 170, 170);"&gt;  o pensamento de Aurea Pazanini  &lt;/td&gt; &lt;/tr&gt; &lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;   &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="padding-top: 5px; text-align: justify;"&gt; Interessante, como certas pessoas entram em nossas vidas, nos cativam e nos deixam cheias da sua felicidade. É o que aconteceu com um tal de Aparecido Raimundo de Souza, escritor, que de longo tempo venho acompanhando seus textos, um aqui outro ali, outro acolá. Ele tem uma espécie de magia interior que nos contagia, que nos tira as tristezas e nos afasta das infelicidades. Aparecido ri das pequenas coisas, aliás, ele não só ri, ele vai junto com a risada e nos envolve de tal forma que ficamos carentes de sua presença, carentes de seus textos, carentes de coisas novas para continuarmos a nos delicair com suas tiradas, com as suas picardias irreverentes. Foi isso o que aconteceu comigo, repito. ele entrou na minha vida e me fez feliz. Me fez mais alegre. E acredito que fará com você tambem. Seu texto mais recente, "Como abrir caminhos e vencer demandas", é a prova fiel do que acabo de dizer. Aparecido, de um simples panfleto pêgo na rua, fez uma historinha linda, trabalhou bem as palavras e me encantou. E, com certeza, vai encantar voce tambem. Parabéns a todos os blogueiros que nos brindam com seus textos maravilhosos. Parabéns Aparecido Raimundo de Souza, por existir. Quero saber mais de você, quero mais textos. Tenho, na verdade, sede das tuas alegrias.&lt;br /&gt;Sua fã incondicional&lt;br /&gt;Aurea&lt;br /&gt;Fortaleza Ceará      &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/900875850386783289-4023235088149966474?l=aparecidodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/feeds/4023235088149966474/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=900875850386783289&amp;postID=4023235088149966474' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/4023235088149966474'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/4023235088149966474'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/2010/01/aparecido-raimundo-de-souza-e-seus.html' title='Aparecido Raimundo de Souza e seus textos cheios de picardia'/><author><name>Ellen Vieira Martins</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_4368lBpkMvE/S5jwLL7NIyI/AAAAAAAAAHs/Q76XxZvhkcc/S220/thumbs3.phphhhh3333.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_4368lBpkMvE/S2FqihbzsRI/AAAAAAAAAFc/sSP5CvsFyN4/s72-c/aparecido_de_amarelo.png' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-900875850386783289.post-8812647648201958407</id><published>2007-10-09T11:27:00.000-07:00</published><updated>2008-12-09T14:23:47.995-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_diwSTD2u6fk/RwvLd_ntCAI/AAAAAAAAAAU/duuB7ceaJeM/s1600-h/aparecido-net.jpg"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_diwSTD2u6fk/RwvLd_ntCAI/AAAAAAAAAAU/duuB7ceaJeM/s400/aparecido-net.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5119409117591308290" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/900875850386783289-8812647648201958407?l=aparecidodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/feeds/8812647648201958407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=900875850386783289&amp;postID=8812647648201958407' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/8812647648201958407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/8812647648201958407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/2007/10/blog-post_09.html' title=''/><author><name>Blog oficial do escritor Aparecido Raimundo de Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02993589939207432978</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_diwSTD2u6fk/RwvLd_ntCAI/AAAAAAAAAAU/duuB7ceaJeM/s72-c/aparecido-net.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-900875850386783289.post-2454264921454959620</id><published>2007-10-09T11:07:00.000-07:00</published><updated>2007-10-09T11:54:54.905-07:00</updated><title type='text'>QUEM SE ABILITA?</title><content type='html'>Aparecido Raimundo de Souza&lt;br /&gt;  mesmo autor de Com os chifres à flor da cabeça e &lt;br /&gt;     As mentiras que as mulheres gostam de ouvir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM SE ABILITA?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                             &lt;br /&gt;                              Aparecido Raimundo de Souza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefácio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cronista irreverente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) José Augusto de Carvalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A origem da crônica se perde na noite dos tempos. Acredita-se, no entanto, que, inicialmente, nos primórdios da era cristã, a crônica era apenas uma lista de fatos em seqüência cronológica. Daí o nome crônica, do grego Krónos, que significa “tempo”.&lt;br /&gt;Até o século XIV, a crônica era escrita em latim, e narrava os fatos ocorridos durante cada reinado. A partir de Fernão Lopes, a crônica dos reis passou a ser escrita em linguagem portuguesa. Fernão Lopes e Gomes Eanes de Zurara foram os dois melhores cultores desse gênero mais historiográfico que literário.&lt;br /&gt;Foi a partir do final do século XVIII, com o abade francês Julien-Louis Geoffroy, que a crônica deixou de ser história para ser um gênero literário. Geoffroy (1743-1814) começou a escrever crônicas literárias, tais como hoje as entendemos, em 1800 no Journal des Débats, onde já escrevia folhetins (“feuilletons”) de que foi, aliás, o inventor. Inicialmente, o folhetim era um artigo de crítica dramática publicado em rodapé de jornal. A partir de 1840 é que os romances começam a ser publicados em capítulos nos periódicos. &lt;br /&gt;Em 1836, a crônica literária, por influência de Geoffroy, começou a ser cultivada no Brasil. Seus primeiros e principais cultores foram José de Alencar (que também publicou romance em folhetins), Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Artur Azevedo, Olavo Bilac. Os grandes mestres da crônica moderna são Rubem Braga, Álvaro Moreyra, Carlos Drummond de Andrade, Humberto de Campos, Carlos Heitor Cony, Lourenço Diaféria, Luiz Fernando Veríssimo e Fernando Sabino, entre outros.&lt;br /&gt;Ser cronista, hoje em dia é, no mínimo, uma temeridade. A menos que o cronista tenha autoconfiança e acredite no próprio estro.&lt;br /&gt;Penso ser este o caso de Aparecido Raimundo de Souza que, em crônicas atrevidas a que não faltam sarcasmo e ousadia, acaba divertindo o leitor com suas reflexões a respeito do seu cotidiano e do mundo que o cerca. Quando não são os personagens da vida artística, política e cultural – brasileira ou não – que, às vezes, aparecem com nomes trocados, mas facilmente identificáveis, como Paulo Caolho, Monteiro Dogato ou Zélia Lavvai, há os seus próprios personagens de nomes exóticos, como Fosfolônio, Juarez da Birosca ou Pedro Propionato de Clobetasol, nomes inventados com algum toque talvez de ironia, mas certamente com muito senso de humor.&lt;br /&gt;E humor e ironia é que não faltam neste pequeno grande livro que foge – e muito – aos estereótipos da crônica a que estamos habituados. Quem não se divertirá com “As relíquias que não envelhecem”? Ou com trocadilhos como “Gula e Come Zero”?&lt;br /&gt;Aqui o leitor também encontrará o non-sense em várias crônicas, como plantar semente de urubu, por exemplo.&lt;br /&gt;Quase todas as crônicas deste livro são narrativas que não se distinguem de contos curtos: têm trama, têm personagens, têm ação. Não são apenas reflexões de um deslumbrado diante de fatos do cotidiano.&lt;br /&gt;O cantor francês George Brassens (1921-1981) ficou famoso nas décadas de 60 e 70, sobretudo, não por ser “pornográfico do fonógrafo”, como ele próprio diz numa de suas canções, mas por conseguir associar o erudito ao popular, numa linguagem ora desleixada, ora culta, numa mistura agradável e inusitada de registros lingüísticos, do mais formal ao familiar. Sem querer comparar, mas já comparando, acredito que Aparecido é, na crônica, um pouco do que Brassens foi no poema musicado: basta ler, para constatar o que digo, a crônica autobiográfica “Eu, por mim”, ou “O povo com a boca no trombone”, em que a irreverência é a nota fundamental.&lt;br /&gt;Que o leitor, ao lê-lo, vibre com as tiradas desse “bon vivant” que sabe descobrir na vida o que a vida de melhor lhe oferece&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) José Augusto de Carvalho é Mestre em Lingüística pela Unicamp,&lt;br /&gt;Doutor em Letras pela USP,&lt;br /&gt;Escritor e tradutor da Editora Record, com mais de uma centena de livros publicados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisas da modernidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Júlio César ganhou um celular de última geração. Passa fax, navega na Internet, manda torpedos, armazena 1.500 números de telefone, busca rápido qualquer coisa no menu principal, funciona como despertador, toca um monte de musiquinhas diferentes, possui mapa com guia completo de localização instantânea de ruas e logradouros, além de oferecer a previsão do tempo, horóscopo, mapa astral e a cotação do dólar, em viva voz. Tem 200 jogos, TV a cabo e bina. O Júlio, com toda essa tecnologia nas mãos, só deparou com um probleminha na hora de usar: a maravilha não funciona nem por reza braba.&lt;br /&gt;Já o do Roberto vem com dispositivo de segurança que chama a atenção do dono se, por acaso, este o esquecer em algum lugar. Possui antena parabólica e 299 toques diferentes de campainha. Fala fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol, russo, japonês, árabe e até javanês. Escreve textos e cartas de amor, conta piadas, chora em velórios, ri em festinhas de crianças, goza quando vê moça de baby-doll, toca violão, bateria e mais outros 50 instrumentos. Único inconveniente apontado até agora pelo Roberto: a coisa, apesar de todo o requinte, não completa as ligações, deixa a criatura no meio de um bate-papo falando sozinha e o camarada no outro extremo da linha, com cara de tacho.&lt;br /&gt;O do Augusto oferece os mesmos serviços que o do Júlio e o do Roberto juntos, e mais: imprime lista dos principais restaurantes, acumula 100 tipos de pratos diferentes e aponta as melhores bebidas, como vinhos e champanhes importados. Escolhe as roupas que seu senhor deve usar e reza missa com padre Marcelo em latim. Traduz livros estrangeiros, abre uma tela com fundo azul mostrando uma imensidade de casas de shows e, de roldão, as melhores badalações da noite. Vem com carteira de motorista, brevê de piloto de avião, tira e envia fotografias instantaneamente, possui blindagem total de proteção para o teclado e o display caso tome uma pancada ou caia no chão.&lt;br /&gt;Defeito principal detectado pelo Augusto: forte interferência quando se está tentando entabular uma conversação séria. O barulho (tipo chiadeira) chega a ser tão enervante que o infeliz acaba desligando e deixando de lado o assunto, ou procurando o primeiro orelhão, já que jogar para cima não resolve o problema, porque o aparelho é a prova de tombos. E pior: caso o sujeito perca a paciência e resolva arremessá-lo do alto de um prédio, por exemplo, um pequeno pára-quedas cor de rosa se abre automaticamente num compartimento junto à bateria, amortecendo a queda.&lt;br /&gt;Essas coisas da modernidade são assim mesmo. O modelo que adquiri recentemente, para minha filha Dorinha, surpreende, a começar pelo preço. É tão pequeno que precisa de lupa para enxergar o tamanho das parcelas. Tem uma evolução acima de qualquer suspeita. É protegido contra assaltos e seqüestro-relâmpago. Se, por acaso, for furtado ou roubado, volta sozinho para casa. A dinâmica é tanta que seleciona e sugere tipos de namorados, mostra saldos de contas correntes e de cadernetas de poupança, efetua pagamentos de água, luz e telefone, faz caretas para engraçadinhos, oferece pacotes de minutos e embrulho de segundos, caixa postal, siga-me, tecla sap, chamada de espera, despista chatos e inoportunos, late como um cão raivoso, sai correndo atrás quando cruza com gatos, e sobe em banquinhos ao enxergar baratas.&lt;br /&gt;Armazena mil tipos diferentes de informações, avisa se está com fome e se despluga quando quer ir ao banheiro. Não toca em lugares proibidos, como velórios, missas de sétimo dia, salas de audiências, casas de massagem, hospitais, reuniões sociais e vôos domésticos. Obstrui automaticamente todas as funções, por um período de três horas, caso o dono insista em atender a uma chamada no momento em que estiver no trânsito, dirigindo ou na cama, fazendo amor.&lt;br /&gt;Altamente assimilativo, ao receptar uma ligação com notícia ruim, evita que seu proprietário tenha um ataque de nervos, dá conselhos, joga futebol, torce pela Seleção, recita versículos da Bíblia, está equipado para download de aplicativos,  tem display colorido, rádio AM e FM, fone de ouvido e capacidade de envio de imagens e vídeo com alta resolução. Declama Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, odeia os programas do Gugu, do Faustão, da Hebe, da Luciana Gimenez, da Adriane Galisteu, do João Cléber e do Amauri Júnior. O programa Falando Francamente, da Sônia Abraão, ele tira do ar e substitui por desenhos do Pica-pau e do Tom &amp; Jerry. Assume postura retrógrada e entra em parafuso, ato contínuo, se alguém o deixar perto de uma televisão ligada no Ratinho. &lt;br /&gt;Dorinha, diante de todo esse progresso da engenharia superavançada, descobriu uma nova fórmula de usar o celular. Uma modalidade, inclusive, não veiculada pelos fabricantes em seus anúncios, nem comentada pelos vendedores das lojas onde podem ser adquiridos. Basta se afastar um quilômetro para fora da cidade, principalmente depois das 20 horas, que do painel aceso desliza um trocinho muito vivo e pulsante. É como se fosse um consolo duro, mas ao mesmo tempo, macio e quente, que ao ser usado faz aflorar, do mais profundo da garganta, uma série de gritinhos de dor misturados a um êxtase de satisfação de ver tudo entrando, rasgando, centímetro por centímetro, as entranhas, contraindo os grandes lábios e fazendo, em parceria com o clitóris e o resto do corpo, o coração acelerar, descompassado, dentro do peito, como se quisesse sair estabanado por todos os poros da epiderme, graças, talvez, à sua flexibilidade, que dizem ser de 180 graus. Em linhas gerais, o celular é completo. Tão completo que não falta nada, nem quando se trata em substituir o homem. Dá uma mãozinha, ou melhor, uma mãozona na hora de trepar, interagindo com o ato sexual em si, e o que é melhor, colocando para fora uma linguagem até então desconhecida no mundo: a do AVC ou seja, Amor Virtual Carnal. &lt;br /&gt;Em face desta experiência ímpar, vivida e sentida no útero, Dorinha concluiu que esse  tipo de celular é excelente para adolescentes que nunca tiveram a primeira vez com seus namorados. Observa, ainda, que qualquer menina, com um desses ao alcance das mãos, não corre nenhum risco de engravidar pela boca, contrair doenças sexualmente transmissíveis, tampouco de se usar preservativos. Basta o parceiro, na hora do “vamos ver”, não entrar numa de ficar afobado. Segundo ela, nesses momentos, o rapaz deve procurar introduzir o aparelho no orifício que lhe for indicado e fazê-lo com carinho e destreza, devagar, pausada e compassadamente, observando, sempre, que as pernas da guria  permaneçam bem abertas e a sua visão do triângulo e da racha -, ou melhor, da racha no centro do triângulo, ou do olho do cu, se for o caso -, não desapareça. O único temor de Dorinha, com relação a quem vai usar um desses aparelhos é a ansiedade e o nervosismo do sujeito querer enfiar rápido demais ou tudo de vez, e, nesse afã natural que atropela a idade, o parceiro  ou a parceira gozarem, e, ao fazê-lo, perderem o controle da situação e o brinquedinho sumir, de vez, lá por dentro sem que depois se consiga trazê-lo de volta, a não ser com a ajuda de um médico especialista em aparelhos atochados em orifícios pouco ortodoxos, o que criaria,  para o casal, uma situação bastante delicada e vexatória, além de vergonhosa e humilhante.&lt;br /&gt;O celular de Dorinha é, portanto, idêntico ao que presenteei à Suzana, minha namorada, no dia do seu aniversário. Talvez seja um pouco mais requintado que o de Júlio César, ou mais aprimorado tecnologicamente que o de Roberto e o de Augusto. Refinadíssimo, passa filmes, faz travessuras, anda a cavalo, gosta de Zeca Pagodinho, limpa a casa, cozinha, chama o elevador e sabe mexer com os controles da tela plana de 43 polegadas e do DVD sem precisar ler os manuais, além de vir equipado com GPRS, sons polifônicos e ainda dispor de uma tal de teleconferência para cegos, pernetas e esposas de ministros  pré menstruadas. &lt;br /&gt;Possui defeitos? Sim! Fica a maior parte do tempo mudo ou fora da área de cobertura, mesmo que você o cubra com alguma coisa bem picante, como pirão de Lula ao molho de Marcos Valério. Não dá palpites para os números da Mega Sena nem prevê se algum avião vai sair da sua rota e bater na Câmara ou no Senado em Brasília, matando uma porrada de deputados e senadores inocentes  antes de chegar ao seu destino, ou onde Bin Laden e a sua turma da Al Qaeda vão atacar da próxima vez. Mas isso não importa muito. Suzana não anda de avião nem joga na loteria. Nem é inimiga dos ratos de colarinho branco, nem quer ver Osama comendo capim pela raiz. Estou feliz pela minha filha e agora também mais contente pela namorada. Ela gostou, melhor dizendo, amou o presente, principalmente depois que teve um papo de pé de ouvido com a Dorinha e o namorado dela.&lt;br /&gt;Por conta dessa conversa, todo dia uma cena se repete dentro da BMW, seja no escurinho do estacionamento do apartamento onde ela mora com os pais, seja na garagem de casa. Fechamos tudo e passamos para o banco de trás. Ficamos nos beijos e nos amassos até que os vidros embacem totalmente. É a partir daí que o bicho pega. Como uma desmiolada bem puta e vagabunda, Suzana suspende o vestido e pula no meu colo. Abre bem as pernas e senta, ou melhor, aterrisa, de costas  e pede que introduza o aparelho em seu rabo, até o ânus. A criatura, nessa hora, parece que entra em transe como se beijasse a língua do Paulo Maluf. Começa, então,  a gritar “PT, PT”, (cuja tradução seria Põe Tudo) e a rebolar o traseiro como qualquer vagabunda que tivesse a chance de passar uma noite de orgia fodendo num dos ricos quartos do Palácio da Alvorada e a gemer feito uma louca desvairada, ao som ambiente de um cd com a Ave Maria de Haendel. Por precaução, costumo tirar a calcinha, quero dizer, a capinha do celular, e, junto, de roldão, desligar a tecla da bateria: evita surpresas, como a de alguém ligar no meio da brincadeira e, na hora de atender, se descobrir que foi apenas um palhaço idiota que discou, sem querer, para o número errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O golpe da barriga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo começou com a chegada da Eva no paraíso. Naquele tempo, não existia o golpe da barriga. Por isso, a primeira mulher, nove meses depois, aplicou, em Adão, a velha jogada da serpente. Deu o bote. Conclusão: a maçã, que não tinha nada com o peixe, levou a pior. Ficou grávida do pecado original. Existem pessoas que discordam do nosso pensamento. Sustentam que a história dos golpes teve seu real início com Paulo Caolho que, vítima de um demônio da Srta. Prymprim, pulou de banda e, nesse salto, como se estivesse possuído pelo espírito aventureiro de um guerreiro da cruz, metido a garanhão, comeu Frida e as Malkírias em tempo recorde: 11 minutos! Por essa razão, Verharmonika, apaixonada, deu uma trepada inesquecível com o Malquinista, que antes havia tomado um banho nu em pêlo sentado na margem do Rio Piedra, feito careta e mostrado a língua para um tal de Zahir que resolvera vir cagar ao seu lado e, justo, limpar a bunda com o Semanário de um Magro, que estava acabando de ler. O Malquimista provou  também do néctar escorrido do cuzinho da Bruxa de Pintofino e esta, pê da vida, resolvera denunciá-lo por estupro.  Enquanto isso, Verharmonika, inconformada,  resolveu ir mais longe na sua loucura e  anunciar que estava grávida de Paulo. Como Paulo andava de olho na Chisbina Oitoencica, com quem se casou algum tempo depois, Verharmonika decidiu morrer se suicidando nas cercanias do Monte Trinta e Cinco.&lt;br /&gt;Monteiro Dogato, criador do Sítio do Pega-Mal-Sem-Chinelo, também não escapou das línguas ferinas do seu tempo. Correm boatos até hoje de que a Narizdovizinho tentou passar a perna em Dogato. Ou melhor, o que tinha entre as pernas. Mas ele, esperto, saiu pela tangente, temendo a fúria de Dona Agüenta que, às escondidas, chupava o pau do Burro Falante. Furiosa, Nariz deitou só de calcinha na cama do Marquês de Rabicocó. Um fiasco! O Marquês era bicha, não gostava de comer bocetinha e, pior, dava o caneco para o Pedrinho e também para o Saci. Foi efetivamente com o Príncipe Escamado que a dócil e meiga Narizdovizinho perdeu a virgindade e não como divulgado pela imprensa da época, quando os jornais noticiaram, com enormes estardalhaços, que o pai da criança era o Visconde de Saibugosa.&lt;br /&gt;Há, em contrapartida, outros casos famosos. Frad Fritt caiu como um patinho na conversa mole de Pennifer Amistosa. Stiquem Spilaiceberg dançou bonito ao passar à frente a Lista de Elevadores Schindler. Dizem que ficou de quatro por uma fêmea bisonha de dinossauro. Mas levou o golpe da barriga do ET, que engravidou seus bolsos.&lt;br /&gt;Ciciane Caramujo, modelo e atriz, quis dar a canelada certeira na barriga no cantor Velo. Contudo, safo e desembaraçado, o rapaz empurrou a namoradinha para escanteio, pintou o cabelo de loiro, gravou um CD maneiro e preferiu enrolar a vida com o Valdir Ferratrês, o MalVado. Permaneceu de molho, por causa dessa burrice, numa cela imunda da Polícia Civil no Rio de Janeiro, por 34 dias. E, pior, pode voltar, a qualquer momento, a não ser que seus advogados decifrem o Código Da Vinci para o promotor de justiça e comprem um apartamento de cobertura, na Vieira Souto,  para o juiz que julga o caso.&lt;br /&gt;Roseana Semlei, não tendo como  dar o golpe da barriga, no marido -, pois fizera uma ligadura, às escondidas, com um ginecologista, amigo seu, dos  tempos da faculdade -, resolveu traí-lo com o motorista da família. Jorge Mulad, descobriu tudo e ficou furioso. Para não ficar por baixo e ser chamado de chifrudo, resolveu pagar na mesma moeda e dar o troco à esposa. Antes que ela atinasse com o que estava acontecendo, chutou, ou melhor, chuchou  a gorduchinha da filha mais nova do caseiro. Nessa estocada, fez um belo gol e ela, a filha do caseiro, concebeu, antes de nove meses, um lindo pimpolho, ao qual deram o bonito nome de Lemos Agripina. Por causa dessa prenhez indesejada, Roseana  teve que abandonar, às pressas, a candidatura à Presidência.&lt;br /&gt;O impetuoso Robinson R-44 não deu, mas recebeu o golpe na barriga do comandante Estopim Saicaro, da PAM. Furioso por ter sido traído por seu helicóptero de confiança com a secretária Patrícia Semsantos Silva, Estopim derrubou os dois, numa manobra esquisita, perto de sua fazenda em Pedro Juan Caballero, indo, só de raiva, junto, e, de contrapeso, assumindo, no final, as burrices pelo impensado gesto.&lt;br /&gt;Em linha paralela, o valoroso (ou seria rendoso?) golpe da barriga vem expandindo a todo vapor, devido à cobertura diária da mídia, de Norte a Sul do País. Cafufu (como toda a Seleção) beijou tanto a boca da Traça do Entra que andaram dizendo, logo que voltaram para casa, que a estatueta pegou um sapinho brabo, ainda no avião. E, por conta, o presidente da Fififafá precisou arranjar um SPA de última hora para que ela descansasse, escondida, longe dos olhos sujos da imprensa. Todavia, um repórter abelhudo da revista Mixto É Quente foi mais longe e confirmou ter visto o resultado de um exame Beta HCG recente: a Traça realmente está em estado interessante. Com certeza, será difícil, para o Brasil, na próxima, segurar hexa. &lt;br /&gt;Broque, ajudante de palco de Sírviu Tantos, não é de hoje, vem tentando dar o golpe do baú, na barriga do homem do paú. Está difícil, mas ele não desiste. Todavia, Rombardi, que só quer SBT (e não SBP, que serve para matar insetos), promete, de cabeça erguida: ano que vem o tiro de misericórdia dos dois, não sairá pela culatra, mas sim, pela “culetra”. Isso quer dizer o seguinte: o rebento de Sírviu e Broque, com certeza, nascerá e mostrará a cara na Casa dos Eletricistas, edição 24.&lt;br /&gt;Jorge Gozado, antes de conhecer a Vélia Lavvai, teve um casinho passageiro com a Gabristela. Correram boatos, logo que descobriram o romance, que o escritor baiano só comprava cravos para dar de presente à moça e, quando se encontrava com ela, num quartinho alugado perto do Pelourinho, punha em prática uma tara antiga: beijava sem parar a canela da jovem. Entretanto, foi pelo Sumiço da Anta que  ferrou o lombo de verde amarelo: o pessoal do Ibama ficou um tempão no seu encalço, querendo saber onde o autor de Mar Torto e Avelino Grapiuna havia escondido o tal bicho, já que a Anta, lá por aquelas paragens, era e ainda é considerado, até hoje, um animal em extinção.&lt;br /&gt;Antonieta do Agreste também botou as manguinhas de fora e deu o golpe, tudo por causa do ciúme que sentia de Gabristela. E Gozado se viu, de repente, às apalpadelas, sem saber se comia a Vélia, se jantava a Gabristela ou se palitava os dentes com a Antonieta. Acuado e sem saída, fugiu, às carreiras, de braços dados com Dona Cor, (sem seus dois feridos) para as bandas das Terras do Sem Mim, lá para os lados de São Borge dos Escarcéus. E dizem, ainda, que se escondeu por uns bons cinco dias em casa de Quincas Burro D’Égua.&lt;br /&gt;A coisa é bem complicada e não pára por aqui. Adriane Galiosteu deu o golpe fatal no “Cantinho das Roletas” e fisgou o Penna, embora o piloto só andasse voando e de braços dados com a Bruxa. Para se livrar das duas chatas, Penna se mandou do Brasil e  foi parar em San Marino, em Ímola, onde de repente decidiu encarar o outro mundo dando um beijo de adeus meio esquisito na curva do Tamburello, matando a si próprio e a seu carro, que não tinha nada a ver com a situação. Sirene Domingues aplicou no Ronaldentinho e garantiu, com um  robusto moleque, a pensão pelo resto da vida. A Edna Novo escolheu o Rosário e deu à luz a Raphapel. Por um bom tempo, (ou pelo  menos até o guri completar a maioridade) o craque vascaíno se verá às voltas, engasgado com um monte de bolas queimando goela abaixo.&lt;br /&gt;É claro que nem todas as pessoas seguem por esta estrada. Vudu Perdeopato, por exemplo, não caiu na esparrela. Ao contrário, equilibrou o golpe antes, principalmente depois que recebeu uma carta de Nossa Senhora de Marchaarré, carta essa levada em seu programa dominical pelo vidente Eurípedes Totonho Flamenguista Minto. Por assim, comprou a médica Pose di Metteo e, meteu nela uma barrigada chamada Pão Aususto. Na verdade, Vudu só  queria competir com a Bruxa, que ultimamente vem falando muito abertamente com duendes e, por ter esse canal aberto com esses seres “extras”, providenciou a vinda de Cascha ao planeta.&lt;br /&gt;Parla Ferez e Manel Abichaonde Quidoidera da Silva, ou simplesmente o Xanty, vocalista da bunda Desarmonia do Sombra, e Alicéa e Confelso Nãopitta são também modelos importantíssimos. A primeira, porque deu o golpe da dançarina e o Brasil inteiro (na falta de coisa melhor) se apaixonou pelas lindas ancas do Tcham, enquanto Manel pulava em cima do seu motorista particular só de calcinha de renda e chupeta na boca balbuciando mama, mama, quero mama; a segunda,  descontente com as falcatruas do marido, meteu um ferro em brasa em sua barriga. Confelso, pego de surpresa, e não tendo como escapar, acabou engravidando o Banestado com o desvio de dinheiro para as propinas pagas às empreiteiras das obras da Avenida Águas Espraiadas e do Túnel Aylton Senna, sem mencionar a empresa Offshore Yukon, que passou a lavar e a secar dinheiro. Com isso, Alicéa, que queria uma pensãozinha de Confelso e outra do senador Enterro País de Burros, então presidente da CPI, tomou no pescoço, além de ter caído no esquecimento e, pior de tudo, ficado a ver navios, sem o pito de Pita para pitar nos finais de semana. Não devem ser esquecidos, igualmente, Gonorréia e o Carlos Aberto da Semgraça é Nossa (onde, por acaso, só ele ri) e do Júrnio, que está grávido, de oito meses, da Sandidy, embora Chupãozinho e Xauprecó  não acreditem nessa historia. Enfim, esses casos todos citados reforçam, de maneira insofismável, a teoria da boa “lapada”, grosso modo, golpe da barriga, se for bem estudado e igualmente aplicado na hora certa, poderá propiciar muitos e muitos anos de felicidade, sem se precisar fazer um esforço muito grande.&lt;br /&gt;Evidentemente, poderíamos elencar um número infindável de situações semelhantes. Só para refrescar a memória, estão lembrados do astro do rock Quick Fagger? Nem ele, com aquela cara de drogado, escapou. A Prussiana Gemeumenos, foi mais esperta e trouxe ao mundo o Malucas, observando que a dondoquinha “namorou” apenas uma noite com o popstar. O refúgio dos deuses na sofisticada Ilha de Meestique, no Cabide, com oito quartos, piscina, banheira de ofurô e praia particular, avaliada em l0 milhões de dólares, não interessaram à donzela. A “belle de jour” só se envolveu com o trouxa para dar o golpe da barriga. Hoje, a espertalhona trabalha numa estação de televisão fazendo um programa medíocre para imbecis de fino trato.  Como os malditos horários políticos gratuitos (gratuitos uma merda) nós merecemos ver esse monte de lixo na nossa telinha!&lt;br /&gt;Seguindo adiante, querem um amor mais bonito que o da socialite Fatrícia de Saibrit com o cantor Cábio Juntor? Foram l35 dias de idílio. E, antes, ele já havia “ficado” com a Temreza de Paiva Canudinho, com a Glória Atires, com a Quistina Karthalida e Guindastina Guinle. Nenhuma delas, diga-se de passagem, conseguiu se enquadrar na sua Alma gêmea. E de Palvão Sereno e Deunopé Soares? Pois é! Não nos esqueçamos, pelo amor de Deus, do Armênio Craca e o Brinco Central, e, principalmente, do juiz Quilalau dos Santos Comequieto e o golpe de mestre, no fórum do Tribunal Descansalhista inacabado.&lt;br /&gt;Tem o cara da Deus é Pavor, o pastor e comedor de irmãs, (ou melhor, ovelhas) Davi Sembanda; da Ruaberta Cavaloeri e o jogador Athirson Maozzolli; do Brasil com o FMI; da Cheiana Quadro e o lutador Irrito Holofote; da Tiaminha com o chicotinho; do bispo Fudir Maicedo e a Igreja Universal do Reino dos Meus, do João Paulo Nãoquis e a modelo Wernanda Wolks; de Paul Ameixas e o Trem das Sete; da Elaeana e Roberto Apertado; de Gérson Sirene e Valise Tattu; do Gamestavo Kucurto (o Gugu-gagá) com o tênis; do Juiz Inácio Cavalo da Silva e o PT; da Grana Saula e o vôlei; de Pelelé e Asília.&lt;br /&gt;Não podemos falar nada, absolutamente nada, da Canivete Bruno e  Pulo Boulart. Igualmente, da Cláudia Esqueceu e do diretor Souzé Henrosque Fonteseca; da Elaine Miquealy e Reza Bigorrilho; ou da Maria Afrita e Roeuaberto Carlos. Só para servir de ilustração, o romance desses  dois  foi tão bonito que deu até música, gravada, “a depois,” pelo rei. Também nada podemos dizer de Zemané di Estaamargo e Zebu, Rosnar Santos e Rosaamarraria, Caçarolinha e Estaria na Paz, Fulio Stufanimim e Quemdera, Bom Casalcanti e Pautrícia, Vilião Bonde e Bátima Bernardines, Podre Querverdo e seus enigmas indecifráveis, Búlia Lemenostz e Aleixandre Gorges, Antoine de Saint-Éxupéry e o Pequeno Príncipe, Auaurélio e seus dicionários, entre outros. Como não podemos fofocar em cima desses, calemos a boca de uma vez por todas. Terminando, ontem conseguimos descobrir o e-mail de Jesus Cristo, o Salvador, através de Mel Gibson, que está filmando sua nova paixão e logo estaremos vendo o filho de Maria e de José sofrendo horrores enquanto comemos pipocas e damos uns amassos na namorada. E como todas as igrejas vivem anunciando a sua volta triunfal, com bandas de  músicas e fogos de artifício, resolvemos lhe mandar uma mensagem. Dizia o seguinte:&lt;br /&gt;“Amado Jesus, por aqui todas as denominações apregoam seu regresso. Em cima desse possível retorno, vendem sua imagem a preço de ouro, falam de suas graças, de seus milagres e de seus infindáveis poderes. Em seu nome, tem nego ficando rico, pastores comprando emissoras de rádio, redes de televisão, mansões à beira mar, jatinhos particulares, helicópteros, bispos carregando dízimos disfarçados em meio a um montão de cuecas, com passaportes para a Disney,   abrindo contas em paraísos fiscais, o diabo. Se realmente, pretende voltar, ó Glorioso Jesus, cuidado com o golpe da barriga. O Senhor correrá o risco de ser massacrado e torturado novamente, só que, desta, em horário nobre, numa emissora de TV, para garantir o ibope de certos apresentadores”.&lt;br /&gt;“O golpe que vão lhe aplicar não é outro senão o da barriga, (todavia, na hora eles arranjam um nome bem comercial para engambelar os telespectadores) evidentemente, para tentar descobrir se, realmente, o Senhor é Filho de quem se diz ser. Vai ser difícil colher o material, ou seja, o sangue, até porque a Virgem Maria, sua mãe, ninguém sabe por onde anda. Seu amado pai, o Grande Arquiteto, conhecido por vários nomes, entre eles Deus, também nunca foi visto nem mais gordo nem mais magro. Diante disso, como é que vão fazer o exame de DNA? Se o Senhor for no “Dobobão do Faisão”, aquele idiota da Tlobo, com cara de mongolóide passado a ferro a vapor, tudo bem. Ele não vai deixar o Senhor falar, e, com certeza, interromperá a entrevista por diversas vezes para mostrar o novo CD de algum padre cantor (isto agora virou moda, por aqui) e a coisa vai morrer por aí”.&lt;br /&gt;“Todavia, se o Senhor cair no programa do Camundonguinho, outro demagogo sem vergonha, ele vai querer, de qualquer forma, custe o que custar, o exame de DNA. Por conta, xingará seu pai de veado, sua mãe de puta e o coitado do carpinteiro José, de corno e, com certeza, principalmente se os três não derem as caras, o que é mais provável, o Senhor será realmente açoitado e crucificado, não sem antes ser taxado, rotulado e carimbado como o chefe supremo do PCC, ou do Comando Vermelho, ou, quem sabe, apontado como responsável pelo secreotário Garrotinho ou pela mulher dele, a Rosadinha, como o chefão do tráfego de drogas no Morro da Rocinha, ou do Vidigal, no Rio de Janeiro. Isto, se não lhe impingirem, igualmente, as mortes do jornalista Tim Lopes e do assaltante Sandro do Nascimento – aquele que seqüestrou o ônibus da linha 174, aonde, infelizmente, veio a falecer, a estudante Geisa Firme Gonçalves”.&lt;br /&gt;Até o presente momento, não recebemos resposta de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infância&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tanto vai a nada a flor que um dia se despetala.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guimarães Rosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem poderia imaginar uma loucura dessas? Eu desejava plantar uma semente de urubu no fundo do quintal lá de casa para ver se nascia uma ave igual às muitas que avistava da janela do carro de papai, quando ele vinha me buscar no final de semana, para eu ficar com ele em seu apartamento, na capital. Há curto tempo, ele  havia se separado de mamãe e, desde então, passei a dividir as loucuras do vaivém incessante, entre a cidade barulhenta e a roça, esta despojada dos espetáculos que enchiam meus olhos de menino a uma semana no albor dos oito anos.&lt;br /&gt;Tinha verdadeira adoração por meu pai. Ele era o meu herói de todas as horas. O homem forte que lutava com dragões gigantes e vencia as batalhas mais difíceis e impossíveis. Pouco acima da linha dos 30, profissional conceituado na firma onde trabalhava, procurava manter o ritmo de antes, quando ainda vivia com a gente. Não deixava me faltar nada. Do computador moderno ao celular de última geração, do brinquedo mais sofisticado aos jogos de vídeogames recém-lançados no mercado; sapatos e roupas com as assinaturas das melhores grifes. À mamãe, também fazia graças elegantes, marcando presença constante. Não porque quisesse tê-la de volta, em absoluto. Simplesmente seu coração era grandioso demais e o amor que nutria por nós ultrapassava os limites do mensurável.&lt;br /&gt;Quando o questionava sobre morar novamente embaixo do mesmo teto, ele, muito polidamente, ficava em silêncio. Um silêncio que chegava a ser constrangedor. Despistava, mudava de assunto e, por fim, para não me deixar totalmente sem resposta, inventava uma desculpa esfarrapada, mas que, bem sabia, não convencia meu ego interior, sedento de alguma coisa mais concreta.&lt;br /&gt;Eu era uma figura esguia, porém franzina e tímida, alvo fácil dos guris mais corpulentos, que, vez por outra, inventavam de querer esperar por mim na porta da escola, para me descerem a lenha nos costados. Me chamavam de “galinho rico”, porque a melhor mochila era a minha, como a calça do uniforme e o tênis. Enfim, implicavam até com a merenda que eu levava na lancheira. Por isso, tinha raiva deles, um ódio mortal, um sentimento que, se pudesse ser posto à prova, aniquilaria a todos só com a força do pensamento.&lt;br /&gt;Quem sabe fosse essa a razão maior de eu querer plantar uma semente de urubu lá nos fundos do terreno de casa. Se pudesse comandar a ave, como num jogo, certamente não pensaria duas vezes para ordenar que arrancasse o couro daqueles molecotes desgraçados e depois deixaria que o bicho devorasse suas  carnes fedorentas até atingir os ossos. Não sabia, claro, que os urubus não matam, apenas se alimentam de carniça. E mais: desconhecia o princípio da vida. Eles não nasciam de sementes jogadas à terra, como se fossem plantinhas caseiras que floresciam e se tornavam adultas com o passar dos dias. O processo era um pouco mais complexo, e a sua formação estava muito aquém dos meus conhecimentos limitados.&lt;br /&gt;Mas o dia de hoje tinha um motivo a mais para ser comemorado. E não somente pelo fato de papai ter vindo me buscar na roça. Uma satisfação profundamente marcante regozijava meu mundo de criança mimada: o aniversário dele. Essa data não poderia passar em branco. Mamãe, dias antes, comprara um presente requintado para que lhe fosse dado. Nunca me senti tão próspero — apesar da pouca idade —, tão orgulhoso de mim, em poder retribuir à altura tudo de bom que recebia daquele homem de cabelos cortados à militar, vestido a rigor, impecável em ternos de linho, com motorista particular que abria e fechava as portas do carro e fazia reverências engraçadas.&lt;br /&gt;E mamãe? O que dizer dessa mulher maravilhosa que preenchia o meu outro lado? Se papai era o corpo sólido, ela, evidentemente, se constituía no espírito materializado, na beleza angelical e pura, na santa que venerava todas as horas, de modo incansável. Mamãe, era como uma bebida gostosa, um  vinho raro e doce que embriagava os lábios. A fruta apetitosa que saciava a fome, a zelosa que distribuía carinhos e atenções especiais. Entretanto, com todos esses atributos, mamãe não passava de uma criança abandonada. Às vezes, eu sonhava que ela havia sido deixada por alguém que eu não distinguia bem a fisionomia. Seriam os pais dela, meus avós maternos? Ou será que ela não conhecera, ou mesmo, não tivera os pais? O fato é que  a via dentro de um cesto, largada à sorte, abandonada ao relento, à frente de uma casa humilde  e de um bando de transeuntes que passava ao largo da rua e lhe virava o rosto, indiferente à sua solidão.&lt;br /&gt;Embora lutasse para parecer alegre, no fundo algo me dizia que um vazio muito grande embaraçava seus passos. E por que se separou de papai? Por quê a vida deles, a dois, não deu certo? Dava vontade, às vezes, de sentar em seu colo e perguntar, indagar, conversar como adulto, como gente grande. Contudo, nas poucas oportunidades em que ensaiei partir para o assunto, ao me aproximar, sentia-a temerosa, intranqüila, afogueada, tal como uma dessas muitas criaturas que vivem pelas ruas, perdidas, vegetando a contragosto, presas a esmolas e restos de comidas, como mendigos  nas sinaleiras.&lt;br /&gt;Agora, esperaria a hora oportuna para entregar o presente. Mamãe fizera uma manobra rápida para que o embrulho em papel vermelho com um laço discreto chegasse ao porta-malas sem que papai desse conta. Foi fácil. Não enfrentamos embaraços. Do nosso lado, dando uma força, o bondoso Eugênio, o motorista. Assim que saímos, vi pelo retrovisor que me dera uma piscadela, acompanhado de um sorriso de cumplicidade.&lt;br /&gt;Finalmente chegamos à capital. Amava o burburinho dessa metrópole gigante, os ônibus, as pessoas de um lado para outro, atormentadas com seus afazeres. Semáforos demorados, a fila interminável de automóveis de todos os tipos e cores, buzinas, gritarias, a vida fluindo rápida, engolindo os minutos. Num dado momento papai se virou para meu lado e perguntou:&lt;br /&gt;— Com fome?&lt;br /&gt;Balancei a cabeça afirmativamente. Algumas quadras a frente, paramos num restaurante em que já havíamos estado anteriormente uma dezena de vezes. Uma moça solícita, logo que reconheceu papai, veio ligeira, ao nosso encontro, abrindo passagem e indicando um dos imensos salões luxuosos. Assim que nos sentamos à mesa, e depois de pedido meu prato preferido (o garçom sabia de cor, nunca mudava), disse que precisava ir ao banheiro. Uma mentira convencional. Na verdade, corri para os fundos do prédio onde havia uma saída para o estacionamento.&lt;br /&gt;Eugênio, em pé, ao lado do carro (como a me esperar) se apressou a abrir o porta-malas e de lá me ajudou a retirar o misterioso embrulho. Quando retornei, papai falava ao celular, de costas para mim. Fui me aproximando, devagarinho, pé ante pé, a respiração contida, um sorriso largo, o coração batendo acelerado.&lt;br /&gt;— Pai!&lt;br /&gt;Ele se virou, interrompeu a ligação com um “Te ligo depois”, se levantou, colocou o aparelho sobre a mesa, abriu os braços e caminhou ao meu encontro. Dois passos, apenas.&lt;br /&gt;— Campeão, o que é que temos por aqui?&lt;br /&gt;Acocorado, me beijou longamente a testa.&lt;br /&gt;Naquele instante, todos os que estavam acomodados em mesas à volta, pararam para  nos observar. Ouvimos, de repente uma aclamada salva de palmas. Se tivesse combinado com alguém, aquela recepção momentânea, certamente não teria dado tão certo.&lt;br /&gt;— Por essa seu pai não esperava. A cada dia você me surpreende. Obrigado, filho.&lt;br /&gt; Fez uma reverência com a cabeça, em agradecimento às palmas recebidas, e, em seguida, voltamos a nos sentar. Antes do primeiro gole de refrigerante, enquanto desembrulhava a enorme caixa com a velocidade febril que atropelava a sua idade, me virei para ele e comecei a falar. Tudo o que havia em volta da gente me dava a impressão de estar em estado de suspensão, de enlevo e de graça. Eu sentia que os pratos, os copos e os talheres postos sobre a mesa vibravam com a nossa presença.&lt;br /&gt;— Queria dizer uma coisa — falei com efusão —, mas não sei como começar. Só sei que amo muito o senhor e quero que o senhor nunca se esqueça de mim.&lt;br /&gt;Papai se deixou envolver, encantado pela felicidade que sentia. Capturei duas lágrimas rolando pelo canto dos olhos, escorrendo, ligeiras, por sobre as maçãs do rosto. Parecia embalado por um doce acalento, ao tempo que lutava, com todas as forças, para fugir de lembranças e melancolias amargas que o definhavam interiormente. Nesse instante, embora não entendesse muita coisa do mundo dos adultos, vi, diante de mim, um homem forte, mas sozinho; senhor absoluto de si, mas desprotegido; dono da verdade, mas amargurado; desorientado no espaço, como se tivesse perdido a noção do essencial e se sentisse, por isso, preso nos laços do impenetrável de seus pensamentos mais lúgubres. Recordo que não consegui conter a emoção e me abri num choro soluçante que demorou a passar. De súbito, ele deu comigo a observá-lo. Nossos olhos se encontraram, ele se perturbou. Constrangido, vacilou, ameaçou baixar a cabeça, mas acabou sustentando o olhar e enfim se abriu num sorriso mágico.&lt;br /&gt;— Você será sempre o meu campeão. Não importa quanto tempo passe, jamais deixarei de amá-lo. Você foi, é, e será sempre o presente mais bonito que recebi lá do céu. E sabe de uma coisa? Só posso agradecer à sua mãe por isto e também por este momento. Acredite, meu filho, ele será eterno.&lt;br /&gt;Após essas palavras, me abraçou novamente e tomou as minhas mãos entre as suas. Até hoje, tantos anos depois, guardo, ainda, dentro de mim, o encanto e a magia daquele instante, como se fosse único e verdadeiro. Aliás, foi realmente único e verdadeiro, puro, como seu gesto bucólico de pegar as minhas mãos e de aninhar minha cabeça contra seu peito, e eu me lembro que me senti feliz e seguro – seguro e feliz - ouvindo as batidas descompassadas do seu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os gritos no silêncio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia me hospedei num hotelzinho do interior, onde participei de uma cena inimitável, hilariante, diferente, com certa pitada de humor, mas, ao mesmo tempo, de embaraço, vexação e constrangimento. O porteiro me alojou junto com meus bagulhos no único buraco vago existente, já que os outros apartamentos estavam ocupados. Como as horas beiravam as duas da manhã, o mais sensato foi me conformar com aquelas quatro paredes nojosas, cheias de mofo e de teias de aranha. Isso, sem falar da velha cama de solteiro barulhenta e ruidosa, fedendo a mijo, com o lençol ensebado e gorduroso e o travesseiro sem fronha.&lt;br /&gt;Para completar a má sorte, um aparelho de televisão do tempo do ronca, gerando chuviscões em parceria com imagens distorcidas e fantasmagóricas. Mas isso não era, ou melhor, não foi tudo. O bicho pegou para valer 20 minutos depois. Já me acomodara entre o cansaço e a vontade de dormir, preso aquele marasmo enfadonho, contando bichanos na gateira, à espera do sono que em vão tentava conciliar. No aposento contíguo, alguém começou a gemer. Seria um doente? Inicialmente, só se distinguia algo parecido com hum... hum... hum... hum... hum...&lt;br /&gt;Esses sons aumentavam de intensidade gradativamente. Às vezes, se tornavam nítidos demais; noutras diminuíam, até não se ouvir absolutamente nada. Logo em seguida, recomeçavam, se prolongavam e, estranhamente, ficavam repetitivos. Que chateza!&lt;br /&gt;— Hum... Hum... Hum... Hum... Hum...&lt;br /&gt;De repente, uma voz feminina e melodiosa irrompeu em meio a toda aquela confusão de rumores, como se alguém estivesse na iminência de explodir para um gozo incontrolável e prazeroso.&lt;br /&gt;— Vamos, amor! Assim, assim... Vai... Vai... Ai... Ai... Assim! Vai... Vai... Mais fundo, assim, ai... Aiiiiiiii...&lt;br /&gt;Evidentemente, se tratava de um casal fazendo amor. Não havia mais dúvidas. O interessante é que só a mulher manifestava a tensão pela qual passava, abrindo a boca e soltando palavras voluptuosas e cheias de deleites sensuais. &lt;br /&gt;Imaginei a fêmea em delírio, alucinada, segurando os cabelos com as mãos, cavalgando, desatinada, a boceta  gulosa engolindo a pica do macho, num vai e vem  intermitente, o traseiro rebolando descompassadamente, freneticamente, como se quisesse fundir o  calor das suas entranhas ao suor que brotava do parceiro. Todavia, o que me deixava prostrado e boquiaberto, meditativo e intrigado, era o sujeito. Ele não falava. Geralmente, nessas horas do rala-e-rola, por mais fechado, ou por mais inibido que alguém possa ser, sempre há o desprendimento, o devotamento e  a abnegação, à medida em que um vai conhecendo o outro, seja na troca das carícias, seja nos afagos e mimos, ou nas lisonjas e branduras. Mas o cidadão não saía do hum... hum... hum... hum... hum..., como uma agulha empacada em cima de um disco de vinil arranhado e, nessa confusão, só me chegava aos ouvidos a voz da vedete que, naturalmente levada pelo apogeu do prazer da penetração, quebrava o silêncio terno da madrugada longa e fria. &lt;br /&gt;Nervoso, e comendo as unhas, arrisquei abrir um pouquinho a porta de madeira, bem lentamente, para não ranger as dobradiças e ver se, do corredor, distinguia algo que revelasse o segredo. Contudo, ao tentar meter o bedelho, percebi que outros albergados faziam o mesmo, olhando cada qual para um lado e todos para lugar nenhum, escudados pelas frestas das portas entreabertas. Com cuidado, voltei à postura de antes. Nessas alturas, o rebuliço doidejava longe.&lt;br /&gt;— Vou explodir — gritava, eufórica,  a estrela de toda a energia. &lt;br /&gt;E o sujeito:&lt;br /&gt;- Hum... hum... hum... hum... hum... &lt;br /&gt;- Assim... Assim... – prosseguia ela, abrasada e inflada -  Vai, agora, vai, vai, aaaiiiiiii... E o hum... hum... hum... hum... hum...  decididamente não cessava. &lt;br /&gt;Por voltas das três, saí do ar. Ao romper de uma manhã bonita e ensolarada acordei sobressaltado. Pulei, ligeiro, espantei a cara mal repousada e cheia de sono, fiz a barba e em seguida tomei um demorado banho gelado. Desci às nove horas em ponto para o café. No salão reservado ao desjejum, deparei com vários grupos de homens e mulheres já acomodados às mesas. Procurei uma que estivesse vaga para me sentar. Notei, então, que todos riam baixinho, espiando discretamente para um balcão de madeira bem ao fundo da sala. Segui o olhar nessa direção com a curiosidade à flor da pele e esbarrei frontalmente com uma loirinha capaz de virar qualquer cabeça masculina.  Trajava, a cobiçável, um conjuntinho de lycra branco muito curto, que deixava, à mostra, tudo o que nela havia de melhor, além de um bonito e charmoso par de pernas bem torneadas.&lt;br /&gt;Não teria mais de 18 anos. Levava aos lábios um copo de leite, ao tempo em que acariciava o braço do seu acompanhante, um camarada baixinho e esquisito, aparentando uns 40, bastante simpático e carismático. A garçonete chegou para servir. Ao me virar, notei um sorriso maroto dançando nas covinhas finas de seu rosto ondulado. Em tom baixo, para não chamar a atenção, arrisquei perguntar:&lt;br /&gt;— O que há com os dois?&lt;br /&gt;— O senhor não ouviu nada esta noite?&lt;br /&gt;— E como! Então eram eles? &lt;br /&gt;-    Em carne  e osso.&lt;br /&gt; -   Quase não consegui me segurar no colchão...&lt;br /&gt;— Nem eu...&lt;br /&gt;— Como?&lt;br /&gt;— Culpa deles!&lt;br /&gt;— Tudo Bem! Depois, em outra noite, em outro hotel, em outra cidade,  juro a você que tiro o atraso. Afinal, cá entre nós, o que existe de extraordinário em ouvir, madrugada adentro, um parzinho tão romântico (olhe para eles, não são engraçadinhos?) fazendo um amor gostoso, transando numa boa, sem medo de ser feliz? Quer saber? Essas coisas ativam os batimentos cardíacos, estimulam a circulação do sangue e encorajam a gente a continuar vivendo.&lt;br /&gt;Disfarçando a vontade de soltar de vez o riso, ela inclinou a cabeça e sussurrou bem perto de meu ouvido.&lt;br /&gt;— O senhor me perguntou o que existe de extraordinário em ouvir um parzinho tão romântico transando numa boa?&lt;br /&gt;— Sim!&lt;br /&gt;— Ele é surdo e mudo! Isso é o que torna a coisa engraçada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dieta dos Pontos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosfolônio, como sempre fazia antes de ir para o trabalho, encostou o carro junto à calçada defronte de uma farmácia. Estava furioso em decorrência de uma cefalalgia que o atormentava havia anos. Por essa razão, mais uma vez, iria comprar um analgésico. A coisa se tornara rotineira. Só mudavam os lugares onde parava. Cada dia pintava em seu caminho uma drogaria diferente. Saltou do veículo e entrou no estabelecimento, indo direto ao balconista:&lt;br /&gt;— Bom dia. Vê  aí, por favor,  um remédio para dor de cabeça...&lt;br /&gt;— O cidadão tem preferência por comprimidos ou gotas?&lt;br /&gt;— Qual o mais eficiente?&lt;br /&gt;— Depende do que o senhor esteja sentindo!&lt;br /&gt;— Dor de cabeça...&lt;br /&gt;— Perfeitamente. Mas onde, exatamente?&lt;br /&gt;— Na cabeça, ora essa!...&lt;br /&gt;— Sei que é na cabeça, mas compreenda a insistência...&lt;br /&gt;— Entendo seu desvelo e sinceramente agradeço. Que diferença faz?&lt;br /&gt;— Muita. Levando em conta o lugar exato, poderá não ser o que o senhor pensa que é.&lt;br /&gt;— E como fazer para atinar com o “xis” dessa porcaria?&lt;br /&gt;— Veja bem. Se o senhor mostrar a localização, talvez cheguemos a um consenso.&lt;br /&gt;— Já falei.&lt;br /&gt;— Não é bem assim. Preciso que indique a posição.&lt;br /&gt;Meio sem paciência, Fosfolônio levantou a mão esquerda e apontou a parte posterior do cachaço junto à vértebra cervical.&lt;br /&gt;— Aqui.&lt;br /&gt;— Posso ver?&lt;br /&gt;— A dor?&lt;br /&gt;— Não, cavalheiro. O ponto onde ela mais lhe castiga.&lt;br /&gt;Fosfolônio girou o corpo ficando quase de costas para o atendente.&lt;br /&gt;— À vontade.&lt;br /&gt;O rapaz tocou com os dedos, projetando ligeira pressão sobre a pele.&lt;br /&gt;— Hum! Nesta região não é dor de cabeça.&lt;br /&gt;— E o que é?&lt;br /&gt;— Enxaqueca.&lt;br /&gt;— Enxa... Enxa... Enxa... Enxa o quê?&lt;br /&gt;— Enxaqueca.&lt;br /&gt;— Certeza?&lt;br /&gt;— Absoluta. Sei diferenciar dor de cabeça de enxaqueca e vice-versa.&lt;br /&gt;— Não é a primeira vez que esse troço me ataca.&lt;br /&gt;— E o que o senhor toma nessas ocasiões?&lt;br /&gt;— Ora, Doril, Anador, Tylenol, Melhoral, Dipirona, Dorflex, Paracetamol, AAS, qualquer bosta...&lt;br /&gt;— Essa é a razão!&lt;br /&gt;— Que razão?&lt;br /&gt;— Que o seu mal não cura. O senhor ingere substâncias terapêuticas erradas. Lembre sempre: auto-medicação não traz soluções, cria problemas.&lt;br /&gt;— Mas é uma dorzinha ingênua...&lt;br /&gt;— Que pode transformar seu quadro em meningite, tonteira, virar  hemorróidas, tirícia, hepatite ou até descambar para um aneurisma cerebral com parada cardíaca irreversível.&lt;br /&gt;Fosfolônio deu uma risada sem graça.&lt;br /&gt;— Meu prezado, quem atura uma esposa rabugenta igual à que tenho em casa, mais uma sogra chata, de lambuja e, ainda, duas cunhadas de contrapeso, o resto acaba virando café pequeno...&lt;br /&gt;— Falo sério. Não estou brincando.&lt;br /&gt;— Sendo assim, o que aconselha?&lt;br /&gt;— Bebe?&lt;br /&gt;— Se algum companheiro lá do trabalho me convidar e pagar uma geladinha, não rejeito. Sabe como é: não sou de ferro.&lt;br /&gt;— Fuma?&lt;br /&gt;— Por tabela.&lt;br /&gt;— Não entendi.&lt;br /&gt;— O pai da minha mulher. Meu sogro. Aliás, o infeliz come com farinha...&lt;br /&gt;— Com farinha? &lt;br /&gt;— É. O desgraçado acende um cigarro de 10 em 10 minutos. Empesteia com uma fumaça nojenta todos os ambientes da casa, ou seja, dos  quartos ao banheiro. Até já me transformei, como dizem na linguagem popular, em tabagista passivo. Ou seja, sou obrigado a respirar nicotina, da braba, 24 horas por dia.  Ai de mim se abrir o bico e reclamar. Suportar um velho asqueroso, sogra e esposa é dose para elefante. As adolescentes, então, Credo em cruz! Por isso, ao sair para a rua, a primeira coisa que me vem à mente é uma porta de farmácia. Estou nessa rotina desde que me entendo por gente.&lt;br /&gt;— Uma pena!&lt;br /&gt;— Alguma sugestão?&lt;br /&gt;Antes de responder, o vendedor foi até uma das prateleiras e de lá regressou com uma caixinha.&lt;br /&gt;— Injeção de Novalgina. É tiro e queda.&lt;br /&gt;— Injeção?&lt;br /&gt;— Não há coisa melhor. Inclusive, mais eficaz que os comprimidos. Age rápido. Pá, puf!&lt;br /&gt;— Odeio seringas e agulhas.&lt;br /&gt;— Única alternativa. Em dois segundos lhe aplico isso nas nádegas. O senhor sairá com a alma leve.&lt;br /&gt;— E eu, certamente, com a bunda doendo. Desculpe, não quis ofender. Calma! Não existe essa droga por outra via?&lt;br /&gt;— Que outra via?&lt;br /&gt;- Sem ser na... Sem ser no traseiro?&lt;br /&gt;— No braço. Cortamos estrada fazendo um intravenoso.&lt;br /&gt;— Esqueça.&lt;br /&gt;— Posso lhe prescrever um supositório de Transpumim, de Glicerina, ou de Magnopirol.&lt;br /&gt;— E como eu  usarei?&lt;br /&gt;— Por um atalho não muito ortodoxo.&lt;br /&gt;— Seja claro, por gentileza. Ortodoxo ou paradoxo. Desconheço os termos técnicos que vocês usam. Estou acostumado a chegar na farmácia e comprar remédio para dor de cabeça. O resto você já sabe: Sedalgina, Dorsedin, Febralgin etc. etc. etc...&lt;br /&gt;— Bem, o supositório a gente costuma enfiar... Quero dizer, introduzir no orifício anal. Se o...&lt;br /&gt;Nessa altura do bate-papo, Fosfolônio danou a rir desordenadamente. Uma grande parte das pessoas que circulava em outras seções, levadas pela curiosidade, resolveu fazer uma rodinha para bisbilhotar. Os dois seguranças de plantão, com o intuito de evitar tumultos e possivelmente algum tipo de roubo, se posicionaram estrategicamente, cada um por detrás de enormes prateleiras. De onde estavam, podiam acompanhar claramente o diálogo e vigiar o resto da loja, bem como a porta principal de entrada.&lt;br /&gt;— Sabe, meu rapaz, conversei tanto, ou melhor, papeamos de tal forma que a enxa... Sei lá que nome você deu à coisa, foi, de vez, prás cucuias. Estou novo em folha. É como você, instantes atrás, havia previsto. Alma leve. Estou de alma leve. Neste exato momento estou me sentindo como um passarinho. E atente para um detalhe: não precisei levar a agulhada no caneco.&lt;br /&gt;Virando, então, ora para os indiscretos que formavam um círculo de fisionomias engraçadas, ora para os demais funcionários acotovelados no balcão, Fosfolônio passou a falar e a gesticular um pouco mais alto que seu costume habitual. Parecia furioso e colérico, mas no fundo, estava calmo e tranqüilo, só queria  sacanear e tirar um sarro com o pobre do atendente.&lt;br /&gt;— Pessoal, imaginem que entrei aqui para comprar um comprimido para uma dorzinha chata, na nuca. O distinto queria me empurrar uma injeção. Recusei a proposta, claro, não sou besta. No entanto, dei linha à pipa para ver até onde ia a capacidade do espertinho. Sabem o que ele teve a coragem de fazer comigo?&lt;br /&gt;O silêncio era total. Podia se ouvir uma agulha caindo.&lt;br /&gt;— Me indicou um remédio... Pasmem... Me indicou um remédio para... para... Me indicou um remédio para enfiar no... no... no... fiofó... Acho que ele imaginou que eu fosse de Campinas, interior de  São Paulo  ou de Pelotas, no Rio Grande do Sul.&lt;br /&gt;Girando nos calcanhares e motejando a mais não poder, Fosfolônio saiu apressado, deixando a multidão em meio a um mar de gracejos e zombarias. O infeliz do atendente, com cara de trouxa, sem saber onde enfiar o acanhamento, escondeu o rosto entre as mãos, tentando, inutilmente, ocultar a vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conflitos de conversação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telefone toca insistentemente até que o rapaz que está ao lado dele, ocupado, pregando um fio na parede atende a ligação.&lt;br /&gt;— Bom dia! O senhor tem aí Venocur Triplex DRG CT/6X10? E quanto é?&lt;br /&gt;— Quem fala, por favor?&lt;br /&gt;— Odair.&lt;br /&gt;— De onde?&lt;br /&gt;— Da “Zizinha”. Sou marido da “Zizinha”. Lembrou, agora?&lt;br /&gt;— “Zizinha”!? Que “Zizinha”?&lt;br /&gt;— Mãe da Elizabete, a “Loira”...&lt;br /&gt;— Elizabete?&lt;br /&gt;— Isso, irmã da Valdirene, a “Chorona”.&lt;br /&gt;— “Chorona”!? “Loira”!? “Zizinha”!?...&lt;br /&gt;— Meu Deus! Quem está falando?&lt;br /&gt;— Pedro Propionato de Clobetasol.&lt;br /&gt;— Como?&lt;br /&gt;— Pedro! Pedro Propionato de Clobetasol.&lt;br /&gt;— Que diabo de nome mais desgraçado esse seu, meu amigo. Por acaso é da farmácia do Trombofob?&lt;br /&gt;— Perfeitamente.&lt;br /&gt;— E o senhor, quem é?&lt;br /&gt;— Já lhe disse: Pedro Propio...&lt;br /&gt;— Eu sei, eu sei. Não precisa repetir tudo de novo.&lt;br /&gt;— O companheiro está nervoso. Quer falar com quem?&lt;br /&gt;— Droga. Aí não é da farmácia?&lt;br /&gt;— Falei para o senhor, não tem dois segundos que, sim. É da farmácia...&lt;br /&gt;— Cadê o Trombofob?&lt;br /&gt;— Está atendendo um freguês. Quer aguardar só um instantinho?&lt;br /&gt;— Merda...&lt;br /&gt;— Isso fede!&lt;br /&gt;— Como, cavalheiro?&lt;br /&gt;— Desculpe, pensei alto.&lt;br /&gt;— Me chama o infeliz do Trombofob.&lt;br /&gt;— Meu senhor, ele está no balcão, atendendo um freguês. Não pode esperar?&lt;br /&gt;— E o senhor saberia dizer, enquanto espero, se já chegou o Venocur Triplex DRG CT/6X10?&lt;br /&gt;— Não, meu amigo.&lt;br /&gt;— Que saco! Afinal, quem é o senhor?&lt;br /&gt;— Pela última vez: Pedro Propionato de Clobetasol. Satisfeito?&lt;br /&gt;— Não grite! Sou bom de ouvido. Passe o Trombofob ou vou desligar essa bosta.&lt;br /&gt;— Faço isso para o senhor com todo prazer. Passo para o Trombofob, mas veja bem, sem a bosta.&lt;br /&gt;— Cidadão, por gentileza, pare de me faltar com o respeito. Sou cliente dessa espelunca, há 20 anos. De mais a mais, tenho idade para ser seu pai. Agora, deixe de brincadeiras e me ponha na linha a porra do Trombofob.&lt;br /&gt;— Um instante, por obséquio.&lt;br /&gt;O proprietário, solícito, atende a ligação.&lt;br /&gt;— Alô?&lt;br /&gt;— Quem é?&lt;br /&gt;— Trombofob, às suas ordens! Com quem falo?&lt;br /&gt;— Sou eu, o Odair. Graças a Deus, meu amigo, graças a Deus! Quem é esse imbecil e abestalhado que você colocou aí, que nem atender direito um telefone o intelijumento sabe?&lt;br /&gt;Risadas.&lt;br /&gt;— É o Pedrinho, filho do Clobetasol, lembra dele? Trabalhou seis anos como motorista da Transportadora Manda que Chega. Vocês pilotavam carretas por esse mundão afora.&lt;br /&gt;Houve um pequeno silêncio.&lt;br /&gt;— Sei, sei... Acho que agora me recordo. Veja bem, não tenho nada com seu negócio, meu velho amigo Trombofob, mas se esse coió e paspalhão continuar atendendo seu telefone, você chegará às portas da falência em duas passadas. Mesmo sendo filho do... do... não importa. Quem sabe, se fosse o pai, a coisa até deslanchasse e seu comércio melhorasse! Não que seu estabelecimento seja ruim, pelo amor de Deus, longe disso. O problema é esse rapaz aí. Droga, o bordalengo fez a maior hora com a minha cara. Tratou a mim como se eu fosse um chavasqueiro da laia dele. Queria, na verdade, saber se você tinha recebido o Venocur Triplex e o safado tirou o maior sarro da minha cara. Nem ao menos respeitou os meus cabelos brancos. Se estivesse aí lhe dava uns bons tabefes no pé da orelha. Você me conhece de  longa data e sabe como tenho o pavio curto.&lt;br /&gt;— Desculpe pelo transtorno, amigo Odair, mas o garoto não está aqui para atender ninguém.&lt;br /&gt;— Ainda bem!&lt;br /&gt;— Ele só deu azar de falar com você porque trabalha na empreiteira que presta serviços à Companhia Telefônica. E você ligou justo na hora que eu estava com um freguês.&lt;br /&gt;Risos de ambos os lados.&lt;br /&gt;— O moço é instalador e veio consertar meu aparelho, que começou a dar umas chiadeiras estranhas desde ontem. Coincidentemente, é filho do nosso colega, o Clobetasol, que eu, como disse, trabalhou com você na transportadora. Mas, diga lá, meu companheiro, quantas caixas você quer que lhe mande, do Venocur?&lt;br /&gt;— Duas.&lt;br /&gt;— Como está a comadre?&lt;br /&gt;— “Zizinha” vai levando. Um pouco cansada, por causa da idade. Nada sério, acredite.&lt;br /&gt;— E a Bete?&lt;br /&gt;— Estudando para as provas. Quer tentar vestibular para medicina.&lt;br /&gt;— Valdirene?&lt;br /&gt;— Viajou com o namorado, para o Rio de Janeiro. Devem voltar na segunda.&lt;br /&gt;— Odair, meu amigo, vou mandar o moto-boy entregar em sua casa dentro de 15 minutos. Está bem assim? Deixa só eu conferir o preço. Enquanto isso, vou te passar novamente para o Pedro. Não o queira mal. Agora que já se conhecem, e o gelo foi quebrado, o papo entre vocês dois vai ficar bem melhor.&lt;br /&gt;Apesar do Odair gritar quase a ponto de se esgoelar que nada tinha a tratar com o tal do Pedro -, mesmo sendo filho de um seu velho amigo de trabalho -, Trombofob passou o telefone às mãos do rapaz.&lt;br /&gt;— Fale com ele. É o Odair. Gente finíssima. Trabalhou com seu velho, na transportadora. Puxe conversa enquanto atendo a moça que acabou de entrar.&lt;br /&gt;Pedro retornou ao telefone.&lt;br /&gt;— Então, seu corno de uma figa, o senhor conhece o meu pai? Por que não disse logo, seu filho de uma égua?&lt;br /&gt;— Olhe meu simpático mancebo. Prefiro ficar por aqui, em silêncio, aguardando a boa vontade do Trombofob em voltar a me atender.&lt;br /&gt;— Ora, fale comigo. Deixe de bancar o burrego orelhudo. Quando vou conhecer Elizabete, a “Loira”, ou a “Chorona” da Valdirene?&lt;br /&gt;— Desculpe, meu filho. Não quero levar adiante nossa conversa. Se continuarmos com esse papo, você acabará descobrindo que comi muito a bundinha da senhora sua mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estátua bem dotada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é de hoje que observo o dia-a-dia de um mendigo que perambula pela praça da matriz com as mãos estendidas à caridade alheia. Ele adotou um dos muitos assentos de alvenaria à frente da porta principal que dá acesso à igreja e à saída dos fiéis. Com uma latinha de extrato de massa de tomates às mãos, nos finais das missas de domingo, faz a festa. As pessoas do interior, em sua maioria, penalizadas, e vendo seu estado tão deplorável, acabam por dispensar algumas moedinhas perdidas nos bolsos.&lt;br /&gt;Também de cara para o santuário, uma estátua de corpo inteiro do doutor Praxedes Tibiriçá garante a lembrança do primeiro prefeito eleito pelo voto direto. A figura desse homem mítico e político notável — afora o fato de, em vida, ter sido um tremendo de um galinha: comeu as filhas e as sobrinhas mais bonitas dos fazendeiros em troca de favores que lesavam o interesse público —, em pedra, ocupa uma base de granito com quase dois metros de altura. Iniciativa dos moradores, numa parceria com a administração atual, é o reconhecimento aos relevantes serviços prestados em prol do vilarejo e de toda a comunidade, que não chega a três mil eleitores.&lt;br /&gt;Às costas da escultura, um coreto. Em volta dessa construção, o que outrora poderia ser chamado de um belo e bem cuidado jardim. E, cercado pelo que restou deste, um chafariz inundado por águas turvas, com larvas de mosquitos que proliferam a céu aberto. Em tempos passados, uma bandinha regional alegrava as noites dos finais de semana. Era o momento em que os jovens, principalmente casais de namorados, se acotovelavam no local, sentados ou deitados na grama verdinha, para um bate-papo ou troca de carícias mais íntimas.&lt;br /&gt;Ficavam por ali até que o Fusquinha da Polícia Militar, com dois soldados a bordo, dava uma volta estratégica em torno da praça e, então, um a um, todos se recolhiam. Tinham que enfrentar o pesado batente da segunda-feira nas lavouras das fazendas dos senhores do café. Hoje, o velho coreto está às moscas. Virou morada de pombos e cachorros vadios. A grama cresceu assustadoramente e encobriu o que havia de meigo, bonito e aconchegante. Sem falar no mau cheiro que infesta o ambiente e espanta os idosos que buscam, ainda, como nos saudosos tempos, algumas horinhas de descanso à vista amena da Lua.&lt;br /&gt;Por essas razões, o mendigo  se apossou de tudo. Como um rei, ocupa, à revelia das autoridades, a saleta onde os músicos, sob a batuta de um corifeu, se agrupavam para afinar instrumentos, trocar idéias e ensaiar as marchinhas que seriam executadas a partir da derradeira missa do falecido padre Tinoco. Nesse diminuto espaço, ele come, faz as necessidades fisiológicas, toma banho com a água podre do chafariz, dorme a sono solto e prepara o espírito, para, no dia seguinte, estar em forma e bater pernas em busca de comida e alguns trocados para manter aceso o vício do cigarro bailando nervoso de um canto a outro da boca.&lt;br /&gt;Numa dessas espreitas, acabei flagrando o que não devia. Depois que a multidão bate em retirada, aparece seu Leporace, velhinho de 90 e poucos anos, figura do folclore da cidade. Barbas e cabelos brancos, rugas indômitas e secretas esculpidas pelo rosto rutilante, pincenê nos olhos, o corpo já bem envergado, andar vagaroso como se a âncora do barco do seu destino, jogada ao mar das recordações, quisesse arrastá-lo em direção a um porto eterno. É ele que apaga, uma a uma, as chamas dos lampiões a querosene que ainda guarnecem a iluminação da praça, bem como das ruazinhas estreitas que desembocam nela. Vocês podem não acreditar, mas passados mais de 100 anos do achado de Thomas Edison, os vereadores votaram contra o projeto que previa a colocação de lâmpadas modernas. &lt;br /&gt;O pobre ancião leva uma eternidade enervante para cumprir, à risca, esse ritual. Como são muitos os bicos, repete os gestos bem lentamente. Dá a impressão de que, no poste seguinte, não conseguirá levantar o cabo do bastão para pôr fim à tênue luminescência que vacila, decadente e trêmula, produzindo uma claridade fraca e agonizante. É exatamente logo após esse momento, quando o cenário inteiro se vê envolvido no silêncio, que o sem teto assoma o rosto na soleira do batente e, como um rato arisco à procura de um pedaço de queijo, espia com seus receios e temores em todas as direções.&lt;br /&gt;Lembra um moleque assustado, melancólico e sério, metido em sua dor visceral, com medo de enfrentar a escuridão, temendo, talvez, sem o calor da saia da mãe, se deparar, frente a frente, com o bicho-papão, montado em seu cavalo veloz. É como se, naquela sua existência miserável e medíocre, a noite, demasiadamente densa e complexa, povoada por fantasmas iracundos e chegados de todos os quadrantes, tivesse o poder de aumentar a solidão pesada que o devora.&lt;br /&gt;Do meu posto bem guardado por um providencial pé de pau-brasil — que, imponente, viceja fronteiriço à janela do quarto da casa de família onde alugo uma vaga —, acompanho, tranqüilamente, os movimentos externos sem ser descoberto. O interior do aposento onde fica minha cama de solteiro, por sua vez, é bastante propício a essas vigílias. Permanece em cálida penumbra, só violado, na sua totalidade, pelo brilho do mostrador do relógio digital do vídeo cassete sobre a cômoda, marcando o adiantado das horas com uma luz verde e sem viço.&lt;br /&gt;O sujeito que vigio lá fora é um alto, moreno, olhos verdes, tostado de sol, atitudes seguras e andar elástico. Fico a me perguntar constantemente, por que esse infeliz, bem apessoado, optou vegetar as custas de restos e sobras, se poderia trabalhar, viver com dignidade, casar, ter filhos e, sobretudo, prosperar como os demais cidadãos deste pacato lugar? Nada, até agora, me fez atinar com uma resposta coerente.&lt;br /&gt;   Mas, ei-lo, saindo da toca, de fininho, compenetrado, vestindo apenas uma pequena calcinha da cor da pele. Isso mesmo, uma calcinha de mulher! Seus passos o conduzem à peça de granito do doutor Praxedes Tibiriçá. Lá chegando, como se fosse a coisa mais natural do mundo, a criatura dana a se masturbar com a mão direita. Sem deixar de fazê-lo, sobe no pedestal e encosta a bunda na pedra fria onde, hipoteticamente, estaria localizada as genitálias do ex-prefeito.  Começa a girar o próprio traseiro em movimentos cadenciados, até que, em poucos minutos, atinge o clímax. Emite, então, gritos estranhos e alucinantes. Ato contínuo, se põe de joelhos e imita uma prolongada felação. Investe, numa e noutra ação, uns 15 a 20 minutos. Conclui lambendo por entre as pernas do prefeito, tal como se, efetivamente, estivesse o doutor Praxedes com as coisas para fora, ao alcance de sua boca.&lt;br /&gt;Corre um boato à língua solta por aqui. O prefeito Praxedes Tibiriçá, certamente, conseguiu se manter acima de qualquer suspeita em matéria de honestidade. A estátua em sua homenagem lhe faz esta justiça merecida. Todavia, por baixo dos panos, comentam, sustentava uma penca de mulheres. Os mais antigos, entretanto, afirmam, de forma categórica, que isso não passa de intrigas da oposição. Fofocas e futricas, olho grande, essas coisas de política interiorana. Pelo sim, pelo não, e pelo que meus olhos presenciam em relação ao mendigo e à sua estranha tara, o tal do doutor Praxedes Tibiriçá, que Deus o tenha, continua em plena forma, mesmo lá em cima. E, pior, arrebatando até seres do sexo oposto. Se, depois de morto, ainda desperta desejos escondidos, tenho cá minhas dúvidas, mas acho que, vivo, não era flor que pudesse, realmente, ser cheirada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranho num lugar esquisito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante meses, Panetôncio freqüentou um consultório psiquiátrico com a reclamação de que havia um imenso jacaré debaixo de sua cama. &lt;br /&gt;— E toda noite ele me mostra uma boca cheia de dentes...&lt;br /&gt;— Não são dentes, são presas. E não se diz “boca”. Jacarés não têm boca, e sim mandíbulas.&lt;br /&gt;— Não importa, doutor, o caso é que não agüento mais.&lt;br /&gt;O médico tentava persuadir o paciente de todas as formas possíveis:&lt;br /&gt;— Panetôncio, você não reside num prédio de apartamentos em plena Barra da Tijuca com segurança, circuito interno de televisão e alarmes por todas os cantos?&lt;br /&gt;— Perfeito, mas o jacaré me amedronta apesar de toda essa tecnologia de ponta.&lt;br /&gt;— Não existe nenhum jacaré.&lt;br /&gt;— Claro que existe, doutor. E a cada dia parece mais furioso.&lt;br /&gt;— Só na sua imaginação.&lt;br /&gt;— Não é imaginação, doutor, é real.&lt;br /&gt;— Sua esposa viu esse suposto jacaré?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— Nem seus filhos?...&lt;br /&gt;— É verdade!&lt;br /&gt;— Seu sogro chegou a dormir uma noite no quarto e também nada viu, ou ouviu?&lt;br /&gt;— Meu sogro dorme mais que a cama. É só recostar a cabeça e no minuto seguinte está contando carneirinhos.&lt;br /&gt;— Sua sogra?&lt;br /&gt;— Uma besta quadrada. Não enxerga um palmo adiante do nariz. A única coisa que sabe fazer, e cá entre nós, muito bem, é ver defeitos em mim e maquinar intrigas do arco da velha com minha mulher.&lt;br /&gt;— Seu irmão dormiu lá com a esposa dele, na semana passada, não dormiu?&lt;br /&gt;— Dormiu.&lt;br /&gt;— E não viu nem ouviu absolutamente nada?&lt;br /&gt;— Meu irmão, doutor, só pensa naquilo 24 horas por dia. Não tem uma noite que deixe a companheira descansar em paz. Esteja em casa ou na casa dos outros, o negócio dele é furunfar. Nem os dias sagrados,  o senhor compreende, aqueles do famoso “lacinho vermelho”, ele respeita.&lt;br /&gt;— Fazer amor faz um bem danado à saúde, Panetôncio. Alivia o estresse do dia-a-dia. A alma se liberta das tensões e fica mais leve e solta. Concorda?&lt;br /&gt;— Concordo, doutor, concordo plenamente. Mas o senhor precisa entender o seguinte: balançando o esqueleto, ele não vai ver nada, como, aliás, não viu. E o jacaré continua embaixo da minha cama, tranqüilo,  sem problemas, me enchendo o raio do saco.&lt;br /&gt;— Insisto, Panetôncio, que não há nenhum jacaré debaixo da sua cama. Volte para seu quarto e procure ficar em paz. Sua esposa, da última vez que falou comigo, reclamou que, por causa desse bendito jacaré, você não só mudou de quarto, como abandonou a cama. Esse negócio está me cheirando a outra coisa...&lt;br /&gt;— Que outra coisa, doutor?&lt;br /&gt;— Amante. Você arranjou uma namoradinha e está engabelando dona Líliam com essa história sem pé nem cabeça.&lt;br /&gt;— Não trairia minha cara metade por nada deste mundo. Ainda que encontrasse a Bruna Lombardi peladinha, dos pés a cabeça.&lt;br /&gt;— Escute o que vou dizer: sua esposa com essa conversa toda, está abalada. Muito abalada. Sem contar que também está necessitada. Mulher necessitada é perigosa. Começa a subir pelas paredes, a se masturbar com cotoco de vela, embalagem de neutrox. Se você não dá conta, não comparece...&lt;br /&gt;— Sei disso tudo doutor. Mas como posso me concentrar?&lt;br /&gt;— Você pode. Você é um homem ou é um rato?&lt;br /&gt; — Depois que o jacaré apareceu comecei a ter dúvidas sobre minha masculinidade. Acho que sou um coelho assustado. E coelho tem medo de jacaré. Li algo a respeito numa revista especializada em animais.     &lt;br /&gt;O doutor seguia na sua linha de conduta e perseverava com acirrada veemência na ânsia de demover a idéia fixa da cabeça de seu paciente.&lt;br /&gt;— O jacaré -, Panetôncio, ou melhor, esse famigerado jacaré é apenas uma alucinação passageira -, fruto da sua estafa, da sua debilidade. Resumindo, meu amigo, coisa provocada pelo excesso de trabalho e pela fadiga. Você tem se desgastado muito, ultimamente. Sua ocupação, na Bolsa de Valores, compreendo, é muito pesada e irritante. Deixa os nervos à flor da pele, a cabeça a mil, os neurônios em frangalhos. Sei que não é fácil passar o dia inteiro com três telefones no ouvido...&lt;br /&gt;— Quatro, doutor, quatro.&lt;br /&gt;— Que seja! Três, quatro ou apenas um, não importa. O que conta, o que faz diferença, é você estar o tempo todo gritando, berrando e gesticulando feito um desmiolado e despirocado das idéias. Preste atenção no conselho que vou lhe dar, e vou fazê-lo como seu amigo, não como médico. Tire uns dias e saia com a família em férias. Coloquei, inclusive, meu sítio, em Pedra de Guaratiba, à sua disposição. Está lembrado? &lt;br /&gt;— Estou, doutor. Mas o jacaré está cada vez mais esfomeado. Se o senhor, que é um especialista, que estudou anos a fio para procurar dar uma solução plausível para o meu caso e, no final das contas, não puder, ou não conseguir me ajudar, quem poderá me levar à cura dessa merda, ou à merda dessa cura?&lt;br /&gt;O rapaz continuou a freqüentar, ainda por um bom tempo, as seções no consultório, como sempre fazia, todas as quartas-feiras, na parte da tarde. Com isso, o médico estava quase convencendo a criatura de que tudo não passava, realmente, de fantasias e devaneios oriundos de um desgaste físico e mental acima da linha do ponderável, e que, em decorrência disso, se levasse os próximos encontros mais a sério, logo sairia completamente restabelecido.&lt;br /&gt;Entretanto, por três quartas-feiras seguidas, Panetôncio não compareceu ao consultório, nem comunicou à secretária o motivo de sua ausência. Apreensivo e visivelmente preocupado, o psiquiatra ligou para a residência de seu cliente.&lt;br /&gt;— Gostaria de falar com seu Panetôncio — disse o doutor à mulher que o atendeu.&lt;br /&gt;— O Pane morreu... Quero dizer, o Panetôncio faleceu... — respondeu a pessoa depois de um pequeno minuto de silêncio. &lt;br /&gt;— Com quem falo?&lt;br /&gt;— Líliam, a esposa.&lt;br /&gt;— Dona Líliam, sou eu, o médico psiquiatra do seu marido.&lt;br /&gt;— Doutor, desculpe não tê-lo avisado antes. E perdão também por agora. Não reconheci sua voz. Sabe como são essas coisas. Uma correria: liberar corpo no IML, correr atrás de funerária, avisar todos os parentes e amigos, cuidar do enterro, fretar ônibus, comprar flores, coroas, escolher cemitério, ver jazigo, colocar anuncio em obituário de jornal, marcar com antecedência a missa de sétimo dia, uma loucura!&lt;br /&gt;— Estou pasmo, dona Líliam. Fiquei realmente sem saber o que lhe dizer...&lt;br /&gt;— Pois então. O senhor que é o médico ficou assim, assombrado, boquiaberto, praticamente sem saída,  imagina como estamos nós, que convivíamos diariamente com ele. E todo o resto da família. Uns irmãos que moram no Canadá e que não puderam vir para os funerais nem para a missa do sétimo dia, vão mandar celebrar uma  em intenção da alma. A propósito, gostaria que o senhor estivesse presente. Vai ser na Igreja de Nossa Senhora das Cabeças, na Rua Belizário Pena, ali na Penha.&lt;br /&gt;— Farei o possível. De qualquer forma, minhas sinceras condolências.&lt;br /&gt;— Obrigada, doutor.&lt;br /&gt;— Por favor, esclareça uma dúvida, dona Líliam. Panetôncio morreu... Morreu de quê?&lt;br /&gt;— Foi devorado por um jacaré que estava escondido debaixo da cama dentro do nosso próprio quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conseqüências de um esbarrão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um encontro, aliás, uma  trombada casual, muito ligeira, num dia em que faltou luz no prédio comercial onde o Eduardo e a Fernanda trabalhavam. Ela descia, afoita, para um lanche de 15 minutos na padaria da esquina. Ele subia para o sexto piso, onde possuía um estúdio de fotografias.&lt;br /&gt;Na pressa, Fernanda jogou longe uma caixa repleta de envelopes que o rapaz carregava com cuidado especial. Se sentindo culpada pela trombada inesperada e, conseqüentemente, vendo o desespero do moço para apanhar os invólucros que se espalharam,  se abaixou, solícita, e o ajudou a recolher os pertences.&lt;br /&gt;— Perdão, perdão. Nossa, como sou desastrada. Não era intenção...&lt;br /&gt;Eduardo, de cócoras, ia recebendo um a um os envoltórios e os colocando de volta na caixa, ao tempo que jogava a culpa para si próprio:&lt;br /&gt;— Não há o que perdoar. Eu é que não olhava pra  frente. Vinha com os pensamentos longe. Machuquei você?&lt;br /&gt;Passando das palavras imediatamente à ação, depositou num canto os documentos — na verdade negativos de filmes — e acariciou o braço de Fernanda. Havia um minúsculo esfoladinho e brotava um filete pequeno de sangue.&lt;br /&gt;—Está  doendo?&lt;br /&gt;Fernanda meneou a cabeça de modo negativo.&lt;br /&gt;— Desculpe.&lt;br /&gt;Os olhos de Eduardo, nesse instante, ficaram muito próximos da garota. Os lábios, perto demais, pareciam, na realidade, querer se juntar num beijo de intensidade voraz. Eduardo, contudo, era tímido para essas coisas do amor. Fernanda, por sua vez, nunca havia experimentado um trocar de salivas apaixonado, nem sentido um friozinho na barriga, como o que sentia naquele momento.&lt;br /&gt;Não fosse um sujeito barrigudo com duas crianças pedir passagem, certamente os rostos de ambos teriam se unido no mesmo calor da emoção que os envolvia em cálida ternura.&lt;br /&gt;— Você não me disse seu nome.&lt;br /&gt;— Não! Sou o Eduardo.&lt;br /&gt;Ela se abriu num sorriso largo e  meigo.&lt;br /&gt;— O meu é Fernanda. Qual é o seu andar?&lt;br /&gt;— Sexto, 604.&lt;br /&gt;— Décimo segundo, l.20l.&lt;br /&gt;— O que você faz no 604?&lt;br /&gt;— Sou fotógrafo. E você, no l.20l?&lt;br /&gt;— Secretária de um consultório dentário.&lt;br /&gt;Ficaram em silêncio por alguns minutos.&lt;br /&gt;— Quer saber de um segredo? Estou precisando, não é de hoje, passar a mão em mim e fazer uma visitinha a uma cadeira de dentista. Meu sorriso anda meio desfalcado. Seu patrão por acaso é muito careiro?&lt;br /&gt;— Não é patrão, é patroa. Boa de jogo. Faz qualquer coisa para segurar um cliente. A propósito: você me disse que é fotógrafo?&lt;br /&gt;— Disse e confirmo.&lt;br /&gt;— Lembrei de um detalhe interessante. Veja só como são as coisas. Mamãe, dias atrás, me disse que vai mandar fazer um book e me dar de presente no dia do meu aniversário.&lt;br /&gt;— E quando é?&lt;br /&gt;— Segredo. Não posso revelar...&lt;br /&gt;— Nem pra mim?&lt;br /&gt;Eduardo e Fernanda continuaram a jogar conversa fora e a trocar pequenos afagos e carícias. Pareciam colados no piso frio daquele lance de escadas. A pressa se dissipara como por encanto.&lt;br /&gt;— Verei você de novo?&lt;br /&gt;— Claro! Diga onde e quando?&lt;br /&gt;— Calma! Dá pra mim o seu telefone?&lt;br /&gt;— Não posso...&lt;br /&gt;— E por que não?&lt;br /&gt;— Se o der, ficarei sem.&lt;br /&gt;Um sorriso  cheio de graça bailou, iluminado, no rosto dos dois jovens. &lt;br /&gt;— Então, me dá só o número?&lt;br /&gt;— Só se você me der o seu antes.&lt;br /&gt;— Certamente que sim.&lt;br /&gt;Quase Fernanda perde a hora de voltar ao serviço. Eduardo também se esqueceu de tudo, até das clientes que o esperavam na sala. Subiram juntos, vagarosamente, agarradinhos um no outro, trocando palavras melosas.&lt;br /&gt;— Eu fico aqui. Não quer chegar? Um cafezinho, ao menos?&lt;br /&gt;— Meu tempo esgotou. Amanhã, tudo bem. Se os elevadores estivessem funcionando...&lt;br /&gt;— Olha só como as coisas acontecem na vida da gente. Graças a uma súbita falta de energia acompanhada de uma ligeira colisão de corpos,  você cruzou o meu caminho.&lt;br /&gt;— Não foi bem um caminho, mas uma escada enorme...&lt;br /&gt;— Que me fez ficar literalmente preso nos seus degraus.&lt;br /&gt;Dia seguinte, voltaram a se ver e a se falar. Desta vez, não no interior do edifício, ou no lance de escadas onde tudo começou, mas num restaurante aconchegante, perto dali, com música ao vivo e até uma garrafa de champanhe, para comemorar.&lt;br /&gt;De mãos juntas, rostinhos colados, corações batendo descompassados, iniciaram um romance bonito que, meses depois, acabou, realmente, em namoro sério, oficializado na casa dos pais dela, com direito a troca de alianças, presentes, bolo, muita cerveja, churrasco e uma recepção inesquecível para confraternização dos parentes, amigos mais chegados e o anúncio, em primeira mão, da vinda de um lindo bebezinho.&lt;br /&gt;— Vai ser um menino.&lt;br /&gt;— Qual o quê! É menina. E será linda como a mãe...&lt;br /&gt;Foi um encontro, aliás, uma trombada, um esbarrão casual, muito ligeiro, num dia em que faltou luz no prédio comercial onde o Eduardo e a Fernanda trabalhavam. Ela descia, afoita, para um lanche de 15 minutos na padaria da esquina. Ele subia para o sexto piso, onde possuía um estúdio de fotografias.&lt;br /&gt;Com esse casal, os desígnios de Deus seguem em frente. A história se repete e haverá de se renovar, indefinidamente. Na verdade, é o milagre da vida, através do seu cotidiano, dando continuidade ao essencial, promovendo a sua parcela de felicidade para que o dia-a-dia das pessoas não passe como o caracol que se desfaz em baba, ou como o feto abortivo que não viu a luz do sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinuca de bico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tramontino e mais cinco companheiros foram convidados para almoçar na casa do Zé do Pagode. Era aniversário do Carlinhos Salsicha e a data nunca passava em branco. Aliás, de nenhum deles. Sempre que havia festa, a turma se reunia e comemorava. Nessas ocasiões, a bagunça geralmente varava a noite. Desta feita, o local escolhido foi a residência do Zé do Pagode, por ser um pouco maior e contar com um privilegiado quintal com piscina e quadra de futebol. Antes da hora aprazada já estava a rapaziada ao redor do barzinho que compunha uma das peças principais da construção à espera das guloseimas que prometiam ser sortidas.&lt;br /&gt;Tramontino procurara um lugar singularmente dotado de bons ares para se sentar. Da confortável acomodação, observava o hall, a sala de leituras e TV, o corredor — no fim do qual uma escada em caracol ligava aos aposentos do pavimento superior — e, à esquerda, a copa. Colada ao fogão, uma branquelinha dos cabelos cor de mel preparava os comes e bebes. Atarefada com as panelas sobre as chapas, a gazela se deslocava de um lado para outro atropelando o que encontrava. Enquanto isso, o moço não sabia se prestava atenção ao grupo que tagarelava ou comia com os olhos o shortinho de lycra, muito curto que mostrava o lombo avantajado da serviçal. Assim, entre política, oscilações do câmbio, queda do real, subida do dólar e outras baboseiras, Tramontino balançava a cabeça afirmativamente feito vaquinha de presépio. Suas vistas não desgrudavam da dança frenética que a gatinha imprimia às nádegas fazendo a boca sorver rapidamente cada gole da cerveja que despejavam em seu caneco.&lt;br /&gt;Zé do Pagode, o anfitrião, parecia um rei. Ao lado, Pafunciano deglutia peito de frango desfiado. Luiz do Botão, juntamente com Carlinhos Salsicha (o que apagaria as velinhas), mais o Juarez da Birosca, incrementavam um sambinha de Noel Rosa batendo talheres nos cascos das garrafas. Uma zona! Tramontino continuava inerte, abobado, chumbado na cadeira. Grogue, o coitado roía as unhas em atitude descontrolada. A angústia maior se constituía em não poder agarrar literalmente aquela fêmea e desfrutar de sua companhia numa noitada inesquecível. O estranho é que a linda pérola loira tinha umas manias esquisitas. Ora metia o dedo no  buraco do nariz, ora coçava aquele lugar secreto. A seguir, pegava nos alimentos. Esse procedimento em cadeia se deu com a salada de tomates, os bolinhos de carne e também com as laranjas que espremia para o suco. Tramontino assistia impassível e boquiaberto. Via a moça arrancar a sujeira do nariz  e, sem o menor constrangimento, tocar nos pratos, nas panelas, nas batatas, na carne do churrasco...&lt;br /&gt;De outra, puxava o shortinho que entrava pelo rego da bunda ou chuchava os ouvidos. Embora existisse uma torneira ao lado, em nenhum momento chegou dela se utilizar. Assim, entre emporcalhamentos e coçadas eróticas, 45 minutos depois o tão esperado almoço ficava pronto. Bocas e barrigas famintas se acotovelaram para saudar os caldeirões fumegantes. Pratos e mais pratos foram servidos. Que abundância! Luiz do Botão danou a comer feito louco. Carlinhos Salsicha, nem piscava, parecia ter chegado da guerra. Pafunciano se deleitava com a salada de alfaces e tomates. Zé do Pagode largou a cachaça e se concentrou na jarra de suco. Juarez da Birosca engrenou nos bolinhos de carne e comentou que jamais comera salgadinhos tão gostosos e suculentos.&lt;br /&gt;Tramontino, contudo, nada ousou. Sequer experimentou o bife à milanesa, seu prato preferido. Nessa confusão, o desditoso meteu a cara no vinho e na purinha do litro branco. Fez, na verdade, uma mistura desgraçada, verdade seja dita. Saiu da casa do Zé do Pagode carregado por quatro. Um vexame! Por essa razão, deixou de freqüentar os lugares costumeiros. Não marcava presença às reuniões nem dava os ares da graça nos regozijos da vizinhança. No fundo, se sentia profundamente envergonhado, e mais, confuso consigo mesmo, pois, no íntimo, achava que deveria ter avisado seus simpatizantes sobre os modos pouco ortodoxos da incauta com relação à sua conseqüente falta de higiene e compostura. Algumas semanas depois, entretanto, o inesperado veio à tona e os seis amigos se cruzaram no Juarez:&lt;br /&gt;— E aí, Tramontino? — perguntou Carlinhos Salsicha. — O que deu em você para fazer uma desfeita tão grande ao Zé do Pagode, ou melhor, a mim que?...&lt;br /&gt;— Isso, Tramontino! — interrompeu Luiz do Botão. — Que mico você pagou! O que houve?&lt;br /&gt;— Abra o jogo, homem de Deus! — insistiu Pafunciano.&lt;br /&gt;— Desembucha logo! — obtemperou Zé do Pagode. — Seja o que for, já rolou. Não estou com raiva de você. Aliás, nenhum de nós. Somos parceiros de velhos carnavais. Põe para fora, alivia essa tensão.&lt;br /&gt;— Eu... Eu... Eu...&lt;br /&gt;— Vamos, criatura! — corroborou Pafunciano. — Não embroma. Bota aqui uma geladinha, ô Juarez e se junte à turma. Beberemos como velhos irmãos e companheiros para comemorarmos o seu retorno, Tramontino. E, é claro, saber tudo a respeito daquele malfadado almoço. Com certeza, brigou com a namorada.&lt;br /&gt;— Decerto. Foi por isso que ficou de porre. Tivemos que levar você carregado, meu chapa. Isso, sem falar nos vômitos nojentos por todo o caminho...&lt;br /&gt;— Mas diabos, meu chapa, conte de uma vez o que se passou?&lt;br /&gt;Tramontino serviu um dos copos à sua frente. Virou numa golada só. Demorou alguns segundos para iniciar a narrativa.&lt;br /&gt;— Enquanto vocês bebiam e conversavam, eu observava a empregada do Zé...&lt;br /&gt;— Que mulherão! — lembrou Carlinhos Salsicha. — E que comida!&lt;br /&gt;— Credo! Você já?...&lt;br /&gt;— Não estou falando disso, seu tarado! Estou me referindo à comida... a comida que ela faz. É daqui!&lt;br /&gt;— Os bolinhos de carne, puxa, uma delícia! — retrucou Luiz do Botão.&lt;br /&gt;— É... Eu sei... Eu sei...&lt;br /&gt;— E por que não os provou?&lt;br /&gt;— Querem mesmo saber? Não vão ficar zangados? Pois eu conto.&lt;br /&gt;Tramontino relatou, então, detalhe por detalhe, como as coisas aconteceram, sem omitir uma vírgula. Ao final da sua curta exposição, notou pelos semblantes que os ânimos estavam revoltados, aliás, revoltadíssimos. Percebera mais: havia metido os costados numa sinuca de bico.&lt;br /&gt;— E você não deu nem um toque na galera?&lt;br /&gt;— Deixou a gente comer meleca do nariz daquela piranha?&lt;br /&gt;— E eu que mandei brasa na salada!&lt;br /&gt;Partiram, os cinco, para cima do coitado. Não houve quem pudesse segurar os enlouquecidos. Tramontino, sem saída, entrou na porrada feia. Teve que ser carregado às pressas. Só que, desta, não por bebedeira, nem amparado pelos amigos, mas por populares que passavam na rua. Ficou na salmoura, internado, com a cara amassada e algumas costelas quebradas quase dois meses na enfermaria do hospital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem mandou olhar o pinto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia exatamente três meses que Fernandinho Saraiva tinha perdido o emprego na fábrica de tecidos Santa Efigênia, a única industria que arrebanhava quase toda a população daquele lugarejo esquecido bem lá no fim do mundo. Por causa desse infortúnio inesperado, continuava desempregado, largado ao deus-dará, rolando pela pacata São Pedro da Cachoeira, sem um centavo nos bolsos, para um pão com manteiga e uma xícara de café. Sem ter o que fazer, não via como arranjar dinheiro rápido para pagar o aluguel da pensão onde morava, a conta da quitanda do Sinval, a do armazém do Marcão e até a da farmácia do velho Diclofenaco. Quase a arrancar os poucos cabelos que lhe restavam, parou, um instante, na praça da matriz, e se acomodou num banco diante do chafariz. Na verdade, o chafariz, não passava de um moleque de cimento armado, completamente nu, fazendo xixi numa espécie de tanque em formato de penico.&lt;br /&gt;— Meu Deus! — cogitou com seus botões, enquanto espiava em derredor. — O que faço para sair dessa maldita pindaíba?&lt;br /&gt;Pelo relógio da igreja, 9:35 da noite. Como chegar em casa com dona Angelina tirando plantão 24 horas? Pior é que a janela da peste da mulher divisava com a via de acesso ao seu quarto, se é que se poderia chamar aquilo de quarto. Se conseguisse entrar sem ser reparado, com certeza, tomaria um bom banho quente, relaxaria debaixo do chuveiro uns 40 minutos e depois, então, espicharia o cansaço doído do corpo rebentado na cama barulhenta.&lt;br /&gt;Todavia, isso era praticamente impossível. A proprietária não baixava a guarda. Semelhava parentesco com o diabo. Nunca abandonava a vigília, nem para usar a latrina que exalava para os cômodos fronteiriços um cheiro repugnante de torcer até nariz de defunto podre. Sempre atenta, a megera não pregava olhos, varava a madrugada inteira fumando cigarro após cigarro, o que provocava em sua garganta uma tosse repugnante e interminável. Raios! Tinha que haver uma saída, uma solução que pusesse fim a sua desdita. Mas qual? De onde viria a tábua salvadora que o livraria do mar revolto? &lt;br /&gt;Pensara em vender churrasquinho e pipocas na porta do clube, mas o clube (aliás, o único) só funcionava nos finais de semana e feriados. De segunda a sexta-feira, as ruas da pequena cidade ficavam às moscas, completamente despovoadas, tanto de forasteiros que cruzavam, indo ou voltando, para a capital, como, igualmente, de casais de namorados que afluíam de outras localidades próximas e se ajuntavam nos barzinhos e danceterias existentes. Em lugarejos do interior, a turma se recolhe bem mais cedo que o pessoal dos grandes centros. Logo depois da novela das oito, e, no domingo, ao terminar o programa “Fantástico”. Prática antiga, até porque, dia seguinte, o peso da segunda chegava arrebentando e sem dar tréguas. A labuta a enfrentar nos maquinários da fábrica de tecidos  se fazia tão certa e temente quanto a presença fria da morte.&lt;br /&gt;Desesperado, sozinho, com fome, sem nada na carteira para convencer um cego a cantar, Fernandinho Saraiva continuava no banco. Danou a roer as unhas num gesto de descontrole emocional. Às vezes, metia o dedo no nariz e retirava de lá do fundo uma meleca gosmenta. Em seguida, limpava na manga da camisa. Olhava para um lado, depois para o outro. Transeuntes cruzavam com ele. Crianças choravam ao longe. Cachorros latiam. Um casalzinho de adolescentes permutava carícias, encostado na parede do coreto. Um mendigo, de rosto agitado, procurava, no chão, algo para forrar a barriga. Enquanto isso, Fernandinho queria trocar as roupas, pegar uma ducha quente, descansar a carcaça, comer, beber...&lt;br /&gt;Furioso, voltava às unhas e às sujeiras do nariz. Fazia aquilo maquinalmente, sem perceber. Inquieto, nervoso, deslizou a atenção dos olhos para o moleque do chafariz. Sentiu, de repente, que carecia urgentemente de um canto ermo onde pudesse aliviar a bexiga comprimida. A coisa, por dentro, andava prestes a estourar. Mijar, mijar, mijar. Precisava tirar a água do joelho. Mas tirar como? No meio da praça? Na grama do jardim? Saltou do banco, apressado, esbaforido. Lembrou de um espaço que seria ideal. O corredorzinho escuro e sem saída atrás da igreja, entre o santuário e os aposentos paroquianos do Padre Bartolomeu. Correu para lá. Realmente, uma ruela escura o aguardava. Mal chegou, abriu o zíper e colocou o troço para fora.&lt;br /&gt;Foi aí que uma moça pulou diante dele, sozinha. Sozinha uma figa! A sem-vergonha saiu muito braba, levantando a calcinha e ajeitando apressadamente a blusa e a minissaia. Fernandinho  se assustou com ela. Tanto que não viu quem a acompanhava: um puta de um armário embutido de quase dois metros de altura. O parrudo bateu em retirada, correndo e encobrindo o rosto, ao tempo que vestia, como um foguete, a camisa e abotoava o jeans. Naturalmente, os pombinhos, aproveitando o escurinho do gueto, transavam às escondidas. O problema é que a jovem, menina de família, para não ficar difamada  e cair no escárnio popular, desandou a gritar como uma possessa:&lt;br /&gt;— Tarado! Tarado!... Tem um maluco aqui mostrando o pênis. Socorro!...&lt;br /&gt;Foi o que bastou para juntar uma pá de gente. Figuras de todos os cantos se acotovelaram nas janelas das casas, nas varandas, nos muros, nas portas das vendinhas. Encostou uma D20 com meia dúzia de soldados, a sirene ligada, faróis acesos. O barulho ensurdecedor quebrou o marasmo dos cidadãos mais pacatos. Dois grandalhões partiram à cata do infeliz, revólveres e cassetetes em punho. A santinha do pau oco, embora tivesse escapado de ser pega com a boca na botija, não se fez de rogada. Continuou levando adiante a falsa história que inventara. Afinal de contas, precisava manter em segredo seus encontros furtivos. Em contrapartida, resguardar a identidade de seu doce amado. Para tornar mais real seu propósito imundo, não se contentou só em apontar, mas também em reconhecer, sem dó nem piedade, o pobre desgraçado:&lt;br /&gt;— É esse ai  mesmo, sargento. Estava com...  meu Deus, Credo em Cruz, ainda está com  isso ai à mostra. Veio para cima de mim, querendo me agarrar, justo no beco do santo vigário.&lt;br /&gt;Fernandinho, descoberto e... “reconhecido”, levou umas bolachas pelo meio das ventas, safanões e sopapos no pé do ouvido. Viu estrelas. Passarinhos cantando, violinos em concerto tocando a Florentina, do Tiririca.&lt;br /&gt;— Vamos ter uma conversinha com o delegado, seu maníaco de merda.&lt;br /&gt;O desafortunado saiu puxado, arrastado pela camisa, como um marginal perigosíssimo. E a rapariga, protegida do escândalo a gritar, eufórica:&lt;br /&gt;— Corta esse malandro na porrada.&lt;br /&gt;      Sem entender nadinha de nada, Fernandinho não teve chance de esconder a  arma de artilharia, o flagrante delito que causou toda a confusão. Lá foi ele para o xilindró.  No meio das pernas,  com a cabeça de fora, uma  pica  roliça e magra, um cacete franzino, murcho, todo molhado, que mal e porcamente conseguia segurar entre os dedos por causa da algema apertada. Em volta, a galera querendo linchar. Assistindo ao espetáculo, o menino do chafariz continuou  como estava: parado, quieto, mudo, frio, indiferente, fazendo tranqüilamente seu xixi interminável, a bengala dura entre as mãozinhas pequenas, sem que ninguém lhe dirigisse um olhar de indignação ou de desaprovação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As relíquias que não envelhecem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está de passagem, pela cidade de São Paulo -, mais precisamente na Praça da Sé -, em frente à Catedral, uma exposição itinerante de inestimável valor histórico para a humanidade. Ela apresenta um infindável rol de objetos sagrados dos tempos em que se faziam escavações em Eridu, Obeide, Susa e Tepe e se estudavam, em paralelo, as mulheres e a apostasia de Salomão.&lt;br /&gt;Com certeza, não só os católicos, os crentes e os evangélicos assumidos e fervorosos deveriam visitar -, mas todos que -, de um modo geral, acreditam e crêem na Palavra e nas coisas da Bíblia, levando em conta, sempre, que o Deus Pai é um só para todos os povos existentes na face da terra, independentemente da denominação religiosa pela qual este ou aquele outro tenha optado. Eis algumas preciosidades que poderão ser vistas e até tocadas: &lt;br /&gt;As duas únicas fraldas de pano (na verdade, cueiros) usadas no nascimento do Menino Jesus, sendo certo que, enquanto uma era lavada e secada ao sol, a outra Maria colocava na bunda da criança;&lt;br /&gt;Uma pregadeira, presente de José, que traz fios de cabelos da Virgem, caídos após o anúncio da gravidez do Messias;&lt;br /&gt;Um casal de mosquitos Aedes Aegypti mumificados, passageiros da Arca de Noé;&lt;br /&gt;Lagar onde Gideão malhava o trigo quando o anjo de Deus lhe apareceu pela primeira vez;&lt;br /&gt;A bacia e o pedaço de sabão em pedra onde Pilatos lavou as mãos;&lt;br /&gt;O peixe que engoliu Jonas, num aquário de vidro branco, com água salgada retirada do Mar Mediterrâneo;&lt;br /&gt;Fita gravada com as últimas palavras do apóstolo João finalizando uma de suas muitas pregações;&lt;br /&gt;Os sete candeeiros citados no Apocalipse, novinhos em folha, bem como as sete lâmpadas, uma das quais queimada;&lt;br /&gt;Cálamo feito com a pena do galo que cantou após Pedro ter negado Cristo por três vezes;&lt;br /&gt;Cabeça bastante tostada da serpente que Paulo lançou ao fogo;&lt;br /&gt;O machado de ferro com cabo de madeira de lei que Eliseu fez flutuar;&lt;br /&gt;A queixada de jumento com a qual Sansão abateu mil homens e a placa da primeira funerária aberta por um senhor que ficou rico vendendo caixões para enterrar esses defuntos;&lt;br /&gt;O tamborim que Miriã tocou depois da travessia do Mar Vermelho;&lt;br /&gt;O sinete da tentação roubado do Museu Britânico, onde se vê, claramente entalhada, uma árvore, tendo à sua direita, um homem, e, à sua esquerda, uma mulher tirando um fruto e, atrás dela (como a lhe cochichar), uma cobra ereta com cara de cascavel mal-amada;&lt;br /&gt;Retrato em preto e branco da família do rei de Lagás, seus filhos e servos, com inscrições explicativas;&lt;br /&gt;Calcinhas com figuras de reis tarados — cujo uso era costume entre as prostitutas de prestígio de Sodoma e Gomorra — muitas delas com cheiro forte de enxofre grudado no nylon;&lt;br /&gt;A intrigante capa de Aias, rasgada 12 vezes e, recentemente, adquirida por Zé do Caixão, cineasta brasileiro de prestígio internacional;&lt;br /&gt;O camelo sob o qual cavalgou por longas horas, a intrépida Rebeca, de cabeça para baixo, quase a roçar os lábios no pau do animal, vez que não quis montar normalmente no lombo do bicho, como todas as pessoas que utilizavam aquele meio de transporte, ao partir para desposar Isaque, bem como a cópia do contrato milionário desse animal com a Rede Globo, para atuar na novela “O Clone”;&lt;br /&gt;A corda que enforcou Lucas, na Grécia, e Tiradentes, em Ouro Preto, Minas Gerais;&lt;br /&gt;Pedaço da lança que matou o incrédulo Tomé em sua derradeira viagem a Coromandel;&lt;br /&gt;Saco de estopa onde colocaram o discípulo Bartolomeu para ser jogado ao mar;&lt;br /&gt;Uma bandeja de porcelana com uma centena de denários, a moeda corrente no tempo do Império Romano;&lt;br /&gt;Os cinco pães que Davi pediu a um sacerdote, mas não comeu, alegando que o diabo os havia amassado com os pés fedendo a chulé;&lt;br /&gt;A última combinação, toda em seda, da Madre Teresa de Calcutá e a calcinha, usadas antes dela ser beatificada por Roma;&lt;br /&gt;A Bíblia de Padim Cícero, com a qual o sacerdote rezou a última missa antes de falecer;&lt;br /&gt;As muletas de um paralítico que viveu no tempo de Jesus;&lt;br /&gt;Uma das orelhas embalsamadas de Malco;&lt;br /&gt;A tampa do sepulcro onde o Redentor foi enterrado;&lt;br /&gt;A túnica de lã de carneiro usada por Maria Madalena quando foi perdoada pelo Rei dos Judeus;&lt;br /&gt;As 30 moedas de prata que Judas recebeu pela venda do Filho do Homem e o depósito dessa quantia numa poupança da Caixa Econômica Federal;&lt;br /&gt;O Codex Alexandrinus na versão original, com prefácio de Austresgésilo de Athayde;&lt;br /&gt;Certidão de Casamento de Caim com sua irmã, com a firma reconhecida do tabelião e os respectivos selos do pagamento das taxas;&lt;br /&gt;Bisturi que Deus usou na realização da primeira cirurgia, quando retirou a costela de Adão para dar vida à mulher;&lt;br /&gt;Um galho, em bom estado de conservação, do sicômoro onde Zaqueu subiu para ver o Nazareno passar;&lt;br /&gt;As trombetas de chifres de carneiros que os sete sacerdotes usaram para aterrorizar a cidade de Jericó;&lt;br /&gt;  Certidão de Óbito de Matusalém;&lt;br /&gt;O cinto de linho que Jeremias escondeu numa fenda da rocha junto ao Rio Eufrates;&lt;br /&gt;As portas envernizadas (para conservar a madeira) que Sansão arrancou da cidade de Gaza;&lt;br /&gt;O canivete usado pelo rei Joaquim, de Judá, para cortar as escrituras sagradas e jogá-las em pedacinhos no fogo de um braseiro;&lt;br /&gt;As cinco talhas (uma quebrada) que Jesus utilizou para transformar a água em vinho e marcar o início de sua série infindável de milagres;&lt;br /&gt;Réplica das camas de ouro usadas no Palácio de Assuero, bem como as cortinas brancas e vermelhas, de estofo azul e argolas de prata;&lt;br /&gt;Grama (um pouco seca) do monte Ararat, onde repousou a Arca de Noé depois de navegar 40 dias e 40 noites debaixo das chuvas que geraram o dilúvio e por longo período enquanto as águas baixavam;&lt;br /&gt;Relógio de bolso, com a correntinha de prata, que marcou as horas derradeiras que Jesus ficou pregado na cruz do calvário; e, muito mais. &lt;br /&gt;Como se percebe, novidades magníficas e imperdíveis não faltam. Acaso fôssemos enumerar tudo, item por item, não caberia neste espaço. Da Praça da Sé, os organizadores do evento (que não se deixam ser fotografados nem filmados), metem os pés na estrada com destino a Porto Alegre, Brasília, Salvador e Manaus, não necessariamente nesta ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faca de dois gumes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas cinqüentonas conversavam animadamente sentadas, uma ao lado da outra, na ampla cozinha que abrigava um moderno fogão a gás, outro de lenha, refrigerador, forno de microondas, armário de três portas em inox e mesa redonda, com seis cadeiras, todas trabalhadas em madeira de lei. Num canto, perto do corredor que dava acesso ao quintal, uma pia de aço estava abarrotada de pratos e copos recém-lavados e à espera de serem enxugados e guardados.&lt;br /&gt;— Sabe de uma coisa, dona Santinha? Essa noite eu tive um sonho estranho. Sonhei que havia morrido...&lt;br /&gt;-    Credo, dona Mercedes, que horror! &lt;br /&gt;-    Vou dizer uma coisa para a senhora. No dia em que eu tiver que morrer, de verdade, quero que aconteça não como se passou  no meu sonho, mas que seja, pelo menos, bem de noite. Quanto mais tarde, melhor...&lt;br /&gt;— Quer mesmo falar sobre isso? &lt;br /&gt;-    Acho que sim. Juro para a senhora que fiquei impressionada. No meu sonho parecia tudo tão real... &lt;br /&gt;-    Já que insiste nesse assunto, por que quer morrer de noite e não de dia, dona Mercedes? Qual a diferença?&lt;br /&gt;— Porque, de noite, a gente pode tomar um bom e demorado banho, curtir o chuveiro, a água quentinha caindo sobre o corpo, as costas, os braços, passar um perfumezinho da Floratta in Gold, ou um Accordes, curtir os netos, as noras, os meninos, jantar mais cedo, sentar com tranqüilidade para ver a novela, ou assistir a um filme. Depois — imagine! — depois, tem aquele papo de estar dormindo e não acordada!&lt;br /&gt;Dona Santinha estava radiante e eufórica. Dia sim, dia não, aparecia para fofocar. Adorava jogar conversa fora. Mal pulava da cama, tomava um rápido desjejum e saía em campo. E dona Mercedes, sabedora dessa fraqueza da amiga, aproveitava para dar asas à imaginação.&lt;br /&gt;— Não entendi.&lt;br /&gt;— Eu explico, dona Santinha. Quero partir daqui — como falam popularmente — quando estiver dormindo, roncando, babando, sonhando um sonho bonito, não igual ao que sonhei, repito. Pretendo morrer como um anjo. Ao menos, no instante derradeiro em que estiver para apitar, não terei que olhar para a cara da morte.&lt;br /&gt;A vizinha arregalou uns olhos enormes e contraiu os músculos num trejeito estranho.&lt;br /&gt;— E morte lá tem cara, dona Mercedes?&lt;br /&gt;— Nem te conto! Dizem os antigos que a maldita assusta até o coisa ruim. Anda de preto, um par de botas até a altura dos joelhos e, para piorar o quadro, carrega, na mão, uma espécie de foice. Sem falar na voz...&lt;br /&gt;— Que voz, dona Mercedes? Que voz?&lt;br /&gt;Dona Mercedes chegou o rosto bem perto da amiga e quase balbuciou em seu ouvido.&lt;br /&gt;— Cavernosa, fria, cortante, insólita.&lt;br /&gt;A outra se benzeu, receosa. Tinha verdadeira ojeriza a que alguém falasse de morte. Mas o desejo de saber do alheio.&lt;br /&gt;— E quem foi que já viu a morte frente a frente?&lt;br /&gt;Antes de responder, dona Mercedes  se levantou, caminhou até o fogão, acendeu um dos bicos e colocou o bule de café para aquecer. Retirou um cigarro do maço e veio fumar perto da janela.&lt;br /&gt;— Quem viu? Tenha paciência. Falarei do santo e do milagre. O santo, melhor dizendo, a santa, Dona Maricota — esposa de um amigo meu, o Raimundo —, que reside na capital. Pois é. Dona Maricota, que Deus a tenha no merecido descanso e em sua poderosa misericórdia divina.&lt;br /&gt;Dona Santinha igualmente se levantou de sua cadeira e se postou como um poste ao lado da amiga.&lt;br /&gt;— Como sabe que essa tal de dona Maricota viu a... a... a coisa preta? Ela não bateu com as 12? Se ela foi para o espaço, se assentou o cabelo, como é que a senhora...&lt;br /&gt;Dona Mercedes deu uma longa tragada no cigarro e assoprou a fumaça em direção ao teto. Em seguida, correu a retirar o bule que fervia e serviu duas xícaras.&lt;br /&gt;— Vou tentar explicar. Dona Maricota, antes de empacotar de vez os ossos — meu Deus, que horror! —, quase espichou as canelas logo às primeiras horas da manhã, quando se dirigia de casa para a escola onde lecionava Matemática, num bairro próximo. No meio do caminho, resolveu dar uma paradinha na lojinha do companheiro. Ele tinha, ou melhor, ainda tem uma sapataria. No que sai do carro, deu nela  um piripaque repentino...&lt;br /&gt;— Credo em cruz! E aí?&lt;br /&gt;— Dona Maricota caiu estatelada ao lado do automóvel. O seu Raimundo, que comia um pedaço de pão e tomava um copo de refrigerante, em pé, na calçada do estabelecimento, chamou o ajudante que trabalhava com ele e ambos acorreram em socorro da pobrezinha.&lt;br /&gt;— Santíssima Virgem! &lt;br /&gt;— Outras pessoas, ouvindo os gritos apavorados do sapateiro e do ajudante, prontamente acudiram em solidariedade. Colocaram dona Maricota num táxi que passava e tocaram, a toda velocidade, para o hospital. No curto trajeto para a emergência, ela viu a morte sentada a seu lado. O rosto em forma de esqueleto. No lugar dos olhos, dois buracos negros. Somente os dentes brilhavam, muito brancos, como marfim. E um cheiro forte, aliás, fortíssimo, de enxofre.&lt;br /&gt;Dona Santinha estava branca igual um fantasma. Suas pernas tremiam, o coração batia descompassadamente. Mas a curiosidade falava acima de sua capacidade de saturação.&lt;br /&gt;— E a morte, por acaso, gosta de enxofre?&lt;br /&gt;— Ama. Ama de paixão. Minha falecida mãe dizia que enxofre espanta a vida. Morte não gosta de vida, mas de coisas mortas. Enxofre faz bem o tipo de besteira em que a morte vive com o nariz enfiado.&lt;br /&gt;— Morte tem nariz?&lt;br /&gt;— Não é bem um nariz. São cavidades, orifícios, a senhora sabe, né? Acima da boca e abaixo dos olhos. É por ali que a desgranhenta sente o cheiro.&lt;br /&gt;— Estou horrorizada. Mas, e então? A morte fez o quê?&lt;br /&gt;Dona Mercedes parecia uma atriz representando uma cena dramática. Sua desenvoltura teatral espantava. E encantava, também.&lt;br /&gt;— Pois a figura deu um sorriso esquisito, fez uns hi, hi, hi, pegou dona Maricota pelo braço e lascou o veredicto final ou fatal, sei lá. Acho que, no caso dela, foi letal.&lt;br /&gt;— Que veredicto?&lt;br /&gt;Dona Mercedes fez uma pose deveras engraçada para imitar a morte conversando com dona Maricota.&lt;br /&gt;— Chegou a sua hora. Venha!&lt;br /&gt;Dona Santinha, nessas alturas, andava às quantas, arrepiada dos pés à cabeça devido ao medo que a invadia. Contudo, agüentava firme, não dava o braço a torcer. Queria saber mais.&lt;br /&gt;— Prossiga, prossiga...&lt;br /&gt;— Dona Maricota mal entrou no hospital os médicos acudiram com ela para a UTI.&lt;br /&gt;— Continue...&lt;br /&gt;— Lá, a pobrezinha permaneceu por uma semana. O Raimundo — esse foi o milagre! — deixou de comer. Ele nunca deixava de comer. Emagreceu. Era gordo feito um porco. Virou um palito de fósforo sem cabeça. Não saía de perto da esposa. Dia e noite no pé dela. Afinal, 40 anos de casado...&lt;br /&gt;— E a sapataria?&lt;br /&gt;— Na responsabilidade total do empregado. O Raimundo  me contou que, numa semana, o fulaninho meteu as mãos pelos pés.&lt;br /&gt;Dona Santinha tinha uma sombra de burrice bastante acentuada, além de ser  lerda e abobalhada em relação a absorver certos lances que lhe eram passados. Custava, por exemplo, a entender coisas que estavam às claras e, por essa razão, dona Mercedes necessitava explicar duas, três vezes, ou voltar a conversa passos atrás, até a amiga entrar no espírito do verdadeiro teor do bate-papo. Na realidade, ela só queria saber do final da história. Entender pouco importava.&lt;br /&gt;— Meteu as mãos? Meteu as mãos em quê?&lt;br /&gt;— Ora, em que! Em que? Nos bolsos do patrão. O cara roubou. Tinha esse péssimo costume. Mas, então, morreu...&lt;br /&gt;— O ladrão! Digo, o empregado do seu Raimundo, morreu?&lt;br /&gt;— Por tudo quanto é mais sagrado, dona Santinha. A Maricota morreu. Abotoou o paletó. Adormeceu no Senhor. Bateu a pacuera, numa segunda, à meia noite. Um pouco antes, ela se debateu  no leito, fez xixi, cagou nas roupas e nos lençóis, virou e revirou os olhos, deu uns gritos estridentes, gemeu. O Raimundo se aproximou, ela grudou no braço dele e aí... Babau! A morte entrou no quarto, desligou os aparelhos, e ainda apertou o pescoço da moribunda.&lt;br /&gt;— A morte apertou o pescoço da velha?&lt;br /&gt;— Pois sim. E não foi só isso, dona Santinha. A agourenta deu uns empurrões no Raimundo, que saiu feito um desembestado. No primeiro banheiro que avistou pela frente vomitou até as tripas do pai do pai dele.&lt;br /&gt;Dona Santinha, a essas alturas, tremia mais que caniço em ventania. Nem o café quentinho, bastou para acalmar os ânimos. Desta vez, o desejo irreprimível  da curiosidade havia levado sua estupidez um pouco longe demais. A mulher, na verdade, estava em vias de ter uma indisposição. Não deu outra. &lt;br /&gt;— Acho que vou... Vou... Acho que vou pelo mesmo caminho desse tal de Raimundo. Posso usar o seu banheiro?&lt;br /&gt;Poder, podia, mas não deu tempo. Dona Santinha botou tudo o que tinha direito, e o que não tinha, para fora do estômago. Vomitou feito uma bêbada desastrada que tomou todas, ali mesmo, no peitoril da janela. Acertou em cheio a cabeça da empregada que chegava da rua, justo naquele momento, vinda do supermercado. Após esse vexame, um calafrio repentino se transformou em dor de barriga e logo virou caganeira. Em decorrência disso, borrou  literalmente as calças.&lt;br /&gt;Enorme confusão ganhou forma. Os filhos de dona Santinha foram acionados, as noras trouxeram uma muda de roupas limpas. De repente, a casa de dona Mercedes virou feira livre: gente entrando e saindo para acudir e uns tantos circulando, querendo se inteirar dos fatos, levados pelo calor da bisbilhotice. De súbito, aconteceu o inesperado. O que ninguém havia previsto. O feitiço virou  contra o feiticeiro. Quando se despedia da vizinha, já mais calma, no exato segundo em que segurava as mãos da contadora de histórias, e pedia desculpas pelo ridículo a que expusera não só ela, como toda vizinhança, Dona Mercedes começou a sentir fortes pontadas no peito, à altura do coração.&lt;br /&gt;— É ela, Dona Santinha,  é  a maldita!&lt;br /&gt;— Que maldita, dona Mercedes? É a dor? É a dor? Fala logo, desembucha.&lt;br /&gt;Dona Mercedes, entretanto, mal conseguia respirar e se sustentar sobre os pés. Houve, nessa hora, uma inversão de papéis. Os presentes, estatelados,  correram com ela para o quarto e a puseram sobre a cama. Danou a passar mal de verdade, sem fingimento algum, sem encenação. Os que vieram acudir dona Santinha partiram, às pressas, em socorro dos gritos da outra. Trouxeram uma garrafa de álcool, chamaram o farmacêutico, telefonaram para o médico, pediram uma ambulância. A empregada que havia ganhado a vomitada, interrompeu o banho, saiu do chuveiro às carreiras, enrolada numa toalha e, ao ver a patroa naquele estado deplorável, se atracou aos pés dela e começou a chorar feito uma criança desamparada. Pela surpresa que pegou a todos, bem como o  sobressalto que se abateu de repente, a coisa não parecia ter jeito. Nem solução. Dona Mercedes, a velha contadora de histórias, a senhora que gostava de tirar sarro vendo o medo estampado nos olhos dos outros,  estava agora,  à mercê da própria sorte, dobrada sobre o corpo, agarrada fortemente aos lençóis e travesseiros. Na medida em que os minutos corriam, a infeliz mais se estrebuchava e se contorcia. Entrou num processo pelo qual passou a suar frio e a se debater ferozmente. O quadro  parecia não ter volta. &lt;br /&gt;— Sai de mim... Vai de retro... &lt;br /&gt;Dona Santinha, ao lado, como os demais que lotavam a casa, choravam e tentavam ajudar a velha companheira e amiga. Na verdade, algo deixava claro, para todos, que não havia  mais nada a ser feito.&lt;br /&gt;— O que a senhora está sentindo dona Mercedes? – insistiu dona Santinha  numa tentativa infrutífera de reanimar a moribunda. - É a primeira vez que sente esse tipo de mal estar?  Quer que mande buscar algum remédio?&lt;br /&gt;— Nããaao... Dona... San... San... tinha... Chegou... Chegou a minha hora. Está... Está acontecendo... como... como... eu sonhei.  Eu... eu não lhe contei... o sonho... Mas... está... Está  acontecendo tudo... Tudo como eu vi, essa noite...&lt;br /&gt;-   Esquece esse sonho macabro, dona Mercedes. Pense em coisas boas.   &lt;br /&gt;-   Tarde... Tarde demais, dona Santinha.  É... a... mor... te... mes... mo... em... car... ne... Em... car... ne... e os... so. Ela... está... Ela está... Aqui... Vai de re... de... &lt;br /&gt;Foram suas derradeiras palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só acontece com quem está vivo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei, hoje cedo, o Luiz Cláudio, do 309, proseando animadamente com o elevador de serviço. Sabia que o cara estava meio lelé da cuca, mas não a ponto de se sentar numa cadeira, comodamente, acender um cigarro e, como se fosse a coisa mais corriqueira desse mundo, conversar com um elevador. Ainda mais em se tratando do elevador de serviço. Ao menos, se fosse o social...&lt;br /&gt;- Você não se cansa de levar essa gentalha para cima e  para baixo?&lt;br /&gt;- Claro que me canso. Pior, contudo, não são as pessoas. Duro é aturar o fedor do lixo.&lt;br /&gt;- Lixo? Que lixo?&lt;br /&gt;- Todo santo dia, logo pela manhã, uma funcionária do condomínio desce com uma porrada de sacos de lixo. Vem lá do 23 até o 1°. Outro dia,  num desses andares ela encontrou um cachorro morto, dentro de uma caixa de sapatos. Imagine só. O troço veio  fedendo,  fedendo tanto que cheguei a sentir  dores nos cabos de aço que me sustentam.&lt;br /&gt;- E você o que fez? Desmaiou?&lt;br /&gt;- Não, meu filho, não posso desmaiar. Esqueceu que sou um mísero elevador de serviço?&lt;br /&gt;-  É mesmo. O que você fez para demonstrar a sua raiva e o seu protesto?&lt;br /&gt;- Desci normal. Quieto, sem dar um pio. O bom cabrito não berra, já dizia o velho Atlas, meu pai. Quando cheguei lá na garagem, assim que a moça retirou todos os sacos, eu me enguicei.&lt;br /&gt;- Você  o que? Se enguiçou? Como? &lt;br /&gt;- Subi correndo e travei a porta entre o 17 e o 18.  A partir daí me recusei  a continuar trabalhando o resto daquele malfadado dia.&lt;br /&gt;- E depois?&lt;br /&gt;- Tiveram que ligar para o plantão da assistência. Apareceu um mecânico por aqui quase às 8 da noite. &lt;br /&gt;- Então foi positiva a sua parada estratégica?&lt;br /&gt;- Você nem imagina, meu velho.  Como o meu irmão social aqui do lado, está fora de uso, a galera, em peso, teve que descer e subir pelas escadas. Cá entre nós: adorei! &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;•&lt;br /&gt;Toda vez que sento a bunda na privada, a descarga enguiça. Já pensei em trocar a posição da bacia, colocá-la, quem sabe, no lugar onde agora está o bidê. Como essa peça é antiga, e ninguém usa, talvez dê certo. O problema é que um amigo meu, o Andoba (parece até nome de remédio), veio aqui em casa, olhou tudo e disse que faria o serviço num final de semana.&lt;br /&gt;No final de semana, realmente, deu as caras. Trouxe um ajudante a tiracolo, um tal de Valpakine Risperdal de Jesus. Os dois entraram no banheiro às oito da manhã e saíram pouco depois das duas da tarde. Trocaram os encanamentos do vaso, conforme havíamos combinado. Tudo às mil, até o sábado seguinte. Mamãe veio com Tio Berto almoçar e, à hora em que o tio resolveu escovar os dentes, ao abrir a torneira da pia, encheu as mãos e o rosto de merda.&lt;br /&gt;•&lt;br /&gt;Minha namorada Risoleta, feia de cara e boa de pescoço, se assemelha a uma girafa mal nutrida, principalmente pela manhã, quando acorda. Parou, semana retrasada, no hospital, em estado grave. E olha que só sentou na cama do meu quarto por cinco segundos, tempo necessário para amarrar o cadarço de um dos tênis e botar um absorvente no meio das pernas, porque a menstruação desceu com vontade e desenhou, com o sangue, uma figura esquisita bem no meio de sua bunda gostosa. &lt;br /&gt;- Uma figura esquisita?&lt;br /&gt;- Isso mesmo. &lt;br /&gt;- Que espécie de figura?&lt;br /&gt;- A do Roberto Jefferson chorando porque perdeu um dos cheques do “mensalão”. &lt;br /&gt;•&lt;br /&gt;Papai está realmente querendo deixar a gente maluco aqui em casa. Depois que se separou de mamãe, endoidou de vez. Deu para deitar num colchonete, no chão da sala, após o almoço, sem camisa, só de cueca, televisão ligada num filme pornô, a barriga para cima. Parece um rei. Antes, ao menos, desligava a televisão, vestia um pijama (lembrança do falecido irmão Juca) dava uns peidos fedorentos e depois virava para o canto e dormia. Para felicidade nossa, arranjou uma companheira. Um amor de pessoa. Paloma, uma gatinha linda e maravilhosa, no albor dos 16, mais nova que papai, 32 anos. Lembra a top carioca Daniella Sarahyba. A mocinha costuma acompanhar o velho se acomodando com, ele no minúsculo colchão. O quadro é o mesmo: a televisão ligada num pornô, ele sem camisa só de cueca, ambos de barriga para cima. Quando papai peida, ela sorri um sorriso encantador e diz que seus puns são os mais cheirosos do planeta. O problema é que ela vem para o lado do velho vestida com uma camisa comprida, sem nada por baixo, a não ser uma calcinha tão pequena que se duvidar é capaz de caber inteirinha dentro da minha vontade de agarrá-la no banheiro da empregada. Até aí, tudo bem. A confusão se forma, realmente, depois que os dois ferram no sono: a camiseta que Paloma usa sobe misteriosamente até a altura do pescoço, deixando tudo que ela tem de bom e de belo, à mostra e a visitação de desejos mais eloqüentes. Eu e meu irmão, nessa hora, entramos em ação. Batemos uma punheta enquanto olhamos, de butucas arregaladas para os artifícios pecaminosos da nossa boa e gostosa madrasta.    &lt;br /&gt;•&lt;br /&gt;O Célio (apelidado pela turma de amigos aqui do prédio de “absorvente de madame”) é meu vizinho de porta. Moro no 604 e ele, no 605. Segredou com o Mesilato de Doxazosina, o porteiro (um fofoqueiro de primeira linha), que todo dia, depois que a esposa virava as costas e saia para o batente, se punha a tomar tranqüilamente um banho de quase duas horas com uma índia de 20 anos, gostosa, perfumada, corpinho esbelto, tipo a boazuda da Eliana, da Rede Record, e o rostinho de princesa meio parecido com a da Tammy Di Callafiori.&lt;br /&gt;A gatinha, segundo ele, tem mania de usar um invólucro no lugar da calcinha que cabe todinha na palma da sua burrice. E mais: que a safadinha adora pintar uma metade do rosto com carvão e óleo e a outra metade, do nariz para baixo, de vermelho, usando colorau extraído do açafrão. Aprecia pó compacto, blush, rímel, batom e lápis nos olhos. Estuda o terceiro período de História numa escola paga pela Funai e quer se formar em advogada, para defender as causas indígenas. Sem mencionar os peitinhos durinhos e o bumbum empinado à moda Camila Pitanga. A tal beldade já foi miss por duas vezes. Está residindo no prédio ao lado, com uma tia, e a moçada, em peso, está tentando descobrir qual o nome dela, o andar e o telefone. Infelizmente, o Célio não caiu na besteira de revelar mais detalhes.&lt;br /&gt;Mesilato, todavia, com o pouco que dispunha nas mãos, contou para o servente, que contou para o faxineiro, que contou para a Dorinha do 207, que contou para o Alcebíades, que contou para o Nizoral Shampoo, que contou para o porteiro da noite, que contou para o vigia, que sem querer acabou abrindo o jogo para a mulher do Célio.&lt;br /&gt;Aminofilina, a vítima, a traída, a ultrajada em sua honra, a mal-amada, virou bicho. E com razão. Embora lembrasse vagamente Karina Bacchi, poderia, se quisesse, e se desse na telha, ter todos os homens que desejasse a seus pés, com um estalar de dedos apenas. Contudo, era fiel, honesta, vivia de casa para o trabalho e vice-versa. Ao receber o salário no final de mês, entregava todinho nas mãos do marido. Por essa razão, quando soube do caso do Célio, resolveu botar as coisas em pratos limpos.&lt;br /&gt;Segunda-feira, pulou da cama no horário de sempre, cinco da matina. Fez o café, deixou a mesa posta para o filho de uma égua e, às sete em ponto, saiu para o trabalho, alegre, risonha, cantando uma canção romântica do Amado Batista. Fingiu. Na verdade, se escondeu no apartamento da Valpakine Zovira, uma sardenta metida a Meryl Streep, sua companheira de serviço, que morava com a avó, no 90l.&lt;br /&gt;No horário em que o vigia disse que a tal sirigaita, piranha de uma figa, marcava presença, pegou emprestado o rolo de macarrão da Valpakine, desceu feito uma cobra venenosa pelas escadas, dispensando o elevador, e, soltando os bofes, meteu os pés na porta. Nessa agressão esquisita contra si mesma, se arrebentou toda mas, apesar dos hematomas, seguiu adiante.&lt;br /&gt;Precisava lavar a honra. Mesmo que fosse com o suor de seu sangue. Depois, quem sabe, para dar o troco, até botasse um belo par de chifres no desgraçado do Célio. Talvez com o porto-riquenho do 302, uma espécie de Rodrigo Santoro às avessas, que, nos três meses em que morava no prédio, já havia comido todas as solteironas e bem casadas, inclusive a velhota do 103. Antes, contudo, mostraria para o safado do Célio o tipo de mulher que ele estava perdendo, por causa de uma simples amante que arranjara para satisfazer algumas horas de prazer, enquanto ela dava um duro dos diabos para ajudar a contrabalançar as despesas do mês.&lt;br /&gt;Entrou em casa na raça, com vontade, quebrando tudo, inclusive a mesa que havia deixado posta com o desjejum. Fera indomável, entupida até as ventas por um ódio mortal incontrolável e irrefreável, se assemelhava a um furacão, com rajadas de braços a duzentas porradas por minuto. Pegou o Célio todo ensaboado debaixo do chuveiro quente, se masturbando, pinto duro, a boca aberta, feito um pamonha. Pendurada na torneira, de frente para ele, um superpôster, de corpo inteiro, da índia Mayra Ferreira, da tribo Xucuru de Ororubá, de Pesqueira, sertão de Pernambuco, pelada, da cabeça aos pés.&lt;br /&gt;•&lt;br /&gt;Pois bem! Nessa confusão toda, descobri, sem querer, que o Mauro Cobra Dura, do 505, depois que apanhou a esposa com a boca na botija, transando com o Ricardo, do 1.008, no elevador, entre o oitavo e o nono, resolveu virar a casaca. Antes desse episódio, achava que o camarada levava jeito com garotos, mas, finalmente, cheguei à conclusão que o negócio dele era bem mais escuso e complexo que molestar adolescentes. Que negócio seria esse? Tanto procurei que acabei encontrando. E foi por acaso -, sem planejar. Aconteceu. Mauro Cobra Dura não importunava moleques, nem era pedófilo. Ao contrário: tinha um fraco por meninas de menos de 12. &lt;br /&gt;Flagrei, juro, sem querer, a criatura, com a Leninha, de oito anos, filha do síndico, praticando sexo oral, dentro do carro (ele tem uma Besta e transporta alunos para uma escola particular). O sujeito sabe que eu sei. E sabe porque descobriu que vi e ouvi tudo.&lt;br /&gt;— Chupa, filha, chupa mais. Não pára. O tio vai lhe dar  R$ 100 reais. Você não quer? Então, mete logo essa pica na boca e engole tudinho. Vai, vai que estou quase gozando.&lt;br /&gt;Mauro Cobra Dura evita topar comigo sozinho ou subir no elevador se não tiver outras pessoas por perto. Sinto que carrega uma vontade louca de me fuzilar, ou de me dar um tiro pelas costas. Ou de me armar uma cilada pelos corredores. Outro dia, percebi claramente o pânico estampado em seus olhos: parecia tomado de ira, furioso, encolerizado. Eu havia descido para comprar pão; ele também. Na volta, entrou, comigo no elevador a Leninha, carregando uma sacola de compras do supermercado. Será que essas coisas só acontecem com quem está vivo?&lt;br /&gt;•&lt;br /&gt;No fundo, bem no fundo, não queria ter presenciado nada do que rolou entre o Mauro Cobra Dura e a Leninha. Na verdade, gostaria de estar na pele do Luiz Cláudio e possuir o senso de humor apurado que carrega dentro de si. Ele é que é feliz! Sabe como fazer cócegas nas tristezas e nas melancolias dos outros e espantar a solidão dos que se sentem presos a ela, além do que, não corre o risco de tomar uma facada na barriga, ou tropeçar numa bala perdida. Deve ser gostoso viver de papo furado, fumando um cigarro atrás do outro e jogando conversa fora, papeando animadamente com um elevador de serviço. Ao menos, se fosse o social...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mural do esquisito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kelly tinha um tipo de obsessão rara: comer embaixo do chuveiro frio, ouvindo música a todo volume vinda de um de rádio que ficava ligado num canto da enorme prateleira cheia de perfumes e outras coisinhas para embelezamento do rosto. Passava a maior parte do tempo dentro do quarto, trancada, feito um bicho arredio. As janelas e as cortinas sem abrir, longe do sol da manhã ou da brisa leve que soprava à noite.&lt;br /&gt;Quando não estava empoleirada na cama, assistindo desenhos animados, metia a carcaça no banheiro, que ficava ao lado. De tanto ir até lá, sentar e levantar o traseiro, descobriu que o fabricante da sua bacia de privada fundou o primeiro estabelecimento em 1953, e nele colocou o nome de Hervi, que era primo irmão do Standard, outro do mesmo ramo de mercado que, além de louças sanitárias, construía tampas e assentos e veio a ser o maior concorrente da Astra. &lt;br /&gt;Se tentava conciliar o sono, algo além das suas forças, meia hora depois, a fazia ficar em posição de alerta, sobressaltada, assustada, atemorizada, toda molhada de suor, os olhos esbugalhados, salientes, perdidos no nada, as mãos trêmulas e os pensamentos desconexos, incoerentes, desunidos, presos a visões sorumbáticas e macambúzias, de assuntos que não podia controlar. Um desastre de proporções gigantescas tomava forma em seu mundo interior mal parido.&lt;br /&gt;Por causa disso, qualquer porcaria fora dos parâmetros normais mudava sua vida para sempre. Um cachorro latindo, alguém passando na calçada, uma risada um pouco mais alta, um carro cruzando a rua, um vizinho que acendesse uma lâmpada, um recém-nascido chorando, sussurros no corredor diante dos seus aposentos. A saída para fugir de tudo era a fome. Uma fome incontrolada, inexplicável, estranha, doída, fora de propósito, descomedida e, às vezes, salpicada de cobiças desconexas.&lt;br /&gt;Era comum perturbar o sossego, tarde da noite, da pobre da Maria, a empregada, e confessar que queria um prato de macarrão parafuso com mortadela e creme de papaia. Ou um feijão feito na hora com miúdos de porco acompanhado de suco de goiaba com penas de gambá. Ou, ainda, lentilhas à milanesa e bastante gelo no sangue. Às vezes tinha uns repentes de gente desvairada, parecia meio louca da cabeça, tantas as  coisas embaralhadas em seu subconsciente, episódios mesclados de sonhos e realidade, mais divagações que propriamente coisas palpáveis. Noutros instantes, se sentia como uma fada princesa que havia perdido seu suntuoso e nobre encantado. Nessas horas, se punha a chorar copiosamente e a soluçar como uma criança que deixou de ganhar um brinquedo almejado.&lt;br /&gt;— Se tivesse uma garrafa de vinho doce por aqui!...&lt;br /&gt;Entretanto, não bebia nada, nem água de torneira, embora soubesse tudo a cerca de vinhos e consequentemente como curar uma ressaca braba. Lia muito e um dia achou um trabalho sobre o assunto na biblioteca da escola. Roubou o exemplar e levou consigo. &lt;br /&gt;Sonhou, numa dessas noites de vigília, que, por causa da conta alta do telefone, havia tomado uns tabefes de seu velho pai, no meio das orelhas.&lt;br /&gt;— Será que não se pode mais bater papo com os amigos? Da última vez que liguei para o Bob fiquei só uma hora e meia. Ou será que foram duas?&lt;br /&gt;Por essas e por outras, queria morrer. Cada membro que pulsava em seu corpo lhe dizia claramente que deveria estar numa cova com sete palmos de terra no focinho, cheia de vermes peçonhentos e formigas se banqueteando em suas carnes flácidas. Quem sabe caminhando nas profundezas do inferno, de braços dados com o capeta, comendo mariola e bebendo uma Nova Schin, se sentisse mais dona e senhora de si. Comumente, ficava em pé sem cair, meio trôpega, meio zonza, ou deitada, estirada, nua em pelo, sem vontade de nada, querendo tudo, mas sem forças de correr atrás das suas ambições. Desorientada e só, permanecia estática sobre o colchão macio, debaixo do lençol quentinho, imaginando andar de bungee rocket com um carinha que conhecera na Estação Paraíso do Metrô. Pegara o hábito de se masturbar até a exaustão, diante de um poster gigante do Alexandre Frota, pelado, e o fazia com a ajuda de um consolo que também furtara numa lojinha de produtos eróticos quando lá estivera com o Rodrigo, marido de uma promotora de justiça que residia duas casas abaixo.&lt;br /&gt;Por lhe ter feito companhia, Rodrigo procurou ser amigável e cavalheiro. &lt;br /&gt;— Vamos ao cinema ou ao parquinho andar de roda gigante?&lt;br /&gt;— De jeito nenhum!&lt;br /&gt;Na verdade, Kelly preferia beijar de língua a boca do Cardoso, filho do dono da padaria do bairro. Aliás, ele prometera levá-la num final de semana que não tivesse aula na faculdade para experimentar, junto com a Lorraine Lima, sua amiga de longo tempo, as sensações gasosas de encarar as ondas trepada numa prancha de bodyboarding numa dessas praias paradisíacas perdidas pelos quatro cantos do Brasil. Kelly sonhava com esse momento e se sentia nas estrelas só de pensar em ficar sozinha com o rapaz. Ainda mais colada no corpo dele, toda molhadinha e em cima de uma prancha ao sabor de ondas gigantescas. Que espécie de emoção sentiria? Com certeza, idêntica à de estar gozando numa cama espaçosa com um pau bem duro no meio das pernas.&lt;br /&gt;Não fosse tanto e era quase mulher. Mas o quase atrapalhava. A impedia de seguir adiante e ela se via, ora empacada na porta do Cemitério da Consolação com duas velas nas mãos, tentando queimar uma mecha dos cabelos de um menino sapeca, que brincava de acertar pedrinhas nos túmulos com um estilingue de tiras pretas, ora sentada no peitoril do último andar do prédio do Banespa, querendo pular para o vazio que se estendia de braços abertos para a cidade lá embaixo.&lt;br /&gt;— Corra! Corra, seu safado de merda! Corra para meus braços. Vou lhe dar a bandeirada final antes que consiga chegar triunfante ao Viaduto do Chá.&lt;br /&gt;Lembrou do rádio. Sintonizou numa estação qualquer, ao acaso. Tocava uma música de sons engraçados:&lt;br /&gt;— Tribalistas: Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte? Não. Come Away With Me: Norah Jones? Também não. Porra! Rod Stewart, Jota Quest, Leonardo, KLB, Kid Abelha? A puta que pariu? Isso, a puta que pariu! Que se dane o rádio. Era melhor ficar desligado.&lt;br /&gt;— Vocês todos são uns medíocres. Desafinam tão bem quanto os músicos que acompanham as respectivas faixas de seus discos.&lt;br /&gt;Kelly possuía uma beleza rara: lembrava Ana Beatriz Barros em seu esplendor fashion mas, ao mesmo tempo, Dercy Gonçalves e sua cafonice piegas. Isso lhe emprestava um ar de chatice fora do comum, nojento, e lhe transformava numa mulher imatura, precocemente temporã, vazia e cheia de absurdos inconseqüentes. No fundo, desejos mal acabados, picuinhas resolvidas pela metade.&lt;br /&gt;De repente, ruídos estranhos à sua volta lhe põem os nervos em sobreaviso total. &lt;br /&gt;— Quem está aí? É você, Maria? Mãe? Pai? Droga, tem alguém no sótão? Será, por acaso, um fantasma retardatário? Fantasma o escambau. Ainda mais retardatário. Esse negócio de alma de outro mundo é coisa de gente besta.&lt;br /&gt;Veio à memória o que lhe dissera a empregada uma semana antes:&lt;br /&gt;— Ratos, patroinha! São ratos! Milhares deles...&lt;br /&gt;Ratos, ratos, isso mesmo. Os desgraçados desafiavam os gatos da casa. Pareciam Sniff e Scurry duelando com Hem e Haw descritos por Spencer Johnson. Só que esses do sótão pertenciam à Juventude Cristã dos Camundongos Tripudiados Pela Má Sorte, cujo pastor, um sisudo e bonito roedor, cosmopolita, dorso preto - brilhante ventre claro, desse tamanho, com rosto de mercenário -, gostava de afanar os pedaços de queijo da geladeira e era perito em ensinar seus pares a carregarem para o ninho tudo o que encontrassem de gostoso pela frente.&lt;br /&gt;À merda a empregada e seus bichos peçonhentos. Tinha coisas mais sérias a ocupar sua mente.  &lt;br /&gt;Lembrou do dia que flagrou a mãe sem calcinha, os olhos vendados, ajoelhada, de quatro, tentando pegar a piroca rígida do pai, com a boca cheia de leite condensado.&lt;br /&gt;— Vem, meu amor! Entra na caverna escura e me queima o anel. Faz de conta que sou sua Luma. Vire meu bombeiro e me enfia a mangueira com o caminhão e tudo mais que tiver direito.&lt;br /&gt;— Primeiro, dá umas boas mamadas, que é para deixar a vara bem lambuzada. O caminhão segue logo atrás.&lt;br /&gt;Só de pensar nessa cena hilariante ficou trêmula e molhada. Daria tudo para estar no lugar da mãe, recebendo goela abaixo o cacete latejante do pai. Para não ver o final do que iria acontecer, preferiu voltar quietinha, pé ante pé, ligar a televisão e assistir um filme na TV a cabo.&lt;br /&gt;— Se essas paredes falassem, o quarto dos meus genitores não seria um local aconchegante onde duas pessoas comportadas pudessem se amar. Parece mais com o portal de acesso a Sodoma e Gomorra.&lt;br /&gt;Pulou da cama. Chato pular da mesma cama, sempre. De regresso ao banheiro, abaixou a calcinha até os joelhos e sentou no vaso. Queria sentar noutra coisa. Algo que fosse duro e quente, não o consolo, rígido e frio que guardava sobre o colchão para a mãe não pegar. Acabara de mandar para dentro uma maçã que escondera no friser. Por certo, nem chuveiro resolveria seu problema. A coisa estava nas entranhas. Bem no meio da vagina, um bicho carpinteiro que coçava e dava fisgadas que empapuçava a musculatura dos grandes lábios. Pensou, então, numa arte. Uma cênica, que fizesse seu coração rir até se escangalhar.&lt;br /&gt;— Vou fazer xixi e colocar numa garrafa de refrigerante. Depois, lacro e envio ao Cardoso. Será que ele desconfiará que se trata da minha urina?&lt;br /&gt;Cardoso tinha cara de tonto. Era, no geral, um sujeito tranqüilo, de bem com a vida, normal, desses que fodem, sem pensar duas vezes, a mulher dos amigos, come pipoca, toma refrigerante no canudinho, adora participar de corridas de automóveis, usa relógio de pulso, bate punheta pensando na Ana de Biase, a salva-vidas do Caldeirão do Huck e mandou  fazer um monte de  tatuagens por quase todo o corpo só para parecer o tal. Sem falar que condena o aborto, o divórcio, o controle da natalidade e o sujeito que controla o controle do controle da natalidade.&lt;br /&gt;— Meu par ideal, o Cardoso — Minha alma gêmea, como diz o Fábio Jr. Vou dar para ele. Transarei com esse desgraçado até a puta da boceta ficar vermelha de tanto roçar naquele caralho grosso e macio que ele tem pendurado. Sou a receita pronta. Basta o sangue bom ler as entrelinhas de meu coração apaixonado e me pegar de jeito, com força, me jogar na parede, me dar porrada, me botar de quatro, mijar na minha boca, e me chamar de lagartixa. Cederei de bandeja, como se estivesse regada a um Morellino di Scansano. E se o infeliz for um tremendo de um otário, Zé Mané? Não importa. Desde que me castigue duramente as partes afogueadas, e me ponha a nocaute, não precisarei de uma garrafa de Taittinger Brut Prestige Rosé. O licor extraído da minha menstruação dará conta do recado. No fim vai acabar tudo numa boa gozada e eu sei que terminarei como minha mãe, com a rosquinha em frangalhos e o canal do  panamá coberto de porra quente e viscosa.&lt;br /&gt;Kelly sorriu largamente com esses pensamentos marotos e, em seguida, arriou as calcinhas de vez e passou ao box. Escancarou a torneira até o fim e meteu, de lado, a bunda branca e seca debaixo do chuveiro gelado. O peido que soltou se confundiu, por um breve momento, com o barulho da água escorrendo, ligeira, pelos buraquinhos do ralo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O negativo que deu positivo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Enriqueta andou tendo uns encontros extraconjugais com o Gervásio, sujeito meio louco das idéias. Aliás, a Enriqueta,  mantinha, em casa, a contragosto seu, logicamente por causa dos filhos menores, um marido completamente abilolado, pirado, igual ou pior que o Gervásio, desses que, em pleno dia, costumam uivar como lobo faminto, rasgar dinheiro sem contar até 10 e comer bosta pensando ser arroz regado a caldo de carne.  Não durou muito as aventuras da  safardana com seu amante, verdade seja dita, apenas uns dois meses. O bastante, entretanto, para Gervásio — que tinha mania de tirar fotografias de tudo e certa vez clicou a própria mãe transando com um vizinho que perdera uma perna em cima de uma cadeira de rodas, e a irmã mais nova, de 12, sendo lambida por um ceguinho de rua,   — acomodar momentos pouco ortodoxos, em poses nada santificadas, da Enriqueta, com ele, numa tremenda seção de sexo oral.&lt;br /&gt;Nas fotos, a pistoleira, que lembrava um pouco a Maria Gabriela, dava um trato legal de Madame Pompadour na ferramenta, mostrando, inclusive, gulosidade acima do normal, segurando firme e forte o pé de mesa do Gervásio, como se aquele ato fosse sua última peregrinação terrena antes de bater às portas do purgatório. O engraçado, na história, é que o rapaz, num abrir e piscar de olhos, arranjou uma namorada espoleta que passou a morar com ele. Por essa razão, a nova aquisição, se sentindo dona do pedaço, chegou botando banca. Começou despachando os “casos” do Gervásio. Dessa forma, um monte de ninfetas que vivia em seu pé danou a correr léguas longe dos seus calcanhares.&lt;br /&gt;Não contente, a espevitada deu uma geral no apartamento: revirou, de pernas para cima, todas as coisas que encontrou pela frente, até que, vasculhando umas velhas caixas no quarto da empregada, deu de cara com uma série de fotos da Enriqueta — que conhecia de vista — mais o Gervásio, onde na maioria delas, se via claramente a despudorada atarracada, chupando sorvete de morango com chocolate ao leite condensado, ou dando o caneco, em posições não recomendáveis para menores de 18 anos. No verso de cada uma dessas fotos estavam anotados o número do negativo e uma frase do tipo: “Enriqueta dando um trato no Júnior”, ou “Enriqueta, de quatro, testando a nova porta da garagem”. Foi a gota que transbordou o copo. Isso enfureceu, sobremaneira, os brios da Camilinha Morgado, (forma carinhosa pela qual  Gervásio se dirigia à Débora,  sua companheira, não só pelo fato dela se parecer bastante com a atriz fluminense, como também porque era seu fã incondicional e por sua causa deixava qualquer coisa de lado, por mais importante que fosse, só para vê-la brilhar, na telinha da televisão) que  subiu  feio pelas paredes. Não contente, chutou o pau da barraca. Rodou a baiana.&lt;br /&gt;— Vou pegar mais uma desgraçada!&lt;br /&gt;Não esperou o sangue esfriar. Foi na agenda do Gervásio à caça do telefone da vadia. Ligou e mandou bala:&lt;br /&gt;— Gráfica Pega Fogo, boa tarde?&lt;br /&gt;— Oi, de onde fala?&lt;br /&gt;— Gráfica Pega Fogo. Enriqueta, às suas ordens. Em que posso ajudá-la?&lt;br /&gt;— Enriqueta,  aqui é a Débora. Sou amiga do Gervásio. Você conhece o Gervásio, ou sabe onde posso encontrá-lo?&lt;br /&gt;— Gervásio... Gervásio... Ah!, sim, é meu fotógrafo.&lt;br /&gt;— Ele é só seu fotógrafo ou algo mais?&lt;br /&gt;  - Quem está falando?&lt;br /&gt;  - Sou eu, Débora. Queria saber do Gervásio.&lt;br /&gt;  -  Faz tempo que não o vejo.&lt;br /&gt;   - Exatamente quanto tempo?&lt;br /&gt;   - Qual seu interesse em saber se sei do paradeiro do Gervásio?&lt;br /&gt;   - Bem, vamos deixar de lero-lero. Sou a Débora, namorada dele. E para seu governo, tenho comigo “uns negócios” que vão lhe interessar muito.  Gostaria que viesse até minha casa, pode ser?&lt;br /&gt;Enriqueta, a partir dessas poucas palavras, viu sua imagem de boa senhora em papos de aranha. E, mais que isso: se sentiu acuada, retraída, sem saída, de calças curtas. Tremeu feio, em toda a sua base, a mesma que dava de bom grado para o Gervásio e até aquele momento parecia sólida, tal como as torres do Word Trade Center antes de recepcionarem os aviõezinhos de Bin Laden.&lt;br /&gt;— E agora? Que faço? Vou ter com ela?&lt;br /&gt;Praticamente já imaginando do que se tratava, e esperando, evidentemente, pelo agravo de seu quadro, bateu no apartamento do Gervásio. E o pior, aconteceu. Chegou voando.&lt;br /&gt;— Me salve desta, meu  bom e amado Jesus Cristo!&lt;br /&gt;Ao ser recebida, antes mesmo de mandar a outra entrar e sentar, Débora quis logo saber a verdade, assim, de chofre:&lt;br /&gt;— Querida, agradeço sinceramente por ter vindo até aqui em resposta ao meu convite. Vamos, contudo,  diretamente ao ponto que nos interessa, sem meios termos ou subterfúgios. Você, por acaso, teve ou ainda tem algum tipo de flerte com o  Gervásio?&lt;br /&gt;— Não. Somos só bons amigos. Nosso relacionamento é extremamente profissional. Ele fotografa para minha empresa. Só isso. Nada mais.&lt;br /&gt;-    Tem certeza absoluta do que está me dizendo?&lt;br /&gt;-     Sim.&lt;br /&gt;Diante dessa negativa piegas, Débora abriu uma pasta e de dentro dela retirou um pacote de fotos que exibiu à outra, ao tempo que ria a mais não poder:&lt;br /&gt;— Coisa feia, Enriqueta! Já imaginou seu marido botando os olhos nessa baixaria?&lt;br /&gt;— Cruz em credo! Ele é capaz de me esfolar, não esfolar será pouco.   Fará picadinho de mim. Me matará, como se mata uma galinha, com certeza.&lt;br /&gt;— Pode se considerar, a partir de agora, uma defunta fresquinha.&lt;br /&gt;— Não, não, não. Escute, faço qualquer coisa.&lt;br /&gt;— Será que ouvi bem? Qualquer coisa?&lt;br /&gt;-    O que você quiser.&lt;br /&gt;Débora fingiu estar pensativa. Levantou, andou de um lado para outro na sala enorme. Acendeu um cigarro. Deu umas tragadas ligeiras. Por fim decidiu fazer uma proposta, aliás, uma proposta bastante indecente. Pediu, na maior cara de pau, por conta, claro, das provas irrefutáveis que tinha em seu poder, uma grana regular. Jurou que só devolveria o material completo, inclusive os negativos, quando tivesse em sua bolsa a quantia pretendida. E deixou claro: não queria cheque nem promissória. Dinheiro vivo, uma nota em cima da outra:&lt;br /&gt;— Isto que você está fazendo comigo é extorsão. Sacanagem, ou melhor, chantagem e das mais baixas. Sou uma mulher casada, de respeito, empresária bastante considerada  na cidade, mãe de duas crianças. O Gervásio é que é um corno... sem...&lt;br /&gt;— Alto lá! Corno é o seu marido. Como é mesmo o nome dele?&lt;br /&gt;— Zangão.&lt;br /&gt;— Já pensou no que pode acontecer se isso aqui chegar ao conhecimento do nosso amigo Zangão? Naturalmente, irá querer fazer jus ao nome e, como castigo, deverá  se transformar num vespão mal amado, e lhe aplicar uma bela de uma ferroada bem dolorida no escutador de novelas.&lt;br /&gt;— Fará pior. Me comerá viva.&lt;br /&gt;Risos.&lt;br /&gt;— Como você é ligeiramente magra, ele não correrá o risco de ficar engasgado com uma de suas pernas na garganta.&lt;br /&gt;— Deixe de brincadeiras. O assunto é sério. Preciso de um tempo. Levantarei o que me pediu.&lt;br /&gt;-     Voce tem cinco dias. Cinco. Nem um a mais.&lt;br /&gt;       Enriqueta, amedrontada, e de certa forma encurralada, correu atrás do prejuízo. Dois dias depois estava com o montante na carteira. Ligou para Débora. Queria o mais rápido possível se ver livre daquela rival perigosa e ter de volta as relíquias. O material precioso, onde ela, artista principal e protagonista de mão cheia, brilhava e abafava  tanto quanto a  Jennifer Lopez e Richard Gere em Dança Comigo? com a exceção de que dispunha, ao alcance dos lábios, para uso imediato, o microfone do Gervásio, na boca, entalado, inteiro, goela abaixo. Sem mencionar o olhar esquisito, maroto, acompanhado de um sorriso safado e travesso, bailando em seu rosto despudorado.&lt;br /&gt;— “Maldita hora” — pensou com seus botões — “maldita hora em que caí na asneira e, por mal dos pecados, “pagando um boquete”, engolindo o tesão  da tentação do Gervásio”.&lt;br /&gt;Como toda novelinha caseira, tem final feliz, esta não poderia fugir ao padrão. Enriqueta livrou a carcaça de um tremendo escândalo que, por certo, iria crescer, não na sua boca, mas na garganta profunda do povo e, por via de conseqüência, na língua ferina dos parentes mais chegados. Débora embolsou uma baba considerável, deu até uns trocados ao Gervásio que, feliz da vida, felicíssimo com a sorte grande, pela primeira vez viu regiamente reconhecido e recompensado seu humilde trabalho de fotógrafo.&lt;br /&gt;Depois desse quase incidente, prometeu solenemente à namorada que não mais lidaria com aquele tipo de expediente, nem se daria o trabalho de emprestar “aquilo” que carregava escondido no meio das pernas para ser filmado ou fotografado em lugares, (notadamente bocas, aberturas ou rachaduras consideradas estranhas). Aposentou as chuteiras e os rolos de filmes. Trocou a velha máquina por uma televisão 33 polegadas, tela plana, com controle remoto, saída para DVD,  e, de lambuja, um vídeo cacete — mil perdões — videocassete.  Para voltar às boas com a sua querida “Camilinha”, embarcou, com a jovem, para um final de semana em Ilhabela, litoral norte de São Paulo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peso pesado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gordão entrou no ônibus e parou na roleta para pagar a passagem. Atrás dele, uma fila enorme impedia o motorista de fechar a porta e seguir viagem. Uma senhora com a metade do corpo para fora, indagou:&lt;br /&gt;— Dá pra ser ou está difícil?&lt;br /&gt;— Estou à cata da niqueleira.&lt;br /&gt;Nessa de procurar a niqueleira, metia desesperadamente as mãos nos bolsos. Busca dali, examina daqui e nada. Um baixinho de bigode gritou, estabanado:&lt;br /&gt;— É pra hoje, companheiro?&lt;br /&gt;— Paciência, meu rei. Só um instante.&lt;br /&gt;Do outro lado, os passageiros que já haviam passado a roleta, como também os que vinham de outros bairros, começaram a ficar irritados. Caras feias e sorumbáticas se misturavam a semblantes irados e carregados de raiva e tensão. A coisa acabaria mal se o coletivo não se pusesse em marcha o mais breve possível. Enquanto isso, o grandalhão, literalmente enroscado nas barbas do trocador, não atinava com as moedas. Por conta disso, tirava, aflitamente enfurecido, das calças largas e sujas de graxa, tudo o que tinha direito: lenços, chaves, cartões telefônicos, carteira de documentos, telefone celular, conta de luz, conta de água, caneta, pacotinho de camisinha e nada da niqueleira.&lt;br /&gt;Dessa confusão desordenada, até uma calcinha de mulher surgiu em cena, o que, por poucos segundos, quebrou o ar pesado do ambiente. Finalmente, o coitado topou com o procurado. A tal niqueleira havia escorregado internamente pelas calças e ficara presa, milagrosamente, entre uma das bainhas dobradas do jeans.&lt;br /&gt;— Desculpem.&lt;br /&gt;Resolvido esse primeiro problema, surgiu um segundo, de proporções maiores. O cidadão entalou os l80 quilos de carne e banha, não conseguindo rodar a borboleta. Novo pandemônio se formou de repente. Um negão desses metidos a engraçadinho, com óculos escuros pendurados na testa e uma fita à guisa de turbante amarrada na cabeça, começou a empurrar, forçando as pessoas a se acotovelarem como animais encurralados, umas por cima das outras.&lt;br /&gt;— Fecha a porta, fecha a porta... Vai... Vai...&lt;br /&gt;— Espera aí, “motô”. Ainda estou com os pés na rua.&lt;br /&gt;E o obeso, coitado, suando frio, nervoso, apalermado e sem saber o que fazer, tentava se livrar do malfadado incômodo, mas sem êxito. A camisa que usava colara no corpo. Dava até para torcer, tamanha a quantidade de suor acumulado nas costas e no peito. Uma senhora caridosa se levantou, solícita, e correu em auxílio do infeliz.&lt;br /&gt;— Me ajudem, me ajudem, pelo amor de Deus. Esse homem vai ter um troço.&lt;br /&gt;Todos os esforços, entretanto, resultaram em vão. O adiposo nem ia nem voltava. Nem rodava, nem desrodava. Um sujeitinho, de brinquinhos nas orelhas, com ar e jeito de quem gostava de sentar rebolando o traseiro numa boneca grossa, dando uma de esperto e aproveitando a confusão, resolveu pular por cima do homenzarrão, sem pagar. O trocador o segurou pelo colarinho.&lt;br /&gt;— Espertinho, alto lá! Comigo aqui você não anda de graça. Vai tirando o “cacau” senão o bicho pega.&lt;br /&gt;E nada do brutamontes arredar pé. Meia dúzia de voluntários, vendo a agonia sem par do desafortunado, se reuniram, pesarosos, a sessentona, engrossando o cordão de auxílio solidário. Até o motorista, condoído da cena patética e hilariantemente trágica, acorreu para prestar ajuda. Mas qual o quê! O gordo, nessas alturas, fora de si, completamente descontrolado, chorava como criança.&lt;br /&gt;— Me ajudem, pelo amor de Deus.&lt;br /&gt;Infelizmente, todos os esforços restaram impotentes e em vão.&lt;br /&gt;— Precisamos baldear os “bonecos” para outro carro.&lt;br /&gt;— Vou chegar atrasado ao emprego. E hoje é o meu primeiro dia — disse um.&lt;br /&gt;— Era só o que me faltava para começar bem a semana — completou outro.&lt;br /&gt;— Não temos culpa desse elefante aí surgir dos quintos!&lt;br /&gt;— Elefante é a senhora sua mãe. Deixa eu sair daqui que o prezado vai sentir o peso da tromba.&lt;br /&gt;Lá fora, uma viatura da Polícia que circulava parou para averiguar o que ocorria. Alguém pediu aos policiais que subissem para auxiliar no desengasgo inexplicável do gordo. Todavia, a coisa complicou sobremaneira. Os soldados não obtiveram sucesso. Pelo rádio, um dos fardados solicitou auxílio ao Corpo de Bombeiros. Meia hora após o tal comunicado, uma viatura de resgate pintou no pedaço fazendo um estardalhaço dos diabos.&lt;br /&gt;Ao redor do coletivo, uma corrente enorme de curiosos se formou, compacta, levada pelo fascínio da desgraça do homem da barriga de baleia.&lt;br /&gt;— Passa vaselina nele que ajuda a escorregar!&lt;br /&gt;— E na sua “bunnada” não vai “dinha”?&lt;br /&gt;Finalmente, o paquiderme se desvencilhou. Os heróis do cinturão vermelho, no entanto, tiveram que usar maçarico para libertar o gorila dos braços frios da roleta que, completamente em pedaços, foi levada para a garagem da empresa, com a bandeira do ônibus virada em “Especial”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro testículo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascoalino foi de tudo nesta vida de meu Deus: lanterneiro, vidraceiro, encanador, coveiro, sapateiro, amansador de burro brabo e, no tempo do quartel, corneteiro de tropa. Sem falar no período das vacas magras, quando amargava os dias como camelô, vendendo copinhos de água, calcinhas de nylon e perfumes baratos nas calçadas da Central do Brasil, garantindo o café com pão dos três filhos do primeiro casamento e, ainda, o leite em pó da recém-nascida, raspa de tacho arranjada com a Matilde “Boca-de-onça”. Só não roubou, nem matou. Isso nunca! Aliás, era tão inofensivo que, se uma mosca dessas bem chatas ousasse tirá-lo do sério, nem sequer levantaria a mão para enxotá-la.&lt;br /&gt;Homem humilde e pacato, vivia tranqüilo e alegre. A vizinhança inteira o adorava, principalmente os moleques que se deslocavam de bairros distantes para uma peladinha no campo da comunidade. Devoto incondicional da Senhora da Penha, aos domingos, chovesse ou não, dava os ares da sua graça na igreja do Padre Gregório com quem, depois da missa, se reunia para disputar uma partidinha de buraco. Na sexta-feira, à noite, meteu na cabeça responder a um anúncio de jornal no centro da cidade. Intencionava um servicinho que garantisse a carteira assinada, vale-transporte e convênio hospitalar. Imbuído desse propósito, no sábado, madrugou, mas deu azar, perdeu a pernada. Chegada a vez de ser atendido (havia uns 20 na frente), a vaga de ajudante de pedreiro acabara de ser preenchida. Restava, pois, o longo caminho de volta.&lt;br /&gt;Então aconteceu o encontro. Defronte o Fórum, em direção ao ponto de ônibus, um rapaz alto e de boa aparência, vestido num elegante terno preto, o interceptou. O mancebo não teria mais que 22 anos. Ao deter os passos de Pascoalino, mostrava uma inquietação descomedida. Na verdade, a angústia do elemento escondia um motivo justo. Ia casar e precisava de voluntários para testemunhar. Arranjara um, mas faltava o derradeiro, que se tornara difícil, quase impossível. Muito prestativo, vendo a situação caótica, Pascoalino se prontificou, de imediato. O que deixava a vida de solteiro prometeu, pelo favor, um suculento lanche no bar da esquina mais próxima, em troca da perda de tempo com a abertura de firma, reconhecimento de papéis e demais incômodos causados. As coisas corriam às mil maravilhas. Entretanto, no momento em que o cidadão do cartório convocou Pascoalino para a colhida das assinaturas, tremenda confusão criou forma.&lt;br /&gt;— Seu Pascoalino Setembrino de Jesus?&lt;br /&gt;— Presente!&lt;br /&gt;— Conhece o seu Nicanor Dal Col Vieira e a senhorita Dionísia dos Ambrolhos?&lt;br /&gt;— Não! O Nicanor Dal... Dal o quê?&lt;br /&gt;— Dal Col Vieira.&lt;br /&gt;— Ah! Eu o conheci perto das barcas, ou, mais precisamente, em frente ao Palácio da Justiça, há 20 vinte minutos. Caminhava em direção à Praça Mauá e o distinto me parou e pediu para assinar uns documentos. A senhorita Dionísia estou vendo agora, pela primeira vez.&lt;br /&gt;Nicanor interveio, o rosto vermelho como sangue. Parecia prestes a explodir.&lt;br /&gt;— Não tem problema, meu amigo. É só para constar nos livros. Praxe. Coisas da burocracia, entende?&lt;br /&gt;— Perfeitamente, mas não posso mentir para o representante da Lei. A verdade, sempre a verdade, a qualquer preço. Afinal, nunca vi o distinto antes de hoje. Nem a moça, senhorita Dionísia.&lt;br /&gt;— Isso não vem ao caso. É só assinar... Só assinar... Depois, o lanche... o lanche.&lt;br /&gt;— Continuando, seu Jesus...&lt;br /&gt;— Pascoalino Setembrino de Jesus. Minha mãe foi quem escolheu o nome. Nasci no dia de nosso Pai Celestial, Jesus Cristo, 25 de dezembro. Se acaso tivesse vindo mulher, mamãe colocaria Maria... Maria de Jesus. De qualquer forma, seria de Jesus.&lt;br /&gt;— Cavalheiro, entenda, para nós, esses fatos não têm a menor relevância. O senhor, juntamente com a dona Walfrida Dá Bérgamo, foram convidados para assinarem  no processo de casamento civil... Ou melhor, nos proclamas de Nicanor Dal Col Vieira  e Dionísia dos Abrolhos.&lt;br /&gt;— Ambrolhos, Ambrolhos, com eme.&lt;br /&gt;O serventuário, de cara feia e louco para atender aos demais que aguardavam numa espécie de saguão, e ir embora para casa -, pois um dia antes havia operado da próstata -, na Santa Casa, e, em vista disso, suas partes baixas o estavam incomodando dentro das roupas quentes, dava a impressão de querer fuzilar qualquer um que se colocasse ao alcance das suas mãos.&lt;br /&gt;— Ratificando, Ambrolhos. Dionísia dos Ambrolhos. Certo? Pois bem, como dizia antes de ser interrompido, o amigo será o meu terceiro testículo, mil desculpas... A segunda...&lt;br /&gt;Foi a gota que faltava para transbordar o copo. Pascoalino desnorteou, perdeu as estribeiras.&lt;br /&gt;— Espere aí! Posso até assinar a papelada para o seu Nicanor Dal... Dal... Para o seu Nicanor se arranjar com a namorada, noiva, ou sei lá que espécie de apito esses dois  vão assoprar depois que saírem daqui. Mas ser, ou me passar, pelo que o senhor falou, nem que a vaca pegue resfriado nos pés, digo, nas patas e  passe a noite tossindo. Pode recolher o  velho cavalinho da chuva.&lt;br /&gt;Sem ligar para o pedido de desculpas do auxiliar que gritava, possesso, agitando os papéis, deu meia volta apressado, em direção à porta. O apavorado Nicanor, suando por todos os poros, pulou na frente, tremendo feito vara verde.&lt;br /&gt;— Pelo amor de Deus. Careço da sua ajuda. Até imploro se for preciso, mas não me deixe a ver navios.&lt;br /&gt;— Para ser testículo? Esqueça! Continuo inflexível na minha determinação.&lt;br /&gt;— Não é testículo, é testemunha. O rapaz errou, mas está lhe pedindo que esqueça o incidente. Olhe só a cara do coitado.&lt;br /&gt;— Não quero saber. Ele falou testículo, testículo, testíííííííííííííííículo, com todas as letras. E, pelo que me consta, esse troço é o...&lt;br /&gt;— É o?&lt;br /&gt;— Saco. Aquelas glândulas gônadas em formato de ovóides que ficam situadas no... no... o senhor sabe, no... no... no... pênis.&lt;br /&gt;— Aquilo é o escroto.&lt;br /&gt;-    Esgoto?&lt;br /&gt;-    Escroto, escroto.&lt;br /&gt;— Que diferença faz? Não quero ser testículo nem coisa que o valha.&lt;br /&gt;Dona Walfrida Dá Bérgamo, a outra que assinaria nos proclamas, tentou intervir consertando as coisas:&lt;br /&gt;-    Desculpe estar me intrometendo. O moço do cartório realmente falou em testículo. Testículo e testemunha se resumem na mesma coisa. Pode acreditar. Olhe aqui.&lt;br /&gt;No que falava puxou de dentro da bolsa uma carteirinha e a exibiu a Pascoalino:&lt;br /&gt;-    Está vendo, seu Marcolino?&lt;br /&gt;-    Pascoalino, dona, Pascoalino.&lt;br /&gt; - Tudo bem, não precisa ficar nervoso. Veja só, seu Pascoalino. Sou professora de português. Catedrática, inclusive. Asseguro ao senhor que testículo é o mesmo que testemunha. Não mentiria para  sua pessoa. Ademais, não ganharia nada com isso.&lt;br /&gt;Nesse clima de tensão e nervos a flor da pele, se achega ao bate-boca a Dionísia, tão ou mais furiosa que o companheiro.&lt;br /&gt;— Nicanor, meu querido, arranja outro. Pelo visto, este senhor - mesmo com a explicação desta boa e amável senhora - continua  um... um...  um  saco, um tremendo de um saco.&lt;br /&gt;        — Está vendo? Sentiu o lance? Até sua futura cara-metade acha que tenho aparência de bola de pinto. Trocado em miúdos: me assemelho aos bagos. E eu só queria ajudar. Cooperar é uma coisa, mas me passar por colhões, o negócio descamba e então passa a não dar pé. Ademais, sou espada. Ou melhor, facão.&lt;br /&gt;Sem dar trela à professora, a Nicanor, a noiva dele e aos demais que lotavam a enorme recepção, alguns até rindo a mais não poder, Pascoalino pediu licença e deixou correndo o interior do prédio onde trabalhava o  pessoal do tabelião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é isso, companheiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos até ser considerado por alguns, como antipatriotas de mão cheia, exatamente pelo fato de professarmos, abertamente, a convicção de que o senhor Juiz Inácio não fará um bom governo. Na verdade, não damos a mínima importância, pois sabemos que, daqui a algum tempo, todos que agora motejam de nossas assertivas estarão como um bando de velhos envergados e descontentes diante das evidências. Nessa hora, assistiremos, de camarote, a grande massa meter a cara no travesseiro e enxugar os olhos no quentinho da estupidez. Professamos tudo isso em vista do quadro desolador que assistimos todos os dias pelos noticiários das tevês. Notem que, antes mesmo de tomar posse, Bula (para entender esse homem será preciso tirá-lo da caixinha e ler atentamente as instruções) já deu mostras de que sua passagem por Brasília caminhará de ruim para péssimo. Daí, para escorregar para o enorme buraco negro, logo à frente, será como a gotinha fatal que transbordará o copo.&lt;br /&gt;Vamos começar por suas viagens. Em Pernambuco - será que alguém lembra? -, durante um discurso populista em Guaranhuns, depois de muito choro (acreditem, não vai haver lenço que vença as lágrimas da torneira — perdão! — do torneiro mecânico), ele gritou para uma multidão de idiotas e embasbacados que Ferrando Ohenrique Carrancoso viajou muito, mas que ele só viajaria pelo Brashil. Antes de assumir o conforto dos Palácios da Capital Federal, a bordo do jatinho executivo Legacy, Bula já tinha passeado pela Argentina, Chile, Estados Unidos, Itália, Guatemala e México (só não foi em Toronto, porque por lá, cana dá). Quem sabe, dia desses, não parta em uma segunda lua-de-melda para as Ilhas Virgens, antes que elas sejam defloradas pelos soldados de Bucho ou pelos  fiscais da Secretaria da Fazenda do Rio de Janeiro e de lá não sobre um tempinho e acabe fazendo um “tour” esticado pela misteriosa Al-Sayoud, uma das oito residências do ex ditador Saddam Bucheim às margens do Rio Tigre e, entre as fileiras de palmeiras e outras plantinhas rasteiras, ou ao lado das portas de madeira ricamente entalhadas e ornadas a ouro, com as iniciais SH, (que significa Sou Homem) não pouse para umas fotos ao lado da Torneira Derrama.&lt;br /&gt;Com certeza, os salões iluminados por candelabros gigantes de ouro e cristal vão chamar mais a atenção dos otários e puxa-sacos, que puderem ver as fotos depois de reveladas, se, ao contrário, o senhor Juiz Inácio, na humildade que tenta demonstrar, se deixasse clicar em Porto das Galinhas, numa das muitas piscinas naturais lá existentes. Já que falamos em  galinha, e galinha lembra um punhado de milho, quase esquecíamos de um detalhe importante: Mula gosta muito desse tipo de ave. Desde os tempos de São Bernardo fazia questão de deixar evidente sua preferência por frangas, daí ter escolhido, para um de seus ministros, o Precocci, que mais parece (observem com carinho) uma galinácea de macumba fugida do terreiro depois de uma exaustiva seção espírita, sem querermos mencionar, mas já mencionando, a Vilma Roussouff das Meninas sem Emergias e a Carina Pilva, do Seio Indecente.  &lt;br /&gt;Continuando com o rosário de demagogias, em Carretés, sua terra letal (onde chorou mais um bocadinho e também ninguém mais se recorda), prometeu criar um conselho para discutir a questão da água para a seca do Nordeste,  como igualmente um conselho para a política previdenciária, outro para o combate à violência e outro para o pato (pacto?) social. Na verdade, vão ser tantos os conselhos que os conselheiros, coitados, precisarão formar um conselho interno bruto particular, registrar em Cartório, criar uma sigla - talvez CONINBRUPARTE ou CONIBRUPAR - para se aconselharem entre si. E o mais importante: terão que ter ouvidos e paciência de dois Jós, ou seja, Jojó (soa melhor e fica mais bonito Jójós) para assimilarem tantos ti, ti, tis e blá, blá, blás.&lt;br /&gt;Em fluxo paralelo, observem um detalhe importantíssimo: não é admissível que um chefe de Estado se subjugue a outra nação (como é o caso do Brashil diante dos Estados Unidos) e queira ficar por baixo dela, admitindo que o seu País deixa claro que reconhece a “supremacia americana”, mas, em contrapartida, quer ser respeitado como “líder regimal”. Bula fez isso. Abriu as pernas para Bucho. Cabe aqui um pequeno parêntese. Se Bucho tem a sua superioridade, nós também temos, e, por dispormos dessa hegemonia, não podemos, de forma alguma, ser relegados à condição de líder regimal. Vão acabar, no final das contas, nos roubando a batata — que batata? —, a batuta. Isso mesmo, a batuta! O que é batuta? É aquele bastão delgado, de uns 50 centímetros de comprimento com que os maestros regem as orquestras. E, quando falamos em orquestras, nos referimos às do conservadorismo econômico, a da pouca vergonha, a dos sacripantas, dos velhacos, dos biltres, dos bandalhos, dos salafrários e do nepotismo. Sem mencionarmos a do FMI. Puta que pariu! Nem nos músicos se pode confiar, hoje em dia!&lt;br /&gt;Das duas, uma: ou o senhor George Bucho nos engole ou vai de mala e cuia para o meio do inferno, com todo o seu falso poderio. Se, realmente, tivesse a força que diz possuir, não teriam desarrumado a sua casa bem embaixo de seu nariz, como vimos pela televisão, no espetacular (para eles fatídico) 11 de Setembro. Bem feito! Foi pouco. Osama deveria, ao invés do Pentágono, ter mandado, pelos ares, a Casa Branca, com o Bucho dentro, de preferência, quando  estivesse sentado, na bacia da privada. Podem ter certeza: ia ser engraçado, repórteres de todo o planeta, mostrando, ao vivo e em cores, pela televisão, o senhor Bucho, em pedacinhos, misturado ao que restou do seu vaso sanitário privativo.&lt;br /&gt; A nosso ver, Laden gastou munição à toa (perdeu um Boeing prontinho), quando deveria ter aproveitado a ocasião e, além de mandar o Bucho para os quintos, partir, ao meio, o prédio das Nações Unidas, ou o Empire State Building. Infelizmente, isso, agora, não vem ao caso. Fechemos, pois o parêntese aberto. Pois bem: vamos voltar ao Bula. Admitir, pois (como impensadamente ele fez no encontro com Bucho), que os Estados Unidos são melhores que nós é o mesmo que estar na pele da ovelhinha ingênua, que vai, cabisbaixa, confessar suas mágoas com o lobo, ou como o rato, que estanca, de repente, no meio do caminho a fim de cumprimentar o gato. Tal atitude até seria admissível, se Bula fosse um homem de visão pequena e tacanha, mas, como é formado em sociologia – mil desculpas  pela nossa gafe -, como é formado em tornerologia mecânica, com mestrado no sul da  França e em Camamú, na Bahia, é certo que jamais se sentiria feliz sendo comparado a um desses camundongos que vivem com seus focinhos metidos em esgotos de rua. &lt;br /&gt;O mais estranho e esquisito nessa história toda é que Juiz Inácio sempre se posicionou como um visionário esquerdista do mundo e, dentro desse princípio, notadamente quando a conversa girava em torno dos Estados Unidos, Bula se referia a eles como “um centro opressor neoliberal e a sede da globalização selvagem que destruiu a economia dos países periféricos”. Perguntaríamos, então: por que essa mudança repentina atrelada à vontade inconseqüente de se rebaixar diante do grande tirano? Por que essa alteração de conduta, essa variante esquizofrênica no comportamento? &lt;br /&gt;É possível que, antes de abraçar o poder, o senhor Juiz Inácio jogasse do lado dos demagogos e dos hipócritas só para fazer merchandising em torno de seu nome e, no fundo, tivesse realmente vontade de fazer alguma coisa de útil em prol do seu povo sofrido, mesmo que fosse mandar todo mundo tomar no olho do cu. Contudo, agora que detém as rédeas de Chefe Supremo,  (ficaria mais legal chifre supremo) é bem provável que o vírus que emana dessa incumbência lhe tenha, incontinente, afetado as faculdades mentais e ele, hoje, realmente, jogue e faça não só demagogia e merchandising com seu nome, mas também queira que o Brashil entre num labirinto esquizofrênico e vá  direto para o buraco. Pelo sim, pelo não, uma coisa é tida como certa: ele está pouco se lixando com a sociedade dos milhares e milhões de assalariados, aposentados, descamisados, desbonesados e cachaceiros,  que, acreditando nas suas palavras bonitas, tiveram a coragem de lhe dar um voto de confiança. Por conta disso, e para não tornar o texto mais comprido e enfadonho, não vamos e não queremos mencionar qual será a primeira medida que  tomará quando tiver no peito a faixa de presidente. Obviamente, vão acabar nos apelidando de chatos de galochas!&lt;br /&gt;Mas, esperem! Ouvimos  gritos. A galera delira. Todos querem que falemos. De verdade? Não nos tornaremos insolentes ou seremos tachados “a depois”, de carne de pescoço? Nem considerados uma pedrinha inconveniente no sapatinho do pobre homem? Pois então, lá vai: Bula (que as más línguas andam apelidando de Gula e Sula, este último por ele se parecer um pouco com a rainha dos caminhoneiros) tornará o Come Zero uma realidade, ou seja, só ele comerá, do bom e do melhor enquanto os outros ficarão de pratos vazios, como pedintes de sacos vazios, com direito de desfrutarem, no tapa, e na raça, os espaços dos semáforos e as portas das catedrais. O poderoso de São Bernardo, sempre com a sua falsa descontração acabará em tempo recorde com a maior epidemia que assola o mundo, custe o que custar, mesmo que, para isso, precise papar, pelas beiradinhas, nossos bolsos, como as criancinhas engolem mingau de maizena quente. Uma das saídas estratégicas é aumentar ao máximo  a carga tributária. Quanto mais imposto nos costados da plebe, melhor. A idéia central de Ula é que o povo perca (não só o dedo, como ele) mas o pescoço e a cabeça, porque cérebro e pensamento rápido, poucos têm. A segunda medida,  será extirpar, da face da terra, a miséria em toda sua dimensão, não, a miséria como a vemos diariamente, se reproduzindo como as bactérias, mas os desgraçados e filhos de uma boa mãe, que não vemos, principalmente aqueles que, às escondidas e por detrás das coxias, votaram nos candidatos concorrentes e por pouco não fizeram o seu sonho de brincar de presidente ir pras cucuias e parar, por exemplo, nas mãos de Circo Somes ou Garrotinho.  Nessa salada podre que será servida, em breve, a toda essa cambada de  medíocres que compõe a maior parte da massa  falida brasileira, uma coisa é certa e não deve, de forma alguma, ser descartada, nem deixada de lado. Estamos todos carecas de saber: erradicar, de vez, com a tal da come, seja a come-por-aqui ou a come-por-ali, ou com o infortúnio da miséria, é o mesmo que pôr um fim definitivo na corrupção, na bandidagem, no crime organizado, na crise galopante e sem precedentes, no atraso histórico, na desconstrução da democracia e da república, bem ainda  no sistema ananicado e claro,  no Rambo, que anda (triturando) a Previdência por debaixo dos panos. Daí o rombo, renascendo, a cada dia, como doença maligna e sem cura aparente. Temos plena consciência que nem o Salvador, com toda sua glória e poder, (ainda que assumisse o posto de assessor, no lugar de Waldomiro Diniz) levaria, a cabo, tal façanha.&lt;br /&gt;Pelo exposto, e para terminarmos a conversa, sabem quando o senhor Juiz Inácio Pula da Silva conseguirá a proeza de acabar com as mazelas de nossa terra e colocar o país nos trilhos?  No instante em que a Igreja Universal do Reino de Deus retirar o dinheiro que mantém depositado em contas milionárias nos paraísos fiscais e doá-los aos pobres, ou por derradeiro, quando o tal planeta intruso que está vindo lá do espaço (não se sabe a quantos mil quilômetros por hora) se chocar frontalmente com a Terra. Aí, meus amigos, Cula terá, realmente, vencido a maior de todas as epidemias que assolam a humanidade. Todavia, enquanto continuar viajando pelo mundo afora, a fazer discursos que nunca escreveu, a ostentar um carisma escroto e mal parido e em linha paralela, os nossos engravatados e intocáveis  representantes não pararem de meter as mãos na grana dos cofres públicos, só nos resta esperar por um milagre.&lt;br /&gt;Até lá, vamos dar gargalhadas. Rir da nossa própria estupidez, como o inocente pasmado e boquiaberto diante do fato de saber que um espertinho deu um baita laço de marinheiro no nó górdio. Rir, claro, rir até o racho do nosso traseiro fazer um  calo enorme e  se rasgar em peidos vazios e sem expressão de cheiro, porque faltou o feijão com arroz para complementar e endurecer a bosta que dele sai. (Hi! Hi! Hi!...). Não é hilário? Que é isso, companheiro? Deixa a gente gozar da própria desgraça, da infelicidade de todas as famílias, inclusive da sua (Hi! Hi! Hi!...).  Nos deixe, de igual modo, escangalhar com os nervos dos maxilares antes que o Brashil afunde dentro dessa derrota tão amplamente difundida e anunciada. Não devemos jamais esquecer que a nação inteira é um grande e gigantesco navio, como o Titanic,  navegando em mar aberto, às portas de bater, de frente, com um iceberg do tamanho da dívida  externa  iceberg esse disfarçado ora de deputado santinho e senador de asinha, ora de ministro com bulsite,  na próstata e  bispo  achacador da miséria brasileira.   &lt;br /&gt;Falta tão pouco. (Hi! Hi! Hi!...) Falta tão pouco, tão pouco, como a vinda do Senhor Jesus para arrebatar suas ovelhas.  Parem, pois, meus amigos,   um instante. Um segundo apenas. Parem e raciocinem friamente. Rir. Rir, sempre, rir sem parar.  Por que não?  Melhor e menos incômodo que bater uma punheta espiando com os olhos esbugalhados, feito um lheguelhé, para meia dúzia de fotos produzidas da Daniela Cicarelli pelada, na Playboy, rostinho de menina desprotegida, pensando em quem fisgar na  semana que vem para dar o próximo golpe do casamento e aumentar os ganhos mensais de sua poupança. Rir, meus prezados,  ainda é melhor que pensar que o Bula poderá não se reeleger para segundo mandato, já que a raia miúda, o proletariado, de um modo geral, não passa de um bando de bêbados escorados em garrafas, como  essas moscas varejeiras, de padaria.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do veludo às pocilgas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando derrubaram o complexo do World Trade Center, em Nova York, caricaturaram Osama Bin Laden mantendo relações esdrúxulas com George Walker Bush. Nessa charge, o ex-governador do Texas, aguilhoado e suando em bicas, levava a pior e gritava, preso, de quatro, nas garras do cidadão mais procurado pelos cachorrinhos recém-saídos do Pentágono. Esse cartum foi divulgado em todos os jornais do planeta, inclusive pela Internet, a maior rede de computadores do mundo. Vamos conceber a mesma cena tendo como pano de fundo o Brasil.&lt;br /&gt;Osama acaba de apear de um vistoso Cavallo manga-larga marchador que atende pelo nome de Domingo. O animal é um legítimo puro sangue oriundo de uma fazenda do interior de São Paulo. Foi dado de presente a um dos filhos do terrorista pela atual primeira dama da Argentina, esposa do regente tampão Eduardo Duhaldo, junto com um outro potro da mesma linhagem que ficou aos cuidados do líder espiritual supremo do Talibã, mulá Monhamed Omar, dias antes do 11 de setembro.&lt;br /&gt;Osama cavalgou muitas horas por Brasília, ladeado por fortíssimo esquema de segurança: batedores do Exército, agentes da Polícia Federal, membros da Polícia Militar, funcionários da Polícia Civil, guardinhas de trânsito, inclusive os intocáveis Dragões da Independência. O “Profeta do Terror”, sempre ao lado de seu rifle Kalashnikov, acenou para os velhinhos, mandou beijinhos para as patricinhas, distribuiu chocolates, pegou criancinhas no colo e até fumou o cachimbo da paz com o estuprador da estudante Silvia Letícia, Paulinho Paiakan.&lt;br /&gt;Conheceu a Torre de Televisão, a Fonte Luminosa, a Esplanada dos Ministérios, o Palácio do Itamarati, o Palácio do Planalto e o Palácio da Alvorada. Saiu deslumbrado com o tamanho da Estação Rodoviária, representada por um imenso avião pousado. Imaginou, inclusive, que um piloto seu, da rede Al Qaeda, de posse do cock pit, voando num Boeing com aquelas dimensões poderia varrer de uma só vez os Estados Unidos e deixar Bush a ver a sua Big Apple afundar como o Titanic, agarrado num dos pedaços mutilados da Estátua da Liberdade.&lt;br /&gt;Igualmente se encantou com a Catedral, mais ainda, com os espigões do Congresso Nacional, que muito vagamente lhe trouxeram à lembrança as duas Twin Towers de Manhattan. Osama se encontra em solo brasileiro porque indicaram seu nome numa das seções da Câmara Federal para receber uma placa. Com 40 e poucos anos, diploma universitário e conhecimentos de informática, Osama será condecorado, pela primeira vez, por ato de bravura, como o maior estrategista de guerra literalmente vivo.&lt;br /&gt;O parlamentar, autor da façanha — na verdade um bajulador de carteirinha de Bin —, em sua moção, alegou que “Virgulino, o nosso Lampião, perto desse milionário excêntrico, de barba, turbante e jaqueta camuflada passou à terceira categoria e deverá ser lembrado, ou melhor, rebaixado para a posição de mero aspirante a herói, degrau que jamais conquistou.” &lt;br /&gt;“Perdeu terreno e perdeu feio” — continua o deputado federal em uma nota enviada à imprensa — “quando se deixou capturar juntamente com a Maria Bonita e seu bando de cangaceiros, ao contrário de Bin, que deu uma rasteira cinematográfica em toda a frota armada dos americanos posta em seus calcanhares”. O inimigo número um de Bush está feliz, aliás, felicíssimo. Sem dúvida alguma caiu no carinho e na admiração dos pósteros.&lt;br /&gt;Com uma tosse fraca e intermitente, anunciou solenemente a Fernando Henrique, em nome de Alá e de Nossa Senhora Aparecida, que não estão em seus planos transformar a cidade de Juscelino Kubitscheck num amontoado de entulho, até porque se considera muito satisfeito com o povo desse imenso paraíso e sua hospitalidade, que classificou de “ímpar e de primeiro mundo”.&lt;br /&gt;Fernando Henrique, em festivo alarde, e diante da enormidade desse acontecimento, necessita aparecer bem bonitinho na televisão. Deverá, por conta disso, almoçar e tomar chá com o islamita, tirar fotografias nas cercanias da Procuradoria Geral da Justiça, trocar tapinhas nos ombros, com aliados e puxa-sacos e prometer solenemente ajudar os desgraçados e desvalidos do Nordeste.&lt;br /&gt;Correm boatos de que Fernando Henrique convidará Bin Laden para se mudar de mala e cuia para o lado de cá com suas quatro esposas e os 15 filhos. Até agora são meros rumores, nada de concreto. Contudo, pelo andar da carruagem, e como dizem os antigos, “onde há fumaça há fogo”, é provável (mas não impossível) que, futuramente, Laden até se candidate à Presidência da República.&lt;br /&gt;Vamos imaginar, todavia, Osama disputando, hoje, com os candidatos que aí estão, a corrida a esse cargo tão importante. Com certeza, a essas alturas do campeonato, a Roseana Sarney (se não tivesse saído do páreo) teria explodido junto com o marido nos escritórios da Lunnus-Agrima. Quanto ao Luiz Inácio Lula da Silva, com toda a cúpula do PT, estariam esquentando os ossos num imenso caldeirão de lulas nas profundezas do inferno.&lt;br /&gt;José Serra não ficaria de fora e, de igual sorte, detonaria, em alto mar, de braços dados com a Rita Camata e o mosquitinho da dengue dentro de um desses jatinhos executivos fretados pela alta cúpula de seu partido. Ciro Gomes, sem a Patrícia — e mesmo com a ajuda do seu guru particular Roberto Mangabeira Unger — veria cair por terra seu Pilar de sustentação, sufocando seus sonhos aos frontispícios de regente maior.&lt;br /&gt;Itamar, que também disse adeus à cadeira de assento vermelho, perderia o topete, os sapatos, as meias, o Fusquinha e os pães de queijo. Anthony Garotinho, mandaria para o espaço o pirulito de morango, os brinquedos, as calças curtas, a Bíblia e os irmãos da Igreja, além, é claro, da Editora e Gráfica em sociedade com a Rosinha Matheus e Jonas Lopes, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;Enfim, Osama ascenderia ao poder sem precisar que um Ziraldo da vida repetisse a sátira picante de Bush, a não ser pela mudança brusca e inesperada do personagem. Ou seja: Bin estaria “ferrando” a todos nós (no sentido látego da palavra) e, ao invés de cair matando em cima de um desses poderosos que infestam a capital do Brasil, ou mesmo de  FHC, a nossa bundinha e o traseiro de todos os brasileiros estariam na rota e na reta de seus próximos alvos. Em contrapartida, o bilionário não dinamitaria a Casa da Dinda, nem a Rede Globo do Roberto Marinho, muito menos mandaria pelos ares o Cristo Redentor.&lt;br /&gt;Usaria sandálias havaianas em suas peregrinações, enviaria uma carta ao Papa João Paulo II pedindo a canonização de Elvis Presley e, de roldão, de Anchieta e Padim Ciço. Faria de Sílvio Santos o seu braço esquerdo; de Nicolau dos Santos Neto (o Lalau), o direito; e de Antônio Carlos Magalhães, um terceiro, só para vigiar o que os outros dois estariam tramando. Proibiria novelas, filmes pornôs, futebol, camelôs espalhados pelas calçadas, flanelinhas nos estacionamentos, menores nas sinaleiras e arquivaria as CPIs, que, aliás, nunca deram em nada.&lt;br /&gt;Os ministérios do Exército, da Previdência Social, da Saúde e da Reforma Agrária, dentre outros, seriam comandados por homens-bombas. Criaria uma Medida Provisória para banir com as pipas perto dos aeroportos e seria adotada a lei do olho por olho, ou melhor, do prédio por prédio. As mulheres de zero a 70 anos usariam burcas (pano na cara) e os varões, pakul (chapéu afegão). &lt;br /&gt;Dom Jaime Chamello, atual presidente da CNBB, substituiria a Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo e, ao oposto dela, retiraria do mercado todo os estoques de camisinhas. Preservativos só seriam usados por padres e seminaristas com o intuito de se pôr um ponto final definitivo e conseqüentemente erradicar o pedofilismo praticado com meninos e adolescentes por detrás das sacristias ou, ainda, por debaixo das batinas dos monsenhores e das cuecas sujas de porra dos bispos e cardeais.&lt;br /&gt;Uma vez Osama eleito presidente do Brasil, ainda que à força do seu terrorismo sarcástico, com certeza a Nação mudaria a cara. Teríamos, enfim, um semblante diferenciado dos outros para mostrarmos aos quatro cantos da terra como somos desprovidos do senso prático da estupidez e do ridículo, e ainda, o quanto adoramos “pagar mico” no picadeiro desse circo repleto de sanguessugas e cafajestes. Poderíamos, outrossim, equiparar nossa boa terrinha a um título bastante sugestivo e oportuno de um romance famoso do ilustre baiano Jorge Amado, intitulado “O País do Carnaval”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembranças de tia Cotinha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se a morte é triste, onde quer que ela se abata ai chegará o superlativo da tristeza.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salvador Gentile&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vou eu, andando a cavalo, debaixo de um sol mormacento, montado num burro. Por mais que force a barra e fustigue o lombo do animal, o bicho parece uma tartaruga empacada. Não deslancha o trote, nem por reza braba. O caminho, embora comprido, até que ajuda um pouco os que  por ele carecem cruzar de um extremo ao outro, seja a passeio, seja a serviço. Do vilarejo   onde moro,  até o povoado onde pretendo chegar, vai bem uns 50 quilômetros. O chão, desde Santo Onofre, até Duas Pedras, meu destino final, é de terra batida, com pequenos trechos cobertos por cascalhos e pedregulhos. A paisagem, em derredor, não muda nunca. De um lado e de  outro, fazendas enormes, com árvores de copas frondosas e sombras acolhedoras, convidam ao descanso à beira de pequenas cachoeiras de águas claras e límpidas. Cercas de arame farpado se perdem, abraçadas aos mourões pintados de preto, bem lá longe, onde as vistas não agüentam enxergar. De vez em quando, parado em frente a uma porteira de acesso aos sítios ribeirinhos, um caraminguado, muito respeitoso, tira o chapéu à minha passagem, pede licença e se achega, cabisbaixo, dando os pêsames, pelo falecimento da minha tia. &lt;br /&gt;Aliás, eu faço essa viagem de índio, porque  tia Cotinha, irmã de minha mãe e também minha madrinha, havia sido internada, às carreiras, e levada para a UTI, semanas atrás num hospital com um nome famoso que fica na capital. Por causa de um tal de infarto do miocárdio (pelo menos foi o que o médico da família, o doutor Bezerra, diagnosticou), resolveu, sem mais nem menos, dar por terminada sua autobiografia, não saindo da tal da UTI respirando. Achou melhor encerrar sua carreira e, de lá mesmo, virar defunta fresca, partir desta para melhor. A história, pelo menos nesse sentido, não varia nunca. Por essa razão, depois que uma criatura resolve visitar Papai do Céu, por mais querida que seja entre os familiares, os que ficam, tratam logo de se mexer, não deixam o cadáver esquentar lugar na mesa, entre os vivos, ou queimar muita vela, que é, naturalmente, para economizar os bolsos dos familiares.&lt;br /&gt;Morreu, bateu com as doze, adormeceu no Senhor, se dá logo um jeito de arrumar um paletó de madeira, sete palmos de terra e um cemitério de primeira, com canteiros bem cuidados enfeitando as sepulturas. Essas coisas que os exploradores do povo vivem inventando, a cada dia, visando ganhar uns trocadinhos a mais. No caso da tia, depois de confirmado o óbito,  meteram sua carcaça num vestido alaranjado, do tempo do ronca, acompanhado de uma blusinha simples, de manga comprida (certamente para não sentir frio na jornada a ser enfrentada), ajeitaram os cabelos à Maria Chiquinha — titia adorava Maria Chiquinha —, passaram um batom de cor discreta nos lábios esbranquiçados e a cobriram, da cabeça aos pés, com cravos brancos e vermelhos. Tia Cotinha deve estar bonita e formosa — meu Deus, que horror! Não é possível que eu esteja pensando uma coisa tão sem pé nem cabeça, justo nessa hora amarga — dentro do caixão adquirido às pressas, na Funerária “Descanse em Paz” do seu Altair da farmácia, e que uma Caravan toda enfeitada de cruzinhas e cortinas roxas fora até as cercanias do rancho fazer a entrega do corpo.&lt;br /&gt;Fico imaginando, enquanto tento instigar o quadrúpede a pisar mais ligeiro, a tia acomodada, sem o sorriso permanente no rosto cheio de rugas, em meio a um punhado de pequenas coisas que detestava. Ela odiava, por exemplo, plantas e, se bem recordo, ainda em vida, havia feito um pedido veemente aos quatro filhos: quando morresse, que não colocassem flores de espécie alguma no ataúde. Tinha alergia. Coitada! A essas alturas, lá do andar de cima, estará muito irada, com o nariz coçando. E quando o nariz comicha, ela dana a espirrar feito louca. Não há nada que corte o maldito inconveniente.&lt;br /&gt;Num momento de terno enlevo, me aflora à memória titia sendo velada. Ao redor do esquife, uma dezena de amigos e parentes compenetrados, choram, de lencinhos coloridos nas mãos, enquanto comem pipoca e bebem refrigerantes. Por estas bandas, quando alguém bate a cacholeta, a pipoca  quentinha e o guaraná bem gelado não podem faltar. Faz parte do ritual. Pois bem: os vizinhos mais próximos, nesse exato instante, devem comentar, com profundo pesar, num canto da sala, as ações e os feitos da boa senhora, enquanto outros, ao redor do velho piano, relembram as atitudes de seu coração enorme, aberto, como um porto, a todos os navios e aos infindáveis pedidos de ajuda e conforto dos aflitos que faziam filas enormes na escada do casarão principal.&lt;br /&gt;Na verdade, titia, com sua meiguice,  com seu gesto solidário de querer ajudar todo mundo, reabilitava as almas atribuladas. Colocava nos angustiados e aturdidos, uma dose forte de consolo e esperança. O certo é que os pares que iam ter com ela, voltavam, para seus lares, em paz, tranqüilos, como se nenhum problema os atormentasse. Mas, e agora? Sim, e agora? Diante desse vazio que sua partida deixou, quem continuará no papel de apaziguador ou de bom samaritano, confortando com palavras amigas essas criaturas que procuravam diariamente por tia Cotinha? O primo Luiz? O primo Vando?&lt;br /&gt;Pelo menos, esses dois, apesar dos pesares, não perderam o senso e ainda mantém os pés firmes grudados na realidade. Ao contrário de Cassandra e Olegária. Ambas se constituem em um belo par de éguas quadradas, mal paridas, sem um pingo de juízo e coerência nos miolos. Aliás, na cabeça dessas doidivanas só há espaço para os namorados arranjados na capital, dois filhinhos de papai, que não fazem nada, e dão as caras todos os finais de semana, finais de semana que se estendem, até a quinta-feira. Nesse interregno, as duas sem vergonha, ficam grudadas nos caras, na maior putaria, beijando de língua, numa agarração desenfreada, e, pior, fazendo o que não devem, dentro do paiol de milho, enquanto à noite, escura e coberta de estrelas, corre, solta, no infinito.&lt;br /&gt;Com certeza, tia Cotinha irá fazer falta. Muita gente -, além dos familiares próximos, incluindo os casais que vinham tomar conselhos -, sentirá, na pele, a ausência dessa setentona sacudida, que todo dia acordava as quatro e meia, passava a mão num dos cavalos, engatava a charrete e batia para o vilarejo — quase cinco quilômetros e meio, só de ida — para fazer compras. E, na hora em que a turma acordava, lá pelas nove, o café estava em cima do fogão, assim como os pães, o bolo de fubá, a manteiga caseira, tudo prontinho na mesa de cimento que o falecido tio Corrêa construíra. Até o almoço dos peões, que trabalhavam, dando duro na fazenda, como também a gororoba dos cachorros: bofe com polenta.&lt;br /&gt;Mas, quanto a mim, o que direi no instante em que apear e ficar frente a frente com seu corpo inerte? Santo Deus, não sei se agüentarei encarar a tia, estática, parada, fria, indiferente, presa, dentro de uma caixa de madeira esquisita, tenebrosa, fedendo a odores de além-cova com todos aqueles craveiros esparramados sobre seu peito! Não, tia Cotinha não estará no velório, tampouco, em pé, na porta, para me receber. No momento da minha entrada, deverá andar ocupadíssima, transitando, de um lado para outro, anotando, na sua cadernetinha inseparável, quem foi e quem deixou de ir para lhe dar o último adeus.&lt;br /&gt;Tenho plena convicção de que titia transformará o rosto numa indescritível careta que assustará até o capeta, na derradeira hora em que forem colocar a tampa lacrando definitivamente a urna. Tia Cotinha sofria, desde pequena, de algumas fobias inseparáveis. Uma delas, era o medo de ficar no escuro, sem ninguém para bater um papinho. Por essa razão, não posso deixar de pensar no caixão depois de descido à cova fria do cemitério, sem um bico de luz e a falta de oxigênio envolvendo seu nariz. Nossa! Com certeza, morrerá mil vezes. Vai ser uma merda!&lt;br /&gt;Olho para um ponto distante e avisto a casa enorme da fazenda. Mais alguns quilômetros e termino esta excursão forçada. Chego, mesmo, a escutar, de onde estou, a voz enérgica de titia, ecoando pelos campos e pastos verdejantes. Parece furiosa, ralhando com os meus primos:&lt;br /&gt;— Tire esse treco de cima de mim, Vando. Cruz em credo! Cassandra, que diabos estou fazendo, deitada, estas horas, feito uma pamonha? Cadê a Olegária? Já mandou os rapazes almoçarem? Afinal, por que todos olham para mim como se estivessem diante de um fantasma?&lt;br /&gt;De repente, me assusto com um passarinho que voa, baixinho, em minha direção e, por via de conseqüência, assombra o infeliz do animal, que me prostra, boquiaberto, no meio da poeira. Caio de bunda, em meio um amontoado de merda seca de vaca.&lt;br /&gt;— Cavalo burro. De outra vez, vê se derruba a sua mãe.&lt;br /&gt;Fernanda, minha esposa, aos prantos e aos solavancos, me agride, para que pare de gritar feito um debilóide, no meio da noite.&lt;br /&gt;— Que é isso, homem de Deus? Está sonhando? Ficou louco? Pirou? Que cavalo burro é esse que você tanto xinga desesperadamente? E que idéia é essa de me dar um monte de coices? Quase me joga para fora da cama. Vê se aquieta o facho e me deixa dormir, seu jumento de uma figa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os 12 trabalhos de Hércules&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o mais famoso filho da mortal Alcmena com Zeus, o Senhor do Olimpo, acaso viesse parar na capital do Brasil, a serviço das forças ocultas ou de um partido qualquer de oposição ao Governo, quais seriam suas 12 tarefas? Segundo pesquisas da Data Bolha, publicada não sabemos onde, num dia chuvoso e ensolarado de início de mês, o rapaz teria que se desdobrar para:&lt;br /&gt;I  Estrangular, até a morte, o gatinho faminto de Neméia ou, como ficou alcunhado depois do golpe de 1964,   como o “Leão do Imposto de Renda”;&lt;br /&gt;II Matar um monstro horrendo de muitas cabeças assemelhado com a Hidra de Lerna, na verdade, o José Votoenterra disfarçado de ET, depois de ter perdido a campanha, junto com a Rita Comeagata, para a Presidência;&lt;br /&gt;III Deter os passos de uma jovem e simpática corça com ares de Cerinéia adolescente desatinada, conhecida nos meios políticos como Paciência Social, antes que alguém decida, realmente, reformá-la, lhe dando um banho a rigor num salão de beleza para que siga em frente com o rostinho bonito, tipo a atriz Pamonha Perdeaarte, aumentando, ainda mais, o tal rombo;&lt;br /&gt;IV Tirar de circulação os envolvidos no esquema da propina na Secretaria da Fazenda do Rio de Janeiro e trazer, num tabuleiro coberto com a bandeira da Porcaria Federal, as provas das contas em bancos suíços para mostrar ao público que este País continua sendo território de delinqüentes e de otários da pior espécie;&lt;br /&gt;V Roubar a churrasqueira da residência oficial do vice, José de Alemmar (Bula descobriu que, ao oposto do Palácio da Alvorada, Alemmar desfruta de confortos extras, ou seja, dispõe de um bom lugar para assar umas pelancas de carneiro), e, depois de encher bem a pança, bater tranqüilamente uma peladinha com os amigos no campo de futebol existente dentro das cercanias do seu pequeno paraíso;&lt;br /&gt;VI Extirpar o grupo de aves antropófagas permanentes de combate ao narcotráfico que Mogno Mata, saído dos pântanos da Estinfália, insiste em manter vivo, circulando por Brasília, não necessariamente para acabar de vez com o esquema das sogras, mas porque será mais um grupo de desocupados e de elite a mamar nas tetas da Federação com carteirinha da Secretaria Nacional Anti-sogras;&lt;br /&gt;VII Capturar vivo o touro de Creta, que lança chamas pelas narinas; Hércules certamente teria dúvidas em distinguir se esse bicho seria o bigodudo do José Semlei, pai de “Saraminha”, ou do montador de escutas telefônicas clandestinas, o cacique baiano Toinho Tapioca Magalhães;&lt;br /&gt;VIII Decepar a cabeça das éguas antropófagas de Diomedes, ou seja, arrancar, a unha, a goela dos radicais livres que desafiam o PT e atormentam o tranqüilo sono de Juiz Inácio, bem como a TPM de sua querida esposa;&lt;br /&gt;IX Apresentar para a primeira dama, dona Marrisa Lenotícia da Silva, a máscara de Berger, secretário-executivo da Casa Viril (que também é dentista). Esse sujeito, cujo patronímico é meio estranho, atende, quando o chamam, por Swedenberger Barrosa e, ultimamente, anda desfilando com um simulacro cirúrgico na cara pelos corredores do Palácio do Planalto, onde, por incrível que pareça, chegou a assustar duas secretárias novatas de gabinete, que o confundiram com a bichinha americana e bolinadora de criancinhas inocentes conhecida nos meios artísticos como Michael Jackson;&lt;br /&gt;X Trazer sob cerrado cabresto o imenso rebanho de bois e vacas (nomes carinhosos pelos quais são conhecidos os membros da classe média e operária nos meios palacianos), de modo a evitar que algumas camadas desse proletariado (ou dessa população ralé) levantem os braços ou dêem o grito de guerra contra o sistema pouco ortodoxo do atual presidente ou a ele venham promover focos de sublevação ou anarquismo, principalmente quando a equipe gastonômica anunciar o aumento estapafúrdio e disparatado do novo salário míiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinimo e, por via de conseqüência, da cesta básica e do gás de cozinha, bem como das taxas de telefone, água, luz e outros serviços essenciais;&lt;br /&gt;XI Recuperar as três maçãs de ouro do Jardim das Hespérides — trocado em miúdos: manter, a pleno vapor, a trindade principal de impostos criados pelos regentes anteriores para arrancar, à força, na pressão moral e no tapa, o dinheiro mirradinho do bolso dos contribuintes sem ter que jogar, “a posteriori”, a culpa no ministro Precocci, da Faizemenda, ou do presidente do Banco Centauro, Henrique Milrrelles, alegando que, em suas viagens oficiais, o cidadão reserva, no avião, quatro lugares para posudos seguranças particulares; e,&lt;br /&gt;XII Apoderar-se do cão Cérbero, guardião das portas do Senado Fedemal e do Congresso Batimal. Dizem as más línguas que esse trocinho tem quatro cabeças, 14 pares de olhos, cauda empinada que lembra muito ligeiramente Ferrando Callor de Melho e o pescoço de ganso parecido com o de Fernandinho Beira Riacho.&lt;br /&gt;Diante disso tudo, se Hércules conseguir realizar todas essas façanhas, com certeza não será citado em estorinhas “a depois”, como um simples fortão musculoso saído sem mais nem menos das páginas da mitologia (porque, ainda, quando era um bebezinho, matou duas serpentes e as fritou para saborear como tira-gosto junto com a mamadeira). Ao contrário, será lembrado igualmente como o vereador José Trilho, da Câmara Municipal de Quixeramobim, Município do Estado do Ceará, que encaminhou um projeto de lei de sua autoria para ser violentado — perdão — votado, no qual obrigava os donos de jumentos a pintarem o traseiro de seus animais com tinta fosforescente. Por isto, entrou para o livro dos recordes. Claro, nosso Hércules também terá seu nome gravado no Guiness Book a ferro em brasa, sem precisar passar tinta ou outro material chamativo na bundinha seca, nada parecida com a do “Deus Brasileiro”, o Antônio Fazgrundes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, por mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Socorro! Procuro, com certa urgência, mulheres de 20 (no máximo 25) que aceitem levar para casa um cara com 49 anos, alguns fios brancos caídos sobre a testa, artrite nos dedões dos pés e herpes na polpa esquerda da bunda. Bom de cama. Aliás, ótimo de cama! Interessadas em conferir, descobrirão que, ao me deitar, só acordo dia seguinte. Mesmo assim se o relógio despertar repetidamente no pé do ouvido.&lt;br /&gt;Ronco desesperadamente, como se fosse um carro de corrida envenenado e com o escapamento aberto fazendo zoeira no meio da rua. Não seria melhor esclarecer, logo de cara, que sofro de apnéia, ou seja, uma praga que atualmente aterroriza cerca de 15 milhões de brasileiros? Pois vá lá, já vomitei.&lt;br /&gt;Solto puns fedorentos, tendo em vista comer no almoço e na janta muito repolho cru. Embora falte pouco para galgar os degraus dos 50, tenho uma cabeça bastante aberta, com anos de estrada (afinal, acumulo mais de l7.500 dias vividos desde l9 de março de l953). A vasta experiência é o meu melhor cartão de visitas.&lt;br /&gt;Antes que haja confusão, comunico que direcionarei as atenções para um público feminino altamente selecionado. Não sou um chato de galochas, tampouco um burro, a ponto de viver parado no tempo, à espera de um punhado de capim suculento.  Me considero  bastante astuto e calejado em assuntos da atualidade.&lt;br /&gt;Discuto filmes, falo de atores famosos como Tom Cruise, Ralph Fiennes, Denzel Washington, George Clooney, Mel Gibson, Antonio Banderas, Nicole Kidman, Carrie-Anne Moss e Mark Wahclherg. Escrevo crônicas e poesias. Leio de ponta a ponta os jornais que me caem às mãos. Particularmente, acho que as melhores publicações são exatamente aquelas que chegam até  nós por empréstimo ou esquecimento, principalmente porque não precisamos mexer nos bolsos.&lt;br /&gt;Devoro, sem ficar engasgado, Jorge Amado, Paulo Coelho, Érico Veríssimo, José Lins do Rego, Autran Dourado, Zélia Gattai, Rubem Braga, Sharon Naylor e o cubano Pedro Juan Gutierrez. A sua “Trilogia suja de Havana”  me encantou deveras. Tomo café com leite em demasia: 24 horas viajo on line nos bules que encontro disponíveis pelo caminho.&lt;br /&gt;Carrego defeitos e vícios como todo ser humano dotado de duas pernas, orelhas e óculos de grau. Um deles é tirar sujeira do nariz e limpar o dedo nos móveis perto das pessoas metidas a importante. Uso, no dia-a-dia, cuecas e lenços brancos. Nunca visto sapatos apertados. Faço a barba logo que saio da cama, mas jamais penteio os cabelos. &lt;br /&gt;Atiça meu lado nervoso, a graus elevadíssimos, o sentar numa mesa (não importa se refinada ou simplória) e conviver com criaturas promíscuas que fumam, falam gritando, cospem no chão ou despejam palavrões a torto e a direito. Detesto feijoada, beringela, pastéis folheados de Catupiry e milho, bardanas refogadas, creme de papaia com licor de Cassis, presunto, chuchu com ricota, dobradinha, carne de porco (de porca, idem), caviar e frango ensopado.&lt;br /&gt;Em paralelo, como com apurado paladar croquetes à italiana, almôndegas recheadas com queijo e uvas passas, arroz puro cozinhado na hora, batatinhas fritas, carne moída e uns petit-suisse de goiaba ou pêssego. Não dispenso um Bourbon, Whisky com Jim Beam, Wild Turkey ou o chileno de butique conhecido como Stonelake, da Vinã Val Divieso.&lt;br /&gt;Fico irritadíssimo quando botam um rap para tocar acima do normal ou ligam a televisão em atrações vazias nos moldes do Ratinho e Faustão. As pegadinhas do Sérgio Malandro e o quadro “Prova de Fidelidade” do Te Vi na TV, do João Cléber,  me causam asco e repugnância a níveis intoleráveis. Se tivesse poder, colocava esses hipócritas num enorme vaso sanitário, puxava a descarga e ainda limpava os dentes com a cordinha que libera a água.&lt;br /&gt;Questiono freqüentemente sobre as reformas políticas, a Previdência falida, a criminalidade, a segurança, o dólar, o aborto, as cotações das ações nas Bolsas de Valores, novelas, horóscopos e números da loteria. Recentemente, um amigo comum, o Marco Antônio, me presenteou com um pôster gigante da Cindy Crawford nuazinha em pelo, mostrando como veio ao mundo nos mínimos detalhes.&lt;br /&gt;Se fosse escolher, preferiria a Michelly Mechri, a garota Sukita que apareceu numa das edições da Playboy. Como em cavalo dado não se olham os dentes e tampouco se questiona se a ferradura é nova, colei a moça num dos vidros do quarto, de frente para um prédio de apartamentos bastante movimentado. À noite, ao me recolher, sou atropelado por um amontoado de olhares indiscretos com conexões diretas vasculhando cada detalhe superexposto e bem dotado da top model.&lt;br /&gt;Sem falar nos binóculos e lunetas surfando por detrás das ondas das cortinas transparentes. É engraçado descobrir como existem otários e desocupados se prestando a fantasias dessa natureza. Imaginem uma pá de homens tidos como adultos e civilizados se masturbando, de pica dura, fascinados por um pedaço de papel colado numa janela.&lt;br /&gt;Meu irmão Cláudio, muito esperto, costuma enxergar cifras na ponta do nariz. Surgiu com uma idéia que, a princípio, achei ligeiramente cretina. Amadurecendo, depois, vislumbrei indícios fortes que poderiam até desembocar num final lucrativo. Cobrar dos levianos para ver a beldade mais famosa da Revlon.&lt;br /&gt;Estou cogitando a propósito disso e penso, seriamente, afixar um cartaz, logo abaixo da modelo, com o valor estampado em números garrafais em remuneração às espiadelas clandestinas. Tão certo como a morte de Cristo no Calvário, e a soltura de Barrabás -, o ladrão que roubou a calcinha da mulher de Pilatos -, ganharei um bocado de dinheiro, mais que o Sílvio Santos, Bill Gates e Jerry Yang juntos.&lt;br /&gt;Talvez programe um novo tour pela Veneza dos meus sonhos. Claro, não tão ligeiro quando da primeira vez em que lá estive e não aproveitei lhufas alguma. Até o milênio passado,  me considerava um perfeito rei. Meu IFFM, ou Índice de Facilidade para Ficar com Mulheres, gerava mais ibope do que o Domingo Legal, do Gugu. Até porque, nos finais de semana, impreterivelmente, o negócio terminava em shoppings, boates, cervejas com os amigos e garotas, muitas garotas de programa, dessas benesses de agências, até deitar com uma vagabunda — não sei se francesa ou inglesa. (Só sei que toda hora ela sussurrava em meus ouvidos: “Look, let me talking about it”).&lt;br /&gt;Nessa troca vertiginosa de suores e odores fedorentos a caça-pacotes me deixou, de herança, uma gonorréia braba. Quase perco o charme e, por via de conseqüência, o instrumento de diversão vai, de vez, para o beleléu. Por conta dessa ninfeta, passei semanas visitando o farmacêutico e tomando, no lombo, injeções doloridas, um verdadeiro coquetel de antibióticos.&lt;br /&gt;Pronto! Dei a ficha. Acredito, nessas poucas linhas, ter desfiado um pouco da minha personalidade. Suficiente, a meu entender, para, no geral, qualquer uma que resolver entrar na disputa pelo meu coração idealizar a galáxia formada ao meu redor. Costumo enfatizar: tenho uma das mãos na terra e a outra no céu. Na verdade, os pés no chão, a cabeça nas nuvens e os pensamentos na gostosona da Linda Evangelista me chupando com calda de chocolate.&lt;br /&gt;Às vezes, me sinto como Eróstrato, aquele sujeito abestalhado que no século IV aC incendiou o templo de Diana, em Éfeso, considerada uma das sete maravilhas do mundo da época e, como ele, para perpetuar meu nome, tenho desejos de sair gritando pelas ruas feito um imbecil abobalhado. Noutras ocasiões, me fecho no deplorável da imbecilidade humana, à procura de algo bom e mastigável dentro de mim. Meu fígado, talvez, ou a bunda da minha empregada, frita em manteiga bem quente.&lt;br /&gt;O fato é que procuro saborear sempre o romantismo dos tempos de outrora. Tal como se estivesse ligado, por uma espécie de cordão umbilical, às coisas boas do passado, um mundo maravilhoso se descortina ante meus olhos. Por isso, ando em harmoniosa comunhão com meu ser interior. Em fluxo paralelo, mando flores às ex-namoradas, cartinhas românticas, tele-mensagens com palavras carinhosas e continuamente peço perdão pelos maus procedimentos quando da vida em comum.&lt;br /&gt;Aprecio os pares andando de braços dados e se sentando, de mãos juntas, na pracinha, para contemplarem a lua clara no céu. Em vista disso, e por tudo o que fiz relacionar, as jovens que estiverem a fim de me conhecer poderão usar da criatividade para o primeiro encontro. Nada fashion demais.&lt;br /&gt;Sugestões? Por quê não? Aqui vão algumas dicas: podem vir com as camisetas floridas da Ellus ou da Maju e bolsinhas da C&amp;A, brincos da Ar Bijoux e presilhas nos cabelos. Não vou deixar de apreciar as vestidas de tule com strech e estampas zebradas da Einstein. Igualmente serão vistas com simpatia e elegância as senhoritas que chegarem trajando shortinhos bem curtos, ou vistosas calças brancas e, nos pés, botinhas vinho da Shoestock.&lt;br /&gt;Por certo também arrasarão as que pintarem no pedaço de peitos abertos e expostos aos meus dentinhos aguçados, cheias de amor e carinho, com disposição extrema para contatos imediatos de primeiro pau, digo, grau, desde que íntimos e bem prolongados. Rogo, porém, a todas, que à meia luz de quatro paredes, desaprisionem a fera existente no mais profundo do íntimo, e não tenham medo de ser feliz.&lt;br /&gt;Um recado de suma importância: usem calcinhas minúsculas. Toco às nuvens arrancando essas pecinhas com os dentes a uma velocidade rapidíssima, mas com taxas de compensações ótimas. Certamente farei os gritinhos mais tímidos se perderem no vazio da garganta. E outro esclarecimento que considero por demais importante: a escolhida — e só haverá uma — será eleita, de cara, na bucha, a princesinha do meu castelo particular, com direito a café na cama, banho com rosas e perfumes e massagens relaxantes, dentre outras coisas.&lt;br /&gt;Serei, na verdade, uma espécie de escravo e senhor. E, como tal, derramarei leite condensado em seu corpo e sorverei tudo com a ponta da língua. Em seguida, deslizarei cubos de gelo pelo pescoço e pela barriguinha até à altura do umbigo, fazendo uma rápida escala no Chuí. Por derradeiro, cobrirei com mel de abelha ou calda de chocolate as partes secretas e... e... Loucura! Onde estou com a cabeça?&lt;br /&gt;Acham, realmente, loucura, dar vida e asas ao meu frenesi inimaginável? Tudo isso é doideira? À guisa de explicação, tenho a dizer o seguinte: piração, vamos colocar assim, fica melhor. Piração seria o acordar no meio da noite tocando guitarra num banheiro escuro, o sangue agitado, as mãos trêmulas comprimindo as cordas, a alma estabanada e, para completar, uma platéia de rolos de papéis sanitários, tampas e bacias de privadas me aplaudindo freneticamente. Sem dúvida alguma, não me sentiria no Madison Square Garden.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O povo com a boca no trombone&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso da cueca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estudante Maria Vai Com As Outras, do Alto dos Cogumelos, nos escreve reclamando do elevado número de buracos em sua rua. Diz ela que existe uma cratera tão grande, perto do portão de sua residência, “que, outro dia, seu namorado, ao sair apressado e literalmente pelado (por causa da chegada dos seus futuros sogros), deixou cair a cueca que levava nas mãos, junto com a calça e a camisa. Até agora — continua  —, apreensiva, o pessoal da Prefeitura não conseguiu localizar a peça.” Quer saber, dentre outras coisas, se o rapaz tem direito a algum tipo de indenização.&lt;br /&gt;Resposta: Sim, claro! Inclusive, Maria, segundo nos relatou o ouvidor do bairro, seu namorado pode pleitear que a Prefeitura lhe reembolse, além do montante em dinheiro (referente à peça perdida), com uma consulta a um médico oculista e, conseqüentemente, com o aviamento de uns óculos de grau, a fim de que o fato não se repita, e, sobretudo,  para que ele, possa enxergar melhor os lugares onde pisa. E, veja bem: se ele preferir, a Prefeitura pode providenciar, também, o pagamento das mensalidades, pelo período de um ano, de um sistema de alarme de segurança bastante sofisticado que soará com antecedência de cinco minutos toda vez que seus pais (os sogros dele) estiverem chegando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piolhos a dar com o pau&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ajudante de caminhão João Engole Cobra, do Jardim dos Caixões Sem Alças, furioso, denuncia uma infestação maligna de piolhos na escola onde estuda seu filho mais novo, o Joãozinho Engole Minhoca. Diante desse problema, o cidadão deixa no ar uma pergunta sem resposta: “Que providencias tomar, de imediato?”&lt;br /&gt;Resposta: Fomos procurar a direção da escola e a assistente pedagógica do colégio (que muito educadamente nos recebeu) mandou um recado bastante simples com uma solução fácil de ser seguida. Disse a jovem para que passássemos para seu João o seguinte: que ele corte, ou arranque, a cabeça do filho, e a deixe em casa, de preferência num congelador ou de molho no álcool. Tal medida evitará problemas com piolhos futuros, além do que, ela, assistente de pedagogia, não terá mais que ouvir as lamúrias e as cantadas (notadamente, as cantadas) de um desocupado que, não tendo mais nada a fazer, a não ser encher a cara de cachaça, ficar bêbado de não se agüentar em pé, aparecer depois somente para torrar o saco e  a paciência, como se ela não tivesse mais nada a fazer dentro da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insuportável&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estagiário em suprimentos de estoques de supermercados Juraci Costa  Bigorrilho, do Bairro dos Degolados, reclama do mau cheiro nos fundos do prédio que faz divisa com seu terreno. Diz ele que, naquele local, funciona uma divisão da Delegacia de Homicídios, para onde são levados presos da Justiça para serem submetidos a torturas e sevícias. No auge do desespero, nos pergunta: “O que fazer?”&lt;br /&gt;Resposta: caro amigo, diga ao pessoal da tal Divisão de Homicídios que você não se importa nem um pouquinho com o tratamento que eles dispensam aos detentos, porém, que o delegado responsável desove os “presuntos” em lugar mais afastado ou você abrirá a boca e contará tudo à imprensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entupimento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cabeleireira Filomena Mão Leve, do Ribeirão dos Camundongos, se queixa do entupimento constante de seu lavatório. Diz que já é décima vez que chama o encanador, mas o “problema continua persistindo”.&lt;br /&gt;Resposta: Sugerimos que a senhora troque, urgentemente, de profissional. Da próxima vez, tente contatar um bombeiro hidráulico com uma mangueira que possa ser introduzida no seu lavatório, de preferência que saia direto na caixa de esgoto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuridão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O militar da reserva Pedro Cabeça de Mosquito, do Parque das Oliveiras, solicita a substituição de uma lâmpada de mercúrio queimada no poste principal da Alameda Psiu.&lt;br /&gt;Resposta: O ouvidor municipal Hélio Deixa Como Está  nos informou que a Secretaria de Serviços Urbanos já trocou a referida lâmpada por mais de 20 vezes. A câmera de segurança instalada no local flagrou por diversas vezes um motoqueiro, entregador de pizzas, que, todas as noites, após fazer a entrega nessa alameda, encosta a moto, trepa no poste e carrega a lâmpada e, no lugar, ainda deixa um bilhete mal escrito com os seguintes dizeres: “Da próxima vez, seus trouxas, coloquem uma lâmpada mais forte. Mamãe sofre das vistas e as porcarias que tenho levado para casa não estão resolvendo o problema dela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interurbano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor Cincinato do Amor Magoado, da vizinha cidade dos Cabritos, distante 80 quilômetros da capital, quer saber por que suas ligações locais “continuam sendo cobradas como se fossem interurbanos feitos para outras localidades”?&lt;br /&gt;Resposta: A Companhia Telefônica, em nota a nós enviada, esclareceu que, de acordo com uma regulamentação da Anadeuoanel,  isso vai continuar acontecendo, até porque, as prestadoras, de um modo geral, precisam arranjar dinheiro para cobrir os rombos enormes deixados por gestões passadas, bem como pagar uma porrada de funcionários fantasmas e garantir a sobrevivência dos diretores atuais. Por assim, a grana tem que sair, custe o que custar, dos bolsos de alguém. Nada melhor que venha dos babacas que utilizam os serviços da empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Medicamentos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desempregado Armando Em Cima de Alguém, do Jardim dos Anfíbios, reclama da falta de um medicamento nas farmácias de seu bairro. Alega que sua irmã é epiléptica e precisa de um remédio de uso contínuo chamado Lamotrigina, que “está sempre para chegar, mas nunca chega”.&lt;br /&gt;Resposta: O superintendente de Ações de Saúde pede ao Armando que troque sua querida irmã por uma pessoa que sofra de uma doença mais popular, cujo remédio não seja tão difícil de ser encontrado nas prateleiras das drogarias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porcos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vendedor de cacarecos Jorge Pensa Que Pode, da vizinha cidade de Carapicuíba, reclama de uma criação de porcos sem autorização da saúde pública na Avenida Celeste, onde mora com a família. Diz ele que o “mau cheiro está insuportável. Não sei mais a quem apelar. No chiqueiro também vivem cachorros doentes e gatos cegos.”&lt;br /&gt;Resposta: O Diretor do Departamento de Posturas da Prefeitura de Carapicuiba nos garantiu que irá pessoalmente sentir o “mau cheiro” alegado. Roga, entretanto, que o senhor Jorge aguarde uns dias, até que passe seu resfriado e o nariz volte a respirar normalmente. Tão logo esteja com os ditos orifícios nasais em forma, e as vias descongestionadas, fará uma visita ao local e, se realmente o “mau cheiro” estiver insuportável, notificará, ato contínuo, o proprietário da pocilga para que dê um banho nos animais e procure, com urgência, um oculista especializado em gatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clandestinos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O operário de máquinas Eliseu Passa Bem, de Santana, denuncia comércios irregulares próximos ao seu condomínio, na Avenida Voluntários da Pátria. “Os ambulantes vendem cigarros e bebidas alcoólicas bem na porta do prédio, o que é proibido por Lei. Além disso, furtam energia elétrica do relógio central da garagem, deixando fios expostos.”&lt;br /&gt;Resposta: O administrador regional de Santana, senhor Tadeu Tadando, nos informou que todos os comerciantes irregulares foram notificados. A fiscalização está fazendo plantão noturno no local. Todavia, parece que existe um fiscal que comanda a área e recebe umas “propinas” por baixo dos panos. A idéia é prendê-lo em flagrante mas, até agora, o espertalhão conseguiu escapar sem ser pego com a boca na botija. Quanto ao problema da iluminação clandestina, o melhor é o cidadão cortar os fios, sem ser visto, pelos meliantes. Ou, por outra, contratar um bom eletricista e pedir a ele para arrancar e esconder todos os relógios da caixa de barramento (incluindo o central, da garagem), torcendo, claro, como bem observou o senhor Tadeu, para que os demais moradores do prédio não entendam o gesto de maneira errada e acabem lhe cobrindo a cara com uma série de porradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conselhos para um bom relacionamento a dois&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1° — Acorde sempre de mau humor. De cara bem fechada. Chute, aparentemente com raiva descomedida, o lençol para um dos cantos da parede. Jogue os travesseiros no cachorro. Se não tiver cachorro ou qualquer outro animalzinho, como um gato, por exemplo, mire o focinho da mulher;&lt;br /&gt;2° — Ao entrar para o banho, largue os chinelos pelo caminho. Faça o mesmo com o pijama. Ao deixar o chuveiro, molhe tudo o que for possível. Esqueça a toalha ensopada sobre a cama, principalmente se estiver arrumada com a colcha nova de seda enfeitando o quarto. Pule sobre ela, como se estivesse praticando exercícios físicos e amasse o mais que puder; &lt;br /&gt;3° — Deixe o pente com um chumaço de cabelo na janela e a escova de dentes espetada no bolo que a empregada fez para os meninos. Atire os sapatos para dentro do box, ponha as meias sobre o refrigerador e a cueca em cima da mesa. Se usar o barbeador, coloque o aparelho sujo dentro do forno de microondas;&lt;br /&gt;4° — Espalhe, pelo chão, guimbas de cigarros, não sem antes bater as cinzas por cima dos móveis. Ao mandar as roupas para lavar, “esqueça” nos bolsos da camisa o telefone da namorada ou o e-mail da secretária do dentista;&lt;br /&gt;5° — Escreva um bilhete romântico (com palavras bem melosas) marcando encontro com a vizinha gostosona da frente e deixe, dobradinho, em um lugar tão visível que até um cego dos ouvidos possa encontrar. Se tem por hábito tomar o desjejum com a turma reunida, dê um jeito no bule do café. Ponha fogo alto nele e espere até o bicho ferver e transbordar;&lt;br /&gt;6° — Na geladeira, esparrame a manteiga e o chocolate das crianças, emborque as garrafas de água sobre a gelatina e meta os biscoitos no congelador. Uma coisa que deixa a patroa fula da vida e subindo pelas tamancas: esconda, bem escondido, os objetos mais comuns que ela costuma usar logo que entra na cozinha;&lt;br /&gt;7° — No almoço de domingo, quando a família em peso estiver sentada ao seu redor (principalmente os sogros), reclame, em tom alto e com grosseria, do arroz mal cozido, do feijão sem sal, dos ovos crus, das batatas fritas com excesso de óleo. Invente que flagrou uns bichinhos na salada de alface. Deixe claro que, se as coisas continuarem nesse pé, você a devolverá à casa materna embrulhada num monte de jornais velhos e, em seguida, arranjará duas gatinhas de 18, em substituição;&lt;br /&gt;8° — Se cultiva o hábito de viver em restaurantes, uma dica considerada infalível: peça sempre o prato que você mais aprecia; nunca deixe prevalecer a vontade dela. Não vale a pena. Encha a pança e apronte uma confusão para não pagar as despesas. Se o ambiente é desses chiquérrimos, onde moças de fino trato e com uniformes padrão aparecem para atender aos pedidos se derretendo em mesuras, passe a mão no traseiro de uma, descaradamente e, em seguida, se desculpe, com uma risadinha sarcástica; &lt;br /&gt;9° — No dia do aniversário da “rainha do lar” (nunca esqueça o aniversário da rainha do lar, isso é muito importante) presenteie-a com uma vassoura de piaçava acompanhada com um lembrete escrito num pedacinho de papel, de preferência do rolo sanitário: “Voe para os quintos. Não esqueça os filhos.”;&lt;br /&gt;10° — Um detalhe também importantíssimo: se você se amarra em lembrancinhas, compre uma roupa íntima (as mulheres adoram ganhar calcinhas). Quando a infeliz se achegar para o rala-e-rola, (calcinha nova sempre rende uma trepadinha), observe, de cenho franzido, que a peça “caiu” melhor no corpinho da Rafaela ou de uma mulher qualquer de sua predileção. O nome da puta é problema seu. Invente na hora.&lt;br /&gt;11° — Faça amor, de preferência à noite, ouvindo um rap em volume bem estrondoso. É aconselhável, nessas horas, plugar a televisão numa partida de futebol (se possuir tevê por assinatura, ligue num jogo transmitido pela televisão portuguesa). Ria muito e finja que teve um ataque de histerismo súbito com o narrador e obrigue a companheira a gargalhar junto. Aplique com vontade umas boas chineladas na bunda dela. Chineladas ajudam a descontrair e entrar mais rápido no clima;&lt;br /&gt;12° — Se sua parceira é dessas que apreciam se envolver em encontros de amigas que vendem produtos de porta em porta, nos dias de sábado, não bronqueie. Faça de tudo para, no final do bate papo, levar a mais engraçadinha em casa. Mande um amigo chato e bom de conversa telefonar para sua residência (na hora da novela das oito) para passar uma cantada de mentirinha na sua mulher;&lt;br /&gt;13° — Deixe, à vista, perto do aparelho de telefone, de preferência, uma folha de jornal com anúncios de boates, inferninhos e garotas de programa, com alguns marcados com círculo vermelho (que é para chamar logo a atenção);&lt;br /&gt;14° — No dia em que o time do seu coração estiver em campo, convide os amigos mais íntimos para assistirem em sua casa. Prepare um churrasco. Reúna-os na sala. Ligue bem alto a televisão — e o rádio, ao mesmo tempo — e deixe rolar cerveja à vontade. Beba além da conta. Pise com força nos pés dos convidados, belisque as orelhas das esposas dos seus colegas e solte uns puns sonoros. Vomite em cima da cunhadinha e escarre pelos móveis afora. Apronte um vexame para ninguém esquecer o pesadelo;&lt;br /&gt;15° — Na hora de se recolher, não tome o banho costumeiro. Deite ao lado de sua esposa bem sujo. Se costuma dar um trato nela antes de cair no ronco, diga um montão de palavras carinhosas, salpique os abraços com um “não fico sem esses seus beijos com gosto de pecado” e feche com chave de ouro: cochiche no ouvido da infeliz o nome da outra;&lt;br /&gt;16° — É aconselhável, outrossim, antes dos carinhos, uma cagada bem fedorenta. Arrebente, antes, com o fiozinho da descarga. Se sua privada for dessas modernas, de botão, passe Super Bonder para emperrar o mecanismo que libera a água ou feche o registro geral;&lt;br /&gt;    17° —  Enfim,  por derradeiro, se nada disso abalar o casamento, e o seu relacionamento continuar forte e duradouro, use o golpe da padaria. É muito simples e prático o tal golpe da padaria. Infalível, segundo os entendidos em meter a colher na vida alheia. Como é que funciona? Anote: ao sair de manhã cedo para comprar o leite, volte três ou quatro dias depois, alegando que foi vítima de um seqüestro relâmpago perto da banca de jornais. Jure, de pés juntos e até chore, se preciso for, mas deixe claro que os meliantes roubaram a revista Playboy com a primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva, peladinha, na capa e, de sacanagem, levaram, de lambuja, os pãezinhos quentinhos que você havia comprado para as crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                  (Lisboa, janeiro a março de 2000)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/900875850386783289-2454264921454959620?l=aparecidodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/feeds/2454264921454959620/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=900875850386783289&amp;postID=2454264921454959620' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/2454264921454959620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/2454264921454959620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/2007/10/quem-se-abilita.html' title='QUEM SE ABILITA?'/><author><name>Blog oficial do escritor Aparecido Raimundo de Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02993589939207432978</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-900875850386783289.post-5462175314160235605</id><published>2007-10-09T11:00:00.000-07:00</published><updated>2007-10-09T11:04:04.841-07:00</updated><title type='text'>A OUTRA PERNA DO SACI</title><content type='html'>A OUTRA PERNA DO SACI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sumário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1     Sinfonia escarlate&lt;br /&gt;2     Celulares&lt;br /&gt;3     Acabou a fita&lt;br /&gt;4     Queixo caído&lt;br /&gt;5      Adão e Eva&lt;br /&gt;6     Bem passado&lt;br /&gt;7     Cinco contra um&lt;br /&gt;8     Persuasão&lt;br /&gt;9     Explicações mal explicadas&lt;br /&gt;10   Anjo noturno&lt;br /&gt;11   Demônios eternos&lt;br /&gt;12    Golpe de mestre&lt;br /&gt;13    Foi tudo culpa da pia&lt;br /&gt;14    Gêmeas&lt;br /&gt;15    Heróis da persistência&lt;br /&gt;16    Olho nu&lt;br /&gt;17    Lâmpada milagrosa&lt;br /&gt;18    Locutora de terminal&lt;br /&gt;19    Meu bem, não é nada disso que você está pensando&lt;br /&gt;20    Iniciação&lt;br /&gt;21    Para bom entendedor uma cerveja basta&lt;br /&gt;22    Parece até pegadinha&lt;br /&gt;23    Mico&lt;br /&gt;24    Inocência ultrajada&lt;br /&gt;25    Peça de inquérito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinfonia escarlate&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A&lt;br /&gt; CAMPAINHA TOCOU. Uma, duas, cinco vezes. Zanzonho levantou da privada, deu descarga, se enrolou numa toalha amarela e acorreu abrir a porta. Na sua frente, apareceu Aruca, a vizinha que morava de parede meia, com os pais e seis irmãos. Tinha dezessete anos, a beldade. Era uma loirinha alta e curvilínea, dona de um encanto de fazer inveja em qualquer barbado. No belo rosto, mesmo ao natural e sem os artifícios da maquiagem, algo misterioso realçava seus dotes de princesa. Antes que o rapaz fizesse o convite para que entrasse, ela se adiantou e passou correndo por debaixo do braço dele e se empoleirou no sofá.&lt;br /&gt;- O que houve com seu telefone? Desde ontem venho tentando falar contigo e nada. Que dificuldade!&lt;br /&gt;- O aparelho que comprei pegou dengue.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- Isso que acabou de ouvir. Está com dengue.&lt;br /&gt;- Deixa de papo furado. Ligo aqui no seu fixo e nada. Seu celular idem, só dá na caixa postal. Que droga!&lt;br /&gt;- Sabe o que é? Ele se apaixonou por essa tal de caixa postal. Vão até se casar...&lt;br /&gt;- Engraçadinho. Se não gosta de telefones por que pediu a companhia telefônica que instalasse um aqui na sua casa?  E por que, quando sai pra rua, leva outro pendurado no pescoço? Precisava falar com você, urgente. Entendeu? Urgente! Caso de vida ou morte...&lt;br /&gt;- Ainda bem que a pressa acabou. Ia entrar no banho quando você tocou. Tenho um compromisso inadiável e estou atrasado. Até logo.&lt;br /&gt;- Ei, vem cá. É sério.&lt;br /&gt;- Você disse precisava. No sentido como se expressou me cheira a queria. Portanto...&lt;br /&gt;- Está legal, seu certinho.  Necessito.&lt;br /&gt;- Qual é a urgência? Não me diga que está pensando em empenhar a tela plana que ganhou da sua tia no dia do seu aniversário e me fazer uma proposta para ficar com a tranqueira em troca de mais um empréstimo?&lt;br /&gt;- Zanzonho, por favor, não brinque. Todas as vezes que pedi dinheiro a você eu paguei bonitinho. Nada lhe devo. Estamos quites. &lt;br /&gt;- Quanto a isso não tenho o que reclamar. Sei que cumpre com suas obrigações. Diga, pois, em que confusão se meteu dessa vez?  &lt;br /&gt;Aruca, embora aparentasse descomedida inquietação, não perdia os traços de feminilidade. Os loiros cabelos longos, bem cuidados, caiam em cascata, cobrindo um par de brinquinhos discretos nas orelhas. Da pele macia como o veludo, exalava um toque sutil de perfume de alfazema. As maças do rosto sobressaiam, salientes, com a boca rasgada, deixando à mostra, uma arcada dentaria perfeita, com dentes muito brancos. O corte firme do queixo, os seios fartos e cheios, a cintura fina e sólida, os quadris generosos e redondos, as coxas fortes, um par de pernas longas e bem feitas. Sem falar no sorriso, na voz suave, nos gestos delicados, enfim, havia um conjunto de pequenos atrativos que dava a ela um sex-appeal que exalava inocência contrastando com um outro, bem mais adulto, mais sofrido e, ao mesmo tempo, ligeiramente maroto. Para Zanzonho, tudo nela lembrava o pecado. Numa das mãos, a graciosa segurava fortemente uma granada de brinquedo. Aquilo deveria representar uma espécie de válvula de escape. Talvez, intimamente, alimentasse a idéia de que bastava algo dar errado e o que tinha a fazer, era arrancar o pininho para que o mecanismo explodisse e voasse com tudo pelos ares. De repente, todo seu corpo começou a tremer com tanta violência que mal conseguia manter a postura de moça comportada.&lt;br /&gt;- O que está acontecendo? Quer um copo de refrigerante ou uma taça de vinho?   &lt;br /&gt;- Nem uma coisa, nem outra. Apenas que me dê atenção e me leve a sério. &lt;br /&gt;- Prometo que assim farei. Agora me conta o que se passa. Sou todo ouvidos.&lt;br /&gt;Zanzonho sentou ao lado dela e, ao fazê-lo, capturou, não aquele olhar infantil, de alguns minutos atrás, mas um olhar perdido, de profundo medo estampado. Parecia que a sua vizinha, abrira uma cratera enorme em seu rosto brejeiro.&lt;br /&gt;- Preciso que me empreste um dinheiro.&lt;br /&gt;- Já percebeu que é só para isso que vem atrás de mim?&lt;br /&gt;- Só conto com você.&lt;br /&gt;- E o Barão, seu namorado? &lt;br /&gt;- Sumiu, escafedeu, virou pó. &lt;br /&gt;- Pra que a grana dessa vez?&lt;br /&gt;- Psiu! Fale baixo. Estou grávida.&lt;br /&gt;- Legal. E o que eu tenho a ver com a sua trepada mal dada?  &lt;br /&gt;- Você é a única pessoa em quem confio.&lt;br /&gt;- Quem é o pai? O Barão?&lt;br /&gt;- Antes fosse! &lt;br /&gt;- Caraca, se não é o almofadinha, quem conseguiu acertar a sua veia?&lt;br /&gt;- Importa?&lt;br /&gt;- Quero saber.&lt;br /&gt;- Vai descolar a mixaria?&lt;br /&gt;- Ou muito me engano ou pretende fazer aborto?&lt;br /&gt;Aruca tampou com a mão direita a boca de Zanzonho, que tomou um susto com esse gesto inesperado.&lt;br /&gt;- Quer um megafone?  Meus pais estão ai ao lado e podem nos ouvir.&lt;br /&gt;- Com seis praguinhas gritando? Ouça os berros. Acho pouco provável! &lt;br /&gt;- Meus irmãozinhos não são praguinhas.&lt;br /&gt;- Diabinhos seria uma colocação apropriada.&lt;br /&gt;- E ai? Vai me safar dessa enrascada? &lt;br /&gt;- Totalmente fora dos meus princípios. Sou contra esse tipo de solução. Acho uma desumanidade.To fora.&lt;br /&gt;Zanzonho podia sentir o suor que brotava das mãos dela sobre as suas.    &lt;br /&gt;- Zanzonho - implorou Aruca com uma voz cheia de tensão e o coração batendo violentamente - pelo amor de Deus. Se você me deixar na esquina...&lt;br /&gt;- Procure o pai da criança e exponha os fatos. Afinal de contas, quem pariu Mateus que o embale.&lt;br /&gt;Ela fitou seu vizinho com os olhos gelados. &lt;br /&gt;- O cafajeste rachou no trecho.&lt;br /&gt;- Te deixou na mão não é?&lt;br /&gt;- Botou no meu cu com força e deu linha.&lt;br /&gt;Zanzonho aproveitou a deixa e atacou.  &lt;br /&gt;- No cu também? &lt;br /&gt;- Porra, meu amigo. É jeito de falar. Qual é! Nunca dei o traseiro.&lt;br /&gt;- Quer me convencer de que o Barão não enfiou o parafuso na rosquinha ai atrás e mandou você rebolar?&lt;br /&gt;- Já disse, não foi o Barão. Ta legal. Vou abrir pra você. Me envolvi com um sujeito e descobri que ele é casado. Mas isso não tem a menor importância agora. Não desvirtue o assunto. Vamos voltar ao que interessa. Responda com sinceridade. Acaso me acha com cara de piranha?&lt;br /&gt;Zanzonho esteve a ponto de dizer que sim com todas as letras. A gravidez indesejada era prova mais que suficiente para corroborar uma verdade que logo viria à tona. Contudo, isso poria suas chances de conseguir alguma coisa com Aruca, rio abaixo. &lt;br /&gt;- Longe de pensar uma barbaridade dessas a seu respeito.&lt;br /&gt;- Então?&lt;br /&gt;- Então o quê? A propósito, já que estamos aqui, nós dois, sem testemunhas, mata uma curiosidade minha?&lt;br /&gt;- Que curiosidade?&lt;br /&gt;- Que diabo de tatuagem mandou fazer na... Na perereca?&lt;br /&gt;Aruca emitiu um tipo de som que mais se assemelhava ao de uma gata assustada sendo expulsa, de surpresa, de cima de uma mesa cheia de petiscos de ratos. Ficou pasma, paralisada, estática, dando a impressão de querer sumir debaixo do tapete a seus pés. Zanzonho não ouviu quando ela soltou um “como sabe disso, seu filho da puta?” porque o ventilador de teto que ele se levantou para ligar, passou a ronronar, a toda velocidade, sobre suas cabeças. Ela ficou furiosa. Possessa. Quando ele voltou a se sentar ao seu lado, lhe aplicou um beliscão violento. Esse gesto, melhor que mil palavras, demonstrou a fúria interior que lhe subiu às ventas.&lt;br /&gt;- Como descobriu? Não falei pra ninguém. Nem a meus pais, ou a minha melhor amiga eu...&lt;br /&gt;Zanzonho pegou a garota pelo braço e a conduziu até o banheiro. Introduziu–a num reservado onde deveria existir um box decente. Ao invés disso, havia uma cortina suja e rasgada e, no lugar do chuveiro, um cano enferrujado que escorria água pela parede. Ao lado da torneira, e do que deveria ser um local para colocar sabonetes, um pequeno orifício aparecia, tímido, como um elefante dentro de um ônibus.&lt;br /&gt;- Espie.&lt;br /&gt;- Credo, Zanzonho. Que mau cheiro! Estava cagando?&lt;br /&gt;- Espie de uma vez.&lt;br /&gt;Aruca se abaixou e meteu o olho. Por ele viu o vaso sanitário da sua casa, a banheira, o cesto de roupas sujas, os irmãos correndo e tudo mais que lá existia.&lt;br /&gt;- Tarado. Filho da puta!&lt;br /&gt;- Chiiii! Abaixe a voz. Podem nos ouvir.&lt;br /&gt;- Então você me espia daqui? Cretino!&lt;br /&gt;- Todo os dias. Desde cedo, quando vem mijar ou fazer cocô. Ouço seus peidinhos... Vejo você escovar os dentes, lavar as partes... Foi numa dessas peregrinações que deparei com a tal tatuagem.&lt;br /&gt;- Desgraçado, safado, veado.&lt;br /&gt;- Veado não. Quando te vejo como veio ao mundo, o sangue sobe. Perco o controle e ai...&lt;br /&gt;- Vomite de uma vez.&lt;br /&gt;- Deixa baixo. Vamos por etapas. Que tatuagem é aquela? &lt;br /&gt;- É o desenho de um homem pré-histórico fazendo amor com sua amada.&lt;br /&gt;- Ficou legal. A segunda coisa é o que realmente nos interessa a ambos.  E em cima dela, proponho um trato.&lt;br /&gt;- Um trato? Que trato?&lt;br /&gt;- De quanto você precisa?&lt;br /&gt;- Cinco mil reais.&lt;br /&gt;- Raios me partam. Quantos bebês pretende arrancar dessa barriga?&lt;br /&gt;- Faço o que você quiser. E só pedir.&lt;br /&gt;- Está melhorando. Sendo assim as conversas podem tomar outro rumo. Esqueça a tela plana.  Como deve ter notado, tenho uma na sala. Vou ser direto e reto. Bom pra nós dois. Como você acabou de falar que faz o que eu quiser... Ai vai. Eu...&lt;br /&gt;-...Você quer o meu computador. Fechado. &lt;br /&gt;- Tenha calma. Não quero seu computador. &lt;br /&gt;- Então, o quê?&lt;br /&gt;- Faz realmente o que eu quiser?&lt;br /&gt;- Faço.&lt;br /&gt;- Pois então transe comigo, aqui, agora, e eu libero o dinheiro. &lt;br /&gt;Aruca começou a sentir nojo pelo seu vizinho, um nojo que aos poucos se transformou em ódio e desprezo. Não esperava aquilo de Zanzonho, não numa hora amarga como aquela, num momento tão intimo, quando lhe abria a alma inteira e pedia ajuda.   &lt;br /&gt;- Jamais. Não sou prostituta nem vendo meu corpo. Vá procurar uma dessas vadias de...&lt;br /&gt;-... É pegar ou largar. Quem precisa da bufunfa não sou eu.&lt;br /&gt;- Você é nojento, desprezível. &lt;br /&gt;- Não, não sou, mas confesso que quando estou com meus sentidos grudados em você, no seu corpo, principalmente na sua bundinha maravilhosa, a minha emoção aqui no meio das pernas não consegue ficar em estado letárgico. Isso é ser nojento e desprezível?&lt;br /&gt;Tudo começou a rodopiar em volta de Aruca, como se alguém tivesse tirado a tampa daquele ralo imundo e um redemoinho gigantesco puxasse seu corpo para dentro.&lt;br /&gt;- Por favor, Zanzonho... Não faça isso...&lt;br /&gt;- Me dá o que eu quero e o cascalho vai pra sua mão.&lt;br /&gt;O rosto do rapaz perdeu completamente a cor como se uma artéria importante houvesse se arrebentado e ele começasse a perder sangue rapidamente.&lt;br /&gt;- Não, Zanzonho, não... Não... Não...&lt;br /&gt;Por um momento, o ar ficou tão parado e pesado que Aruca parecia andar embaixo d’água.&lt;br /&gt;- Solta o fiofozinho. Só quero entrar no seu rabicó. A parada fica aqui, entre nós.  Prometo ser discreto e carinhoso. Vamos, Aruca, me faça presente de seu cuzinho. Eu não mereço? Pense, cinco mil reais, cinco mil, por um buraco fedido...&lt;br /&gt;No que falava, Zanzonho deixou cair, propositalmente, a toalha. Apareceu diante dela uma avantajada arma de artilharia, pronta para entrar em ação. Aruca levou a mão à boca, horrorizada. Embora não fosse virgem, e tivesse tido experiências sexuais com vários namoradinhos, nunca vira um pau tão grosso e comprido como aquele. Zanzonho captou essa fraqueza no ar e não esperou por uma decisão definitiva. Sem dar tempo a jovem de se refazer do susto, enlaçou-a pela cintura, ajeitou a como pode, de quatro, as mãos agarradas na bacia da privada.  &lt;br /&gt;- Sugiro que seja boazinha e aceite como uma coisa natural.  Acho que será pior pra você, se lutar contra. Não vai doer. Serei generoso. Penetrarei sua cauda bem devagar, com todo cuidado.  Enquanto eu desfruto do seu figo, pense na grana, na grana.  Aproveite, minha linda, aproveite para relaxar... E... Claro, gozar... &lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, Zanzonho, não pode fazer isso... É estu...&lt;br /&gt;Enlouquecido pelo desejo, Zanzonho pouco se lixava para o que a garota balbuciava em meio a uma crise convulsiva de choro e soluço que lhe acometeu. Naquele momento, só queria saber de dar cabo da sua pretensão. Suspendeu a saia até a altura das costas e, pausadamente, arriou a calcinha. O excitamento sexual levou sua afoiteza a rápidas reações multiorgásticas. Então mandou brasa.  Gritos abafados de dor se misturaram a urros e deleites de um animal em fúria. Dessa forma humilhante e pior que isso, se prevalecendo da necessidade da pobre garota, Zanzonho entrou com tudo o que tinha direito, até que um filete de sangue verteu, de Aruca, como lava escorrendo dos lábios de um vulcão.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celulares&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;N&lt;br /&gt;O ÔNIBUS LOTADO O CELULAR do passageiro sentado no banco ao lado da porta da saída entoa a 9ª Sinfonia de Beethoven. No terceiro toque o sujeito decide.&lt;br /&gt;- Alô! Alô! Alô!...&lt;br /&gt;Diante da mudez do aparelho o cidadão espia meio desconcertado, para um lado e para outro, a fim de averiguar se alguém olha para ele. Ninguém parece preocupado, embora todas as atenções estejam discretamente voltadas para sua pessoa. Nova chamada. Desta vez espera uns segundos. Atende, ansioso.&lt;br /&gt;- Alô! Alô! Merda! Alôooa!...&lt;br /&gt;Nada.&lt;br /&gt;Uma moça trajando um conjunto verde, parece um abacate amarrado pelo meio, viaja logo atrás. O telefone dela, com o toque da “Vamos fugir” também resolve se fazer presente. Ao atender, seu rosto se ilumina num sorriso mágico.&lt;br /&gt;- Tô chegando, amor...  &lt;br /&gt;Há uma pequena pausa. &lt;br /&gt;- Você já está no ponto? Devo pintar ai dentro de uns cinco ou seis minutos... &lt;br /&gt;Novo intervalo.  &lt;br /&gt;- Te amo. Beijos.&lt;br /&gt;Um terceiro celular enche o ambiente com a música da Pantera Cor de Rosa. Uma colegial com o rosto abarrotado de espinhas solta uns gritinhos estridentes, antes de iniciar a conversação.&lt;br /&gt;- Rodriguinho, seu veado. Isso lá é hora de ligar?&lt;br /&gt;A 9ª Sinfonia de Beethoven volta à baila e se mistura com a voz da adolescente.&lt;br /&gt;- Alô! Alô! Alô! &lt;br /&gt;Desta vez a ligação tem êxito. O passageiro sentado no banco ao lado da porta da saída consegue, finalmente, manter o diálogo com seu interlocutor.&lt;br /&gt;- Legal cara. Parabéns!&lt;br /&gt;Gesticula e fala alto o suficiente para irritar um defunto. Sem um pingo de decência, age como se perto dele não houvesse uma leva de pessoas que merecesse, ao menos, um pingo de respeito e educação.&lt;br /&gt;- Até que enfim. Então você está indo para Portugal? Faça uma boa viagem, meu amigo. O Pedro te manda um abraço. A Luíza um beijo, o Carlos um puxão de orelhas...&lt;br /&gt;Vamos fugir volta a disparar no telefone da moça toda de verde. Ela prontamente abre a bolsa e atende:&lt;br /&gt;- Amor, tenha um pouco de paciência. Que loucura! O quê? Fala mais alto...&lt;br /&gt;De repente a coisa toma proporções descomunais. A colegial pisa em ovos de tão indignada e irritada.&lt;br /&gt;- Vá pra merda, Rodriguinho. Não me racha a cara!&lt;br /&gt;O sujeito sentado no banco ao lado da porta parece um lunático.&lt;br /&gt;- Seu avião sai a que horas? As 19? De onde? Eu... O quê?&lt;br /&gt;Lado esquerdo do coletivo, um casal assiste a tudo com os olhos arregalados. A certa altura o rapaz comenta, num cochicho:&lt;br /&gt;- É mole ou quer mais? &lt;br /&gt;- As pessoas – observa a moça igualmente aos murmúrios - perderam o senso do ridículo. A sensatez foi pro brejo. Ninguém respeita mais a individualidade...&lt;br /&gt;- Virou febre esse negócio. Todo mundo agora tem celular. Li, ontem, no jornal, que já estão a venda, no mercado, aparelhos celulares de última geração para cachorros.&lt;br /&gt;Risos.&lt;br /&gt;- Fala serio? Qual o quê! Isso é piada! &lt;br /&gt;- Não é não. Agora, além de hospitais, hotéis e restaurantes, os cachorros vão poder contar com mais essa vantagem.  &lt;br /&gt;- Se for verdade o que está me dizendo, minha nossa. É o cúmulo do absurdo. A que ponto chegamos. Olhe só para essa gente. Parece um bando de alucinados. Ninguém se entende. &lt;br /&gt;Um homenzarrão puxa a campainha. Pessoas se levantam. Outras tantas tomam posição para apear.&lt;br /&gt;- Vá se lixar, Ro...&lt;br /&gt;- Olhe, se lá em Portugal não tiver mulher que sirva, volta e leva uma brasileira. As mais bonitas do mundo estão aqui, meu chapa...&lt;br /&gt;- Rodriguinho, eu pensava, até agora, que você fosse do conceito. Me enganei redondamente. Vá pro inferno, ta ligado?&lt;br /&gt;A moça toda de verde dá um salto ao ver o rapaz que a espera, na calçada defronte à porta de acesso de uma loja de departamentos. Passa a mão no telefone e disca um número da memória.&lt;br /&gt;- Ei, amor, olha euzinha aqui. Cheguei. Já me enxergou? Estou te vendo. Me dê adeusinho....&lt;br /&gt;Nessa hora, então...&lt;br /&gt;- A mãe te manda um abraço. Vá com Deus. Chegando em Lisboa, ligue... Entendeu? Ligue, ligue, ligue, cacete!...&lt;br /&gt;No mesmo clima...&lt;br /&gt;- Rodriguinho, ô sem noção, o bagulho por aqui ta tenso. Meu namorado não vai gostar. Com certeza levará um lero contigo e depois, com certeza, te comerá na porrada, meu...&lt;br /&gt;A moça de verde, afoita:&lt;br /&gt;- Com licença, meu senhor... Com licença...&lt;br /&gt;- Calma senhorita. Vou ficar por aqui também. Deixe ao menos o motorista parar e liberar a traseira.&lt;br /&gt;-... De Lisboa? Puta que pariu!&lt;br /&gt;-... Ro, Ro, cuidado com a tribo, malandro. Quer saber? Estou injuriada. Vá se foder de verde e amarelo...&lt;br /&gt;-... Amor, amor, estou descendo...&lt;br /&gt;Sobra o casal acomodado no lado esquerdo, rindo da galera a mais não poder.&lt;br /&gt;- Odeio celular – pondera a jovem depois que todos saem. - Parece que esses trocinhos controlam nossa vida... Alias, dominam, vivem no nosso pé. Jogou, definitivamente para o ralo, a nossa intimidade.  &lt;br /&gt;- Estou com você – completa o rapaz – O negocio é bom, mas, em certas horas, se torna deselegante e cai no vulgar. Tira a privacidade. Imagine, daqui a algum tempo como lhe falei ainda a pouco, a gente cruzando na rua, com essas madames, metidas a besta, atendendo o telefone. “É pra você, Fifizinha!”.   &lt;br /&gt;A jovem se abre num sorriso contagiante e ainda pensa em responder alguma coisa. Nesse momento, entretanto, seu celular estronda Tchaikovsky.&lt;br /&gt;- Desculpe! Meu marido...&lt;br /&gt;Pede licença, baixa a cabeça e, sem tirar o aparelho do ouvido se acomoda num banco lá na frente, ao lado do trocador.&lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou a fita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt; sujeito pega o telefone e enquanto liga para o amigo vai se desfazendo dos sapatos e das meias pelo meio do corredor a caminho da cozinha. Fala:&lt;br /&gt;“Alô? Luiz, seu bobalhão, sou eu, o Carlos. Neste exato momento acabei de chegar em casa vindo do prédio onde funciona seu escritório. Toquei a campainha uma porrada de vezes e ninguém atendeu. Sua secretária não veio trabalhar, ou não quis abrir, sei lá. A garota da sala ao lado, de nome Bethânia, chegou às oito horas e dez minutos e, me vendo impaciente, andando para lá e para cá, feito coro de pica, e àquela hora da manhã, ofereceu um copo de água gelada, um cafezinho que fez na hora e, depois, caneta e papel. Não podia simplesmente ir embora ou virar as costas. Achei por bem enfiar por debaixo da sua porta, um bilhetinho simples para você saber que realmente estive lá. O negócio é o seguinte: procurei feito um imbecil o nome que você me passou, ontem, por telefone. Fui em todas as livrarias da cidade (são quase vinte) e não encontrei nenhum livro de Julia Petit.”&lt;br /&gt;“Aliás, Luiz, ninguém conhece Julia Petit por aqui. Liguei para sua casa e consegui falar com a sua filha. Ela confirmou o nome da criatura: realmente Julia Petit, com o t mudo no final. Argumentei que na pressa, talvez você tivesse me passado o nome errado. Quem sabe, não fosse Julia, mas Rulia, Nulia, Sulia, Vulia, ou qualquer coisa parecida. Sua filha garantiu que era Julia, até soletrou, jota de jaca, u, de uva, ele, de laranja, i de indelicadeza e a de amendoim. Parti, então, para o Petit. Não seria Petite com e, ou Petitte com dois tes?. Acho que consegui tirar a sua simpática mocinha do sério. Nas ligações seguintes a jovem só não me chamou de santo, mas percebi, pela alteração da voz, que meu papo estava se tornando chato e incômodo. Insisti em continuar a conversa, mas ela, com a grosseria e o atropelo que rondam a cabeça da juventude, acabou por me mandar tomar naquele lugar por onde expelimos nossas fezes, ou seja, o cu. Não contente, meu amigo, pá, desligou na minha cara. Fiquei como um abestalhado, a boca aberta, as palavras entrecortadas na garganta, o telefone no ouvido e o troço: tu, tu, tu, tu, tu, tu...”.&lt;br /&gt;“Você sabe muito bem, amigo Luiz, que odeio quando alguém interrompe a ligação, sem mais nem menos, e eu fico boquiaberto, feito um panaca, sem saber o que fazer com o auscultador na mão. Pior é o tu, tu, tu, tu, tu, tu...”.&lt;br /&gt;“Só por vingança disquei de novo. Decidi soltar meia dúzia de cobras e lagartos no escutador de novelas da sua menina, não por raiva, só para que ela aprendesse a respeitar os mais velhos. Contudo, na primeira tentativa a porcaria deu ocupado e o tu, tu, tu, tu, tu, tu, se fez ouvir logo que terminei de riscar o quarto número. Insisti por mais umas quinze vezes. Todas infrutíferas. Resolvi dar um espaço. Cinco minutos. Findo esse tempo, voltei à carga. Nada! De novo, uma, duas, dez, vinte vezes, Luiz, acredite, vinte vezes e a mer... digo, a porcaria, insistente: tu, tu, tu, tu, tu, tu...”.&lt;br /&gt;“Com certeza sua filha está de marcação serrada. Não é possível que ficasse pendurada por tanto tempo, sem dar folga. Bem, pode ser também que tenha deixado o fone fora do gancho, por descuido. Para matar as horas, Luiz, optei por um novo rolé. Tomei um café, comi um pão com manteiga e, após isso, voltei à peleja. Gastei, meu amigo, duas horas e meia refazendo as livrarias. Uma por uma. As respostas das atendentes eram sempre as mesmas. Teve uma que resolveu me encher o saco. Chato quando alguém lhe torra as medidas, não é verdade? Vou tentar reproduzir o diálogo que tivemos”:&lt;br /&gt;- Senhor, não temos nenhum livro de Julia Petit, nem de Julia Petite ou similar. Por acaso o senhor saberia dizer qual o nome da obra que ela escreveu? É romance? Livro de auto-ajuda?  Esotérico? Já procurou em casas que vendem produtos espíritas? O senhor não gostaria de levar o último de Paulo Coelho, ou o recém de Lya Luft? &lt;br /&gt;- Obrigado.&lt;br /&gt;- Não gosta de Zíbia Gasparetto? Ah! Temos também “Por Que os Homens Fazem Sexo e as Mulheres Fazem Amor”. &lt;br /&gt;- E por quê?&lt;br /&gt;- Desculpe, ainda não li o livro, mas dizem que é bom. Minha supervisora devorou de cabo a rabo e achou massa.&lt;br /&gt;- Massa?&lt;br /&gt;- É. Legal!...&lt;br /&gt;- Minha filha, você já leu Kafka?&lt;br /&gt;- Não senhor.&lt;br /&gt;- E Roberto Shinyashiki?&lt;br /&gt;- Nunca ouvi falar.&lt;br /&gt;- Nem eu. Prefiro Fernando Sabino.”&lt;br /&gt;“Esse foi, Carlos, na íntegra, o bate-papo que trocamos, eu e a vendedora, em uma das livrarias. Para você ver que não estou mentindo, trouxe o nome dela, o número do CPF,  identidade, carteira de trabalho e o telefone, caso o amigo queira ligar e confirmar realmente minha presença lá. Mudando de pau para cavaco, uma gracinha, a guria. Maria Helena, o nome da tetéia. Lembra Paula Hunter, filha de Carlos Manga, diretor de núcleo da Rede Globo.  Já sei, você não sabe quem é a Paula, nem o Carlos Laranja, desculpe, Manga, Manga. A Paula é a Gilda de “Um Só Coração”. Você está assistindo, não está? Pois é, a Paula é a Gilda”.&lt;br /&gt;“Para terminar, achei por bem colocar por debaixo da porta do seu escritório um bilhetinho com os dizeres: Ligue-me, ligue-me, ligue-me, pelo amor de Deus, ou vou acabar louco. Assinado, seu amigo Luiz”.&lt;br /&gt;                                                 ***&lt;br /&gt;Quando Carlos chegou em casa, à secretária eletrônica sinalizava que havia ligações não atendidas. Apertou o play. Vinte gravações. Todas, sem exceção, do Luiz. Retornou:&lt;br /&gt;- “Luiz, sou eu, atenda essa merda de telefone. Caralho! Eu sei que está ai. Recebi seus recados. Vinte ao todo. Não precisava ligar tantas vezes, mané. Achei seu bilhete, pi, pi, pi, pi, pi, pi, Julia Petit, pi, pi, pi, pi, pi, pi é Ju... pi, pi, pi, pi, pi, pi, Julia. Escreve-se, J, u, l, i, a -, pi, pi, pi, pi, pi, pi, - e Petit se soletra pi, pi, pi, pi, pi, pi,... p, e, t, i, t. O t é mudo, o t é mudo no final, pi, pi, pi, pi, pi, pi, Julia, pi, pi, pi, pi, pi, pi, Petit, seu Zé babaca, pi, pi, pi, pi, pi, pi, é pro pi, du, pi, pi, to, pi, pi, pi, ra, pi, pi, pi, pi, mu, pi, pi, pi, pi, pi, si, cal, pi, pi, pi, pi, pi, pi, não, pi, pi, pi, pi, pi, pi, é, pi, pi, pi, pi, pi, pi, es, pi, pi, pi, pi, pi, pi, cri, pi, pi, pi, pi, pi, pi, to, pi, pi, pi, pi, pi, pi, ra. Ela pi, pi, pi, pi, pi, pi, está, pi, pi, pi, pi, pi, pi, na lis, pi, pi, pi, pi, pi, pi, ta, pi, pi, pi, pi, pi, pi, dos, pi, pi, pi, pi, pi, pi, mais, pi, pi, pi, pi, pi, pi, bem  pi, pi, pi, pi, pi, pi, vesti, pi, pi, pi, pi, pi, pi, dos, pi, pi, pi, não, pi,  dos, pi,  mais, pi,  bem, pi,  vendi, pi, pi, pi, pi, pi, pi, dos, pi, pi, pi, pi, pi, eu disse, pi, pi, pi, pi, pi, pi,  vesti, pi, pi, pi, pi, pi, pi, dos, pi, pi, pi, pi, pi, pi, não, pi, pi, pi, pi, pi, pi,  vendidos. E, por fa, pi, pi, pi, pi, pi, pi, vor, pi, pi, pi, pi, pi, pi, não, pi, pi, pi, pi, pi, pi, me, pi, pi, pi, pi, pi, pi, tor, pi, pi, pi, pi, pi, pi, re, pi, pi, pi, pi, pi, pi, tam, pi, pi, pi, pi, pi, pi, to, pi, pi, pi, pi, pi, pi, a por pi, pi, pi, pi, pi, pi, ra, pi, pi, pi, pi, pi, pi, do pi, pi, pi, pi, pi, pi, sa, pi, pi, pi, pi, pi, pi, co. Pi, pi, pi, pi, pi, pi. Vá, pi, pi, pi, pi, pi, pi, para, a, pi, pi, pi, pi, pi, pi, a, pi, pi, pi, pi, pi, pi, puta, pi, pi, pi, pi, pi, pi, que... Pa...Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!...”.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queixo caído&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;M&lt;br /&gt;AL ENTROU NA LOJA DE CALÇADOS A MOÇA PROVOCOU um suave burburinho nos quatro atendentes que estavam mais próximos da porta. Impensadamente, todos de uma só vez se precipitaram em direção a ela.&lt;br /&gt;- Bom dia – disse um.&lt;br /&gt; - Pois não? – gritou o outro&lt;br /&gt;- Em que posso ajudá-la – acorreu o terceiro?&lt;br /&gt;- Preferência por alguma marca em particular?&lt;br /&gt;Diante de tantos rapazes bonitos, charmosos e elegantemente vestidos, a jovem composta por uma simetria corporal perfeita e uma luminosidade vital que transbordava alegria e erotismo a um só tempo, optou pelo mais tímido que se limitou a um “Bom dia”.&lt;br /&gt;- Gostaria que me mostrasse alguma coisa diferente do que estou usando.&lt;br /&gt;Em resposta o atendente esticou o braço direito indicando um dos muitos bancos existentes&lt;br /&gt;- Por favor, me acompanhe.&lt;br /&gt;Antes de se acomodar, a jovem deu uma caminhada básica pelo salão como se procurasse nos milhares de produtos expostos, alguma coisa que lhe chamasse a atenção. Na verdade, só queria mostrar seus dotes de princesa envoltos por debaixo daquele vestido azul marinho, bem curto e esvoaçante sabendo, de antemão, que deixava todos os marmanjos ali presentes (inclusive o que a seguia de perto), dissimuladamente embasbacados. Para os que haviam sobrado garimpassem mais acentuadamente seu visual impecável, levantou um pouco o tecido que cobria os joelhos de maneira insinuante. Finalmente, sentou no local indicado cruzando as pernas bem devagar. &lt;br /&gt;- Qual seu numero?&lt;br /&gt;- 34.&lt;br /&gt;- Aguarde só um minutinho. Trarei as últimas novidades que acabamos de receber. &lt;br /&gt;Dizendo isso, sumiu, atrás de uma porta vai-e-vem que ficava perto da seção de abertura de créditos. Ao lado, uma fila aguardava vez para fazer pagamentos de carnês.&lt;br /&gt;Os três vendedores que ficaram a ver navios, começaram a trançar de um lado para outro. Passavam na frente da jovem, balançavam a cabeça em sinal de cumprimento ou simplesmente sorriam e desviavam os olhos para suas lindas pernas. E que pernas! Ela percebeu que deixara a todos extasiados, naturalmente em decorrência do panorama que exibia. Resolveu apimentar um pouco mais a visão da galera tornando a coisa bem quente e exótica.  Propositalmente derrubou o celular.  No que se abaixa entre as poltronas, para reaver o aparelho, permitiu, ao se curvar, pudessem os engraçadinhos bisbilhotar um pouquinho além do que deviam.  Nessas alturas, literalmente, todos os vendedores ficaram sem ação, boquiabertos, como se estivessem embasbacados. Houve um silêncio solene, colossal e abrupto. Também, diante de uma coisa maravilhosa como aquela e levando em conta o que estava à mostra, faria qualquer homem normal arregalar os olhos e babar. Foi o que aconteceu. Devido à movimentação pouco exagerada dos vendedores, o gerente caiu em si e pescou no ar, o lance. Arranjou um jeito discreto de sair de trás do balcão estendendo a conversa com uma cliente. A intenção dele era a de levar a senhora que fora pagar uma prestação até a porta. Na verdade, tencionava passar perto daquela deusa e gozar, como os demais funcionários, do que ela oferecia, de graça, para o deleite dos olhos esbugalhados de todos.&lt;br /&gt;Com uma dezena de caixas coloridas em cada uma das mãos, eis que surge, de volta, o vendedor escolhido. Ele caminhava devagar, para não deixar que nada fosse ao chão. Nesse instante, sem exceção, a loja inteira parou, inclusive alguns clientes que vasculhavam as vitrines. Todas as cabeças se voltaram para aquele pobre que se aproximava, cambaleante, pé ante pé, solícito, o mesmo sorriso de sempre nos lábios. A linda, ao vê-lo, se levantou, e o ajudou a se livrar daquela carga, colocando um pouco das caixas sobre uma das poltronas.&lt;br /&gt;- Nossa você caprichou.&lt;br /&gt;- Trouxe tudo que encontrei em nosso estoque e espero que alguma coisa aqui venha a lhe agradar.&lt;br /&gt;- Com certeza.&lt;br /&gt;- Posso dar uma sugestão?&lt;br /&gt;- Claro.&lt;br /&gt;Tirou de dentro de uma das caixas um belo par de sapatos e o exibiu a jovem.&lt;br /&gt;- Experimente É a sua cara.&lt;br /&gt;Ela voltou a se sentar e ele se pôs de cócoras, para calçar o pezinho que ela lhe indicava. Foi ai que aconteceu.  No instante em que abotoava o fecho da sandália. A graciosa fez de propósito. Premeditou tudo. Abriu as pernas. Era como um auto-de-fé. Uma obsessão, um vicio. Não conseguia domar a criatura selvagem que morava dentro de seu ego medieval. Queria ver a reação, sentir de perto e na pele, como cada um se comportava diante de uma provocação inesperada, como aquela. Num primeiro momento, o atendente, entretido em cuidar de pequenos detalhes, não só para agradar como para não perder a venda se esqueceu de espiar para um pormenor maior que o seu limite de contenção. Contudo, ao se dar conta do que desfilava diante de si, o coração disparou, o sangue ferveu, seu rosto perdeu a cor natural. Por segundos, andou sobre fogo e nadou em gelo. Abriu trilhas numa selva que ate então vivia adormecida dentro de seu corpo. Teve a impressão de morder cabeças de cobras venenosas e arrancar o couro de tatus e porcos-espinhos.  As batidas de seu coração se espalharam por todos os cantos como tambores. Chegaram a ponto de provocarem um eco retumbante naquele outro coração que dormia, quieto, logo abaixo, dentro da cueca de algodão. Olhou ao seu redor, assustado, sem saber o que fazer, ou que atitude tomar. Uma sensação gostosa e atemporal se alastrou por sua mente. Continuava atarantado, fora de si, sem ação e perdido. Percebeu que um entusiasmo erótico instantâneo mexeu com seus nervos. Enquanto isso, a cliente, mordiscava os lábios e sorria maliciosamente. Sabia que havia alcançado seus objetivos. Podia se ver em seu rosto travesso, que aquela cena mexia com seu interior. Havia uma estranha combinação de magia e poder feminino sobre a presa, a essa altura transformado num duende completamente estabanado segurando fortemente um de seus pés. Resolveu levar adiante a estripulia.  Descerrou, por completo, seu triangulo preto, seu esconderijo secreto, e o fez sem meios termos, sem pudor, sem nenhum sentimento de vergonha. O pobre rapaz tremia na base. Diante dele, a doce cavidade do prazer em completo repouso e a espera de ser atingida. Nessa visão colossal, ele viu um jasmineiro florido, com passarinhos cantando uma melodia suave. Sentiu como se um milhão de luzes houvessem se acendido e, no minuto seguinte, teve a impressão de mergulhar numa piscina de águas mornas. O cheiro da maça entrou em suas narinas. Pressentiu o pecado se agigantando, tomando conta da sua vontade. Seus olhos não mentiam. Não via coisas, nem sonhava acordado. A jovem era real, tudo ali tinha forma física e podia ser tocado. Com as mãos, a bela moveu um pouco o vestido, permitindo que o desvairado ficasse mais perto do calor e da tentação e, nesse clima erótico, o infeliz se deleitasse com todas as transgressões que pudessem ser criadas por sua imaginação. Para os demais da loja, o vestido da facécia cobria o essencial. Especialmente para o vendedor sortudo, a safadinha mostrava a cobiça, o apetite, à vontade exacerbada se agigantando no meio de suas coxas. Um ponto dentro dela de repente explodiu em líquido puro. A poção do universo veio a baixo, molhou o assento da cadeira. Diante da incredulidade do vendedor, ela, sem a calcinha, alcançou o epítome do que buscava. Gozou.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava escrito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;U&lt;br /&gt;M GRUPO DE AMIGOS DE UMA MESMA empresa resolveu parar no centro da cidade e almoçar num ambiente diferente daquele a que estavam acostumados. Depois de algum tempo de procura, optaram por um self-service que oferecia preços módicos no quilo, com churrasco, além de um copo com suco de laranja grátis, acompanhando de uma sobremesa a escolher. O restaurante não tinha nenhuma sofisticação chamativa. Bastante simples, asseado, e acolhedor, mantinha as mesas no espaçoso salão a uma distância regular, de maneira que a clientela, por mais que se acotovelasse na hora de movimento intenso não se sentisse espremida, esbarrando uma sobre as outras. De moderno, uma porta de vidro fumê, aparelho de ar condicionado central e música ambiente de gosto apurado.  &lt;br /&gt;A turma elegeu, por unanimidade, uma espécie de reservado, onde juntaram mesas e cadeiras formando um círculo sobre o qual todos se veriam de frente e ninguém correria o risco de ficar de fora do bate papo que rolaria durante a refeição. Numa das paredes que fazia fundo à peça, sobressaía um enorme painel que ocupava toda a parede, consumindo-a de um extremo a outro e, onde se via, pintado em alto relevo, o Paraíso Celestial, bem como o primeiro homem e a primeira mulher; os animais em derredor vivendo em disposição bem ordenada e, em sintonia com a natureza; além de árvores frondosas e copadas.  Destacava, ao alto, um céu límpido e muito azul, com ralas nuvens brancas e, ao longe, um riacho de águas cristalinas descendo por entre um emaranhado de árvores e pedras. &lt;br /&gt;A tela de cores fortes conciliava a perfeição e a destreza do autor, realçando seu espírito criativo em grau máximo, ao mesmo tempo em que sobrelevava sua simplicidade a patamares profundos, tornando a obra praticamente uma coisa quase real dentro do irreal. Dava a impressão de que o Jardim do Éden se fundia com o resto do refeitório, tamanha a beleza, a calma, e a tranqüilidade que emanavam de todo o conjunto, declarando-o ausente de qualquer defeito de criação.&lt;br /&gt;Ambrósio, o mais velho do grupo, de descendência alemã, mal começou a comer estancou com o garfo no ar.  Olhando fixamente para o quadro, comentou:&lt;br /&gt;- Parem um pouco e observem aquela gravura. Olhem bem para o Adão. Corpo atlético, o físico bem trabalhado, lembra ligeiramente o capitão José Albucacys Júnior (para quem não sabe, o bombeiro responsável pela separação da Luma com Eike Batista, o marido corno), as faces vermelhas, ruborizadas, talvez, pelo sangue puro que lhe corre nas veias. E a Eva? Que doçura, que candura! Se eu apreciasse a Luma, diria que a Eva é a cara dela, escarrada e cuspida, mas como não gosto da Luma... Prefiro mil vezes a Cássia Eller.  Contemplem as pernas, os seios, os olhos. Angelicais. Ah! A Eva deve ter sido clonada da Cássia Eller, apesar de dizerem por ai que ela não gosta da fruta. Por isso bato uma aposta.  Adão e Eva com certeza, eram alemães.&lt;br /&gt;- Discordo plenamente – interrompeu Narciso com um ar engraçado. – Se vocês botarem atenção mais apurada no Adão e fixarem bem na ferramenta de trabalho (olhem o tamanho) e, conseqüentemente perderem uns bons segundos no vasto e cabeludo triângulo de amor da Eva, no meio das pernas, verão que, de ambos, desprende uma espécie de erotismo nato, quase tribal, com pinceladas animalescas. Adão deve tirar umas cinco e deixar a Eva em frangalhos e, quando falo em frangalhos, me refiro às partes pudentes, que nessa, hora ficam em brasa viva. Sem medo de errar digo a vocês, aqui, agora: estamos diante de um belo casal de franceses. E não asseguro isso só porque morei na França, quatro anos. Nada a ver...&lt;br /&gt;Baldaraque, um loiro vesgo que nunca deixava de mascar chicletes, nem tirava os óculos escuros da testa contestou os amigos que acabaram de opinar:&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, não falem besteiras. Ambrósio e Narciso, vocês estão complemente equivocados.  Prestem atenção nas mãos de Adão. Vejam, que mãos. São de homem macho. Fixem o semblante da Eva. Reparem nos cabelos de princesa, a fronte de rainha, o nariz de gente fina, a pele bem tratada, os seios delicados. É bom lembrar, ainda, que Adão e Eva tinham, nas veias, sangue nobre, sangue inglês. Você não está de pleno acordo comigo, amigo Tomaz?&lt;br /&gt;Tomaz, até aquele momento, no mais profundo silêncio, só ouvia o papo furado enquanto mandava para dentro um suculento filé bem passado e se deliciava com as batatinhas fritas. Não estava ligado na conversa e, para ele, aquele assunto não tinha a menor importância:&lt;br /&gt;- Tomaz está dormindo, cara?&lt;br /&gt;- Desculpem, andava longe! O que foi que disse?&lt;br /&gt;- Estou afirmando para nossos caríssimos, que Adão e Eva como estão postos naquela pintura ali, eram ingleses. O que você teria a nos dizer com relação a isso?&lt;br /&gt;Tomaz levantou os olhos e os fixou, por breves segundos, no painel gigantesco. Depois de prolongada contemplação se voltou para os companheiros e observou, muito sério e senhor absoluto do que expunha:&lt;br /&gt;- Os prezados não perceberam alguns detalhezinhos, a meu ver, importantíssimos. O Adão está nu. A Eva, pelada. Nenhum deles tem roupas ou sapatos. Não há casa ou barraco por perto. Parece que vivem sem teto, ao relento, expostos a chuva e ao vento. Não vislumbro sinais de abrigo, sequer uma barraca dessas vagabundas, para passarem a noite. Vejo mais: apenas uma maçã, uma única maçã para comerem, na mão de Eva. Já nem quero falar da cobra ao lado. Estão vendo a cobra? Parece meio desvairada, sei lá. Pois bem: numa escala ascendente tentando ser um pouquinho melífluo, Adão transmite um ar de babaca, de bobo, igual o Marcelo Dourado, do Big Brother. Lembram do Marcelo Dourado? Aquele cara que não protestava, não gritava, não lutava por dias melhores. Durante o tempo em que esteve na Casa nunca chegou a se esforçar para nada, nem para ganhar o prêmio que a Rede Globo oferecia. Quando finalmente se decidiu, o Pedro Bial mandou o idiota plantar coquinho. Dei o Marcelo, como exemplo, porque foi o único que me veio à mente.  Poderia ter sido um outro qualquer. Pois bem: a Eva, com aquele par de peitos prontos para serem sugados, mamados, um traseiro descomunal e uma boce... Desculpem, uma periquita maior ainda, livre e desimpedida para entrar no ferro e, levando em conta o sorriso sacana e maroto, recorda, vagamente, a Antonela Avellaneda no tempo em que dançava numa boate vagabunda e soltava a franga sem medo de ser feliz. O Adão não tem bunda, só pau. A Eva parece doida de pedra para liberar o traseiro e esconder a trosoba de seu homem. Esses dois, meus prezados, finalizando a minha humilde observação, fodidos, mal pagos e, ainda, sonhando com o paraíso, só podiam ser brasileiros.&lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A&lt;br /&gt; EMÍLIA TINHA NA CABEÇA, além dos cabelos literalmente loiros e compridos uma fantasia excêntrica. Fazer amor ao vivo e a cores com o namorado, em seu local de trabalho. Fábio era chaveiro e passava os dias numa espécie de mini trailer 24 horas instalado numa avenida movimentadíssima do centro. Para piorar, funcionava, contíguo, um shopping center recém inaugurado. O troço fervia como uma feira livre, de segunda a domingo. Mal dava oito horas, começava a chegar gente vinda de todos os lados. Nessa correria desenfreada o rapaz sequer conseguia respirar. &lt;br /&gt;Na sua peregrinação, vezes sem conta, Emília rondava o pedaço, na expectativa de tornar seu sonho realidade. Todavia, sempre na horinha agá pintava um serviço urgente para o rapaz, e a vontade dela acabava por ficar presa, como um nó incomodando na garganta. Nervosa, ou melhor, furiosa, a coisa estava mexendo com seus pensamentos, remoendo de tal forma que em pouco tempo acabaria virando uma tremenda paranóia. Não colocasse em prática as loucuras que se formavam em sua mente, com certeza acabaria lelé da cuca.&lt;br /&gt;A noite, não dormia direito. Mal se recolhia, estranhos pesadelos se formavam e invadiam seu pequeno mundo que não ia além de um quarto muito amplo e ricamente mobiliado com pôsteres gigantes da Daiane dos Santos e Sean Penn espalhados pelas paredes. Seus pais lhe davam de tudo e, nesse tudo, incluía o que havia de melhor: um espaço só seu, cheio de bonecas, um guarda-roupa abarrotado de peças finas, sapatos caros e de marcas famosas. Na garagem, ao lado da Mercedes do pai e do Jaguar da mãe, um Peugeot zero bala para não ir e voltar da faculdade de comunicação sem precisar enfrentar ônibus lotados. Não contando que morava numa suntuosa mansão incrustada num bairro nobre onde residia a mais alta nata da sociedade. &lt;br /&gt;Em paralelo, seus genitores viviam ligados à moda fashion e quase sempre a mídia especializada nessa área marcava presença em jantares e reuniões de negócios em busca de novidades e fofocas.&lt;br /&gt;Embora tivesse tudo a tempo e a hora, Emília não estava satisfeita com sua vidinha pacata. Recém hospedada na esteira dos vinte anos, fazia dois meses que conhecera o Fábio e começara a namorar sério com ele. Escondida dos pais, mas sério. Foi amor à primeira abertura de um cadeado que ele fez e nem se lembrou de cobrar. Logo que viu o pedaço de mau caminho, seu coração de mulher se abriu como um pára-quedas e, dai em diante, passou a quebrar as chaves nas fechaduras e a cegar os alicates de unha da mãe e de uma tia solteirona que morava junto, só para as duas, obrigatoriamente, passarem de carro, no trailer do saradão e encomendar seus préstimos, e, claro, pedir, depois, que ela fosse buscar e pagar pelos serviços. O encontro inaugural aconteceu meio que sem graça. Mas rendeu. &lt;br /&gt;- Oi!&lt;br /&gt;- Oi...&lt;br /&gt;- Você amola esta faca de cozinha para mim?&lt;br /&gt;- Claro. É pra já.&lt;br /&gt;Fábio, vinte e dois anos, o que tinha de bonito, carregava de tímido. Caladão e sério, não ia além de um sorriso maroto. Contudo, diante de Emília como num passe de mágica a vergonha de repente passou a dar lugar a ousadia.&lt;br /&gt;- Que livro é esse?&lt;br /&gt;- Capitu Sou Eu, de Dalton Trevisan.&lt;br /&gt;- Já li alguma coisa dele.&lt;br /&gt;- Você também é chegado em leituras?&lt;br /&gt;- Bastante. &lt;br /&gt;- O que está lendo?&lt;br /&gt;- Zero Absoluto de Chuck Logan. Como meu tempo é curto e as horas corridas, levo quase um mês para chegar ao final. Antes de Logan, consegui terminar Harold Robbins. &lt;br /&gt;- Maneiro. Já li alguma coisa dele.&lt;br /&gt;- O cara é irado.&lt;br /&gt;- Tô ligada.&lt;br /&gt;Emília realmente se ligou. A tal ponto que no encontro posterior rolou uns beijinhos, mãozinhas bobas aqui, mãozinhas bobas ali, até que a moça encucou de se entregar, de corpo inteiro, e a alma, de lambuja. Afinal de contas vivia seu primeiro caso, curtia o primeiro namorado, o primeiro homem, seu primeiro amor de verdade. Decidiu que esse momento tinha que ser ali, no trailer apertadinho de Fábio, entre chaves, alicates, tesouras, cadeados, facas, gente chegando e saindo.&lt;br /&gt;O roça-roça já passava de um mês, na verdade, um mês e quinze dias. Ela, porém, estava pra lá de seca, ele igualmente doido, descontrolado, subindo pelas paredes, trepando de costas. Mas o bem bom, o bem bom, nada. &lt;br /&gt;- Vou ser dele. E vai ser no chão daquela bosta onde passa o dia... &lt;br /&gt;A primeira investida, entretanto, falhou. Como a segunda, a sexta, a nona. Parecia que algo lutava contra. Surgia uma brecha, eles não perdiam tempo: se engalfinhavam um no outro. Todavia, no momento de partirem para os finalmente, pintava sujeira. Emília, então, teve uma idéia.  Trancar a porta pelo lado de dentro e ficar abaixada, de joelhos. Quem chegasse só veria o Fábio da cintura para cima. Jamais alguém, em sã consciência desconfiaria que por debaixo do minúsculo balcão uma marinheira de primeira viagem se preparava para dar uma festa de arromba e deixar seu bem amado de queixo caído. Ou seria de saco vazio? Isso não vinha ao caso. O que importava era a festa, aliás, prometia ser inesquecível...&lt;br /&gt;Aconteceu no sábado. Emília se posicionou no minúsculo compartimento disposta a se entregar aos prazeres do sexo e a fogosidade da carne fraca que lhe faziam tremer todas as partes do corpo. Havia nela um fanatismo instilado que a empurrava para frente, numa ansiedade descomedidamente irrefreável de perder a virgindade com aquele deus grego. Nesse prazer escrachadamente doido, faria o Fábio viajar até as nuvens, embalado e montado numa potranca de fogo, como vira num filme pornô que trouxera emprestado da casa de uma amiga da escola. Chegou uma freguesa. Emília, porém, não se fez de rogada. Ao diabo esperar mais. Abriu o zíper da calça do namorado. A jeans foi descendo até formar um amontoado de pano amassado. Fábio começou a trabalhar no alicate da madame. Emília, de repente, se viu frente a frente com a arma do crime colada em seu rosto. E bem perto de seus lábios ressequidos pelo prazer. &lt;br /&gt;Fábio tinha um tremendo de um volume grosso que pulsava, irrequieto, dentro da cueca. Parecia a ponto de pular para fora e se aninhar em meio às mãos da namorada gulosa. Na verdade, o troço pulou mesmo. E esquentou. E o bicho pegou...  &lt;br /&gt;- Ai, ai...&lt;br /&gt;A senhora que aguardava, recostada no parapeito do balcão, por um momento imaginou que o rapaz estivesse às portas de um piripaque.&lt;br /&gt;- Você está se sentindo bem, meu filho?&lt;br /&gt;- Sim... Estou... Estou quase...&lt;br /&gt;- Quer que eu chame um médico? Nossa, meu querido, você está suando em bicas!... Ficou branco... Não, amarelo, Cruz em Credo!&lt;br /&gt;- Ai, ai, engole... Sua vaca... Sua puta...&lt;br /&gt;Sem entender o que se passava, ao ouvir essas palavras, ditas assim, sem mais nem menos, na lata, na bucha, a madame ficou braba. Virou bicho. Rodou a baiana.&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, meu amigo, que modos são esses? – gritou a posuda mulher – cenho franzido - nunca fui tratada dessa forma. Que falta de respeito! Acaso me chamou de vaca, de puta... E quer que eu engula... Engula o quê?  Escuta aqui, seu pilantra. Não volto mais aqui. Nem eu nem minhas amigas. Passa pra cá meu alicate. Suspenda o serviço. Eu deveria chamar a polícia, seu mal educado, vagabundo, tarado...&lt;br /&gt;- Não, senhora. Por favor, não é nada disso que está pensando. Eu estou falando com a... Ai, ai, aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! &lt;br /&gt;Emília se despojou de todos os preconceitos e talantes clericais nos quais se criara desde pequena e mandou bala. Aquela altura, não mais volveria à lucidez. Num delirar sem conta enfiou na boca, de uma só vez, a chave que estava pendurada no meio das pernas de Fábio e a fez dar uma série de giros numa fechadura imaginável. Engoliu de forma tresloucada o pau do namorado com vontade e determinação. O troço grosso e quente parecia ter aumentado de intensidade, principalmente depois que fora colocado quase goela abaixo. De certa forma, esse gesto inesperado, atiçou a gula, despertou a fome e a libido. Afinal, ela estava no êmulo de sua fraqueza. Talvez o ineditismo da cena, o local, a posição, a forma como tudo acontecia, ajudava a criar um clima novo. Emilia literalmente agarrada feito uma possessa, no talo do rapaz, mesmo depois de tê-lo levado às nuvens, não parava de friccionar o pênis num vai e vem incessante. Em busca do “quero de novo”, voltou com a pica na posição inicial e começou a lambê-la -, primeiro com a ponta da língua -, depois enfiando inteira, sem pestanejar, a uma velocidade incontrolável.  &lt;br /&gt;O patrão de Fábio, um tal de Miguel das Chaves, chegou no exato minuto em que a dona do alicate, furiosa, voltava com dois policiais em meio a uma pequena multidão de curiosos. Gesticulava, muito braba, enquanto apontava o trailer. &lt;br /&gt;- O Senhor é o dono dessa espelunca? Seu funcionariozinho ai...  &lt;br /&gt;Emília conseguira de novo. Fábio gozava pela segunda vez.  Da sua maquina, ainda quente e turbinada, acabava de jorrar um jato branco muito forte, fazendo com que urrasse descontroladamente. De cócoras, Emília terminava de saborear o final do boquete, a substancia viciadora do pecado escorrendo pelas maças do rosto e parte da boca. Acabara de saciar seu desejo. Tudo como havia sonhado, ao fazer a sua escolha. Foi legal, mesmo em meio a uma superabundância de chaves velhas e alicates imprestáveis. O aríete de Fábio, aos poucos, foi entrando em estado de repouso. Parecia um pequeno botão de rosa pendendo para a esquerda e chorando uma reluzente lagrima de orvalho. A mão de Emilia, contudo, continuava dentro da calcinha. Ela teimava continuar fustigando os pequenos lábios. Enquanto engolia o sêmen quente do seu macho, gemia, gemia num crescendo, gemia com seguidas ondas de êxtase, como uma cadela no cio, tal como se estivesse fora de suas faculdades normais. De fato, estava! &lt;br /&gt;O embasbacado do patrão, sem saber o que acontecia, tanto dentro como fora, destrancou a porta e entrou com tudo. Atrás dele, a galera pedia providências. O casal, surpreendido no flagra, foi posto no olho da rua. Não fossem os policiais, ambos teriam sido linchados. Uma semana após o acontecido, Miguel das Chaves ajustou, para ocupar a vaga de Fábio, um rapazola loirinho, muito alegre e simpático, que sorria como uma hiena e, claro, nas horas de folga, entre um alicate e a feitura de uma chave, quebrava os galhos chupando a vara do patrão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco contra um&lt;br /&gt;“Era uma vez um louco: Eu”&lt;br /&gt;Pachá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt;LHAR PARA AS GATINHAS QUE PASSAM todas as manhãs embaixo da minha janela, com destino à escola pública, quase em frente da minha casa,  instiga a minha libido terrorista. Se me fixar em seus traseiros mais afogueadamente, com certeza, terei uma ereção nos moldes das derrubadas das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Geralmente essas inocentes espiadelas terminam ali mesmo, ocultas por detrás das cortinas, ou trancafiadas no banheiro, diante de um pôster gigante de alguma artista pornô, no cinco contra um, o que redundará num verdadeiro entulho de 250 mil toneladas de espermatozóides sendo ejaculados ao deus-dará. Recentemente descasquei uma banana prolongada para a Siri, nua em pêlo, numa revista feminina que roubei do meu vizinho que tem assinatura e, às vezes, demora para visitar a caixinha do correio. Me imaginei na pele do Alemão, com todo aquele material de primeira, ao alcance das mãos, esparramado numa cama redonda, com teto solar, piscina de água quente e outras diversões, longe dos curiosos, num desses flets espalhados por lugares deslumbrantemente exóticos.&lt;br /&gt; Gosto, como todos os rapazes da minha idade, de apreciar as revistas de mulheres peladas. Devoro todas as publicações que me caem nas mãos. Faz um bem enorme avaliar as curvas perfeitas das modelos mais cobiçadas deste país. Nessas horas, sinto como se estivesse dentro de um carro, o pé atolado no acelerador, voando perigosamente em alta velocidade, por uma estrada sinuosa margeando uma serra cheia de curvas fatais. Ao meu lado, ajudando a dar vazão a esse quadro irreal, uma colegial (dessas que todos os dias passam rebolando na minha janela) com o rostinho de princesa lembrando, não a Siri do Alemão, mas a Ana Paula Oliveira, os cabelos longos e soltos à moda da paulistana Mônica Frutuoso.  Enquanto seguro o volante, com a outra mão, enfio o dedo no pequeno triângulo que ela carrega escondido no meio das pernas, onde bem sei, existe um caminho secreto, encoberto por um invólucro minúsculo de nylon, levando meus devaneios às loucuras irascíveis do prazer. &lt;br /&gt;Semanas atrás quase aconteceu um milagre. Só não foi completo... Acho melhor contar desde o começo para que a coisa fique bem clara e não reste duvidas a respeito da minha sanidade mental.  Voltava do trabalho, quando à altura do Viaduto Maria Paula, tropecei com uma velha amiga, a Sandy, conhecida de longa data e que não encontrava pela frente fazia bom tempo. Conversa vai, conversa vem, consegui arrastar a moleca para um quarto de motel, na Praça da Sé. Por sorte, nesse dia, havia sobrado uns trocados no bolso. Mixaria, mas quebrava o galho. Entre um suco de manga e uns biscoitos amanteigados que compramos, ela resolveu ceder aos meus impulsos. Como a um telefone, me tirou, ou melhor, me arrancou do gancho. Tomamos um banho demorado, com ervas e sais afrodisíacos misturados a espumas aromáticas. A magia da sua presença inebriava o ambiente. Seu corpo, abrigo de vinte e cinco primaveras, tinha a sutileza de uma rima. Uma flagrância envolvente nos cabelos lhe corria pelos cachos dourados e terminava à altura exata onde a calcinha cor da pele encobria os dois lados do pecado. Cheguei a sentir o cheiro forte que ligava seus ciclos menstruais a lua. Ao deslizar a língua em seu traseiro, saboreei o doce gosto de mel que emanava da sua bundinha avantajada. Por breves minutos, me senti na pele de um rei poderoso, desfrutando de toda sua majestade intocável. Os móveis que compunham o quarto da espelunca onde estávamos, embora humildes e antigos, pareciam pequenos súditos reverenciando nossa felicidade. Na verdade, naquele momento mágico, me imaginava com autoridade absoluta diante daquele corpo escultural todinho a minha disposição. Uma verdadeira visão hipnótica. &lt;br /&gt;Depois do banho, partimos para a cama. Sandy tirou de dentro da bolsa uma Sexi onde se via estampada às formas impecáveis da Sandra Alionço. Virando o rosto para meu lado segredou que gostaria de ser como a Paloma Duarte, sua atriz preferida. Revelou que igual a Kimberley Stanfield é cheerleader de um time de basquete do colégio onde cursa o sexto período da faculdade de comunicação e que, vez em quando, para ganhar uns trocadinhos, trabalha como acompanhante de um casal de idosos, no Tatuapé.&lt;br /&gt;Por fim, anunciou que seu namorado – um negrão recém chegado do Senegal – disse para ela seguir a carreira de modelo. Jamais desperdiçar seu belo par de olhos azuis. Seria uma pena irreparável se isso acontecesse. Concordo plenamente com o sujeito. Não é todo mundo que enquadra um visual tão propício para a arte das passarelas: 1.67 de altura, 48 quilos, 86 centímetros de busto, 6l de cintura e 86 de quadris. Sandy, porém, está vivendo uma dúvida cruel. Ultimamente para ajudar nas despesas do apartamento que divide com mais algumas amigas, no Largo do Arouche, vem ganhando a vida como garota de programa (o que???) num movimentadíssimo apartamento na Rua Augusta. Garota de programa?  Puta que pariu!  Na minha santa ignorância, achei que havia levado uma eternidade enorme para arrastá-la comigo, até aquele cubículo imundo, de frente para as escadarias da Estação Sé do metrô.&lt;br /&gt;- E aí, vamos partir para os finalmente – disse ela num dado momento da conversa - Tenho outros encontros, você sabe como é, né mesmo!...  &lt;br /&gt;Olhar para uma gatinha que passa na rua em direção a escola que fica aqui perto de casa agita, a olhos vistos, o meu lado animal. Foi assim quando revi a Sandy, depois de muitos anos, não sei exatamente quantos, mas isso não importa agora. Estar numa cama de hotel, com ela, ao alcance das mãos e de outras coisas me fez senhor absoluto de mim. Juro que, por alguns breves instantes, me senti como Príapo, filho de Baco e Vênus, que nasceu, segundo a história, com um pênis desproporcionalmente imenso...&lt;br /&gt;Contudo, a revelação dela, ali, de cara limpa, (garota de programa?) - olhando bem dentro de meu coração desafortunado -, caiu como um balde de água fria -, misturado com cubos de gelo recém saídos de um imenso congelador. A ferramenta, símbolo da masculinidade deste pobre ser mortal, se tornou flácida, encolheu de medo e tamanho. Na verdade, o troço fugiu correndo para o esconderijo, ante a revelação nua e crua, mais crua que nua de Sandy. Então a desgranhenta safada, ordinária, se transformara numa prostitutazinha barata?! Meu Deus, quem diria, uma vulgar que ganhava a vida em troca de um punhado de moedas, a duras flexões em camas barulhentas de espeluncas baratas. Pintou, na moleira, uma série de pequenos fragmentos que redundou no esfriamento completo do apetite bestial.  &lt;br /&gt;De repente me vi enfiado numa espécie de almofada pegajosa, onde os bichanos dormem e sonham com gorduchos ratos de esgoto. Foi para os cambaus, meu milagre. Daí o quase.  Claro, não teve clima. Sandy sentiu primeiro do que eu que os meus propósitos haviam perdido o tamanho e a intensidade.&lt;br /&gt;Vestimos nossas roupas em meio a um silêncio constrangedor.  Minutos depois, saímos cabisbaixos, como se tivéssemos medo ou vergonha, um do outro. Deixei a vadia em frente ao prédio do Fórum Cívil, onde acenou para um táxi. Na despedida, trocamos um beijo ríspido e vazio, sem sabor, um beijo maquinal. Ela cheirava a sexo barato. Só fui perceber depois que contou que era vagabunda! &lt;br /&gt;O melhor que tenho a fazer é vigiar a revista pornô deste mês, que chega na caixinha do correio do meu vizinho. Os colegas da empresa onde trabalho, comentaram que uma das filhas do Antony Garotinho pintou mostrando tudo, nuazinha, nuazinha, em carne e osso, como saiu da barriga da mãe. Lembrando desse incidente com Sandy, e vendo uma porrada de gatinhas indo e vindo em direção à escola, vou partir em busca do esquisito pendurado no meio das pernas. Coitado! Ele que seja macho, que me endureça as feições e agüente a turminha de dedos que cairá em seus costados. Só espero, sinceramente, que na hora agá, não resolva fazer greve de porra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Persuasão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt; RAPAZ CHEGA PARA A NAMORADA E PROPÕE:&lt;br /&gt;- Lígia, minha linda, estamos aqui sentados no interior deste carro, desde as oito horas da noite. São quase duas da manhã. Como pode ver, ninguém na rua. Que tal aquela chance?&lt;br /&gt;- Qual, Julinho?&lt;br /&gt;- De lhe fazer feliz por inteira.&lt;br /&gt;- Mas sou completamente feliz, amor. Você me preenche todos os vazios.&lt;br /&gt;- Ficaria mais satisfeito e realizado interiormente se fizéssemos amor.&lt;br /&gt;- Não estou preparada.&lt;br /&gt;- Namoramos há seis meses e...&lt;br /&gt;- Eu sei, amor, mas não estou pronta. Entende o que eu digo? Não chegou o momento.&lt;br /&gt;Julinho finge uma mágoa ensaiada. Bruscamente pede a Lígia que levante de seu colo e passe para o banco do carona.&lt;br /&gt;- Você não gosta de mim como eu de você.&lt;br /&gt;- Claro que gosto, amor. Eu te amo. E muito. Você sabe. Dou minha vida por nosso amor.&lt;br /&gt;- Mas não dá o que realmente nos uniria de uma vez para sempre.&lt;br /&gt;- Julinho, você só pensa em sexo. Seu negócio é transar, transar, transar. Quantas coisas bonitas tivemos a oportunidade de dizer um para o outro. Você tem me saído um verdadeiro poeta. Recita versos lindos, me enche de frases românticas... Sem falar nas cartas maravilhosas que escreve. Vamos dar mais um tempo. Nosso momento chegará. Pode ser amanhã, depois, ou...&lt;br /&gt;- Ou nunca, Lígia. Para mim, chega. Tô fora.&lt;br /&gt;- Julinho, eu te amo. Não seja tão radical. Já dei várias demonstrações de que você é o cara com quem quero me casar, ter filhos, construir uma vida, envelhecer... &lt;br /&gt;- Faltou a principal.&lt;br /&gt;- É tão importante essa prova?&lt;br /&gt;- É.&lt;br /&gt;- O que você quer?&lt;br /&gt;- Preciso dizer?&lt;br /&gt;- Meus pais...&lt;br /&gt;Julinho abre a janela e aponta para a varanda enorme um pouco acima deles.&lt;br /&gt;- Seus velhos estão numa boa. Quem sabe até em promoção de temporada.&lt;br /&gt;- Promoção de temporada?&lt;br /&gt;- Isso mesmo. Devem estar trabalhando na fabricação da raspa do tacho.&lt;br /&gt;- Raspa do tacho? De onde você tirou essa maluquice, Julinho?&lt;br /&gt;- Como você é ingênua. Raspa do tacho é o mesmo que bebê temporão, ou seja, aquele irmãozinho inesperado que chega para aumentar o clã familiar quando menos se espera.&lt;br /&gt;Risos.&lt;br /&gt;- Papai a essa altura do campeonato ronca a sono solto. Mamãe, coitada, deve andar pra lá de Bagdá.&lt;br /&gt;- Sentiu o drama? Dormindo, quando deveriam estar numa boa.&lt;br /&gt;- Amor, amanhã a gente continua o papo. Agora preciso subir.&lt;br /&gt;- É cedo, gatinha.&lt;br /&gt;- Amanhã eu...&lt;br /&gt;- Amanhã é outro dia depois de hoje... E hoje é o nosso agora.&lt;br /&gt;- Sofia subiu passava um pouco das dez. O Marco Aurélio idem. Só eu estou aqui.&lt;br /&gt;O rapaz continua firme na sua determinação e parece que nada o demove a deixar a coisa para a noite seguinte.&lt;br /&gt;- Escute o que vou dizer: entramos ali na garagem, só por alguns minutos.  Juro que levo você às estrelas.&lt;br /&gt;- Não vejo estrelas. O céu está escuro demais.&lt;br /&gt;Julinho deixa a aparente magoa de lado e volta a abraçar a namorada. Beija-lhe carinhosamente a nuca e os seios.&lt;br /&gt;- Deixa lhe mostrar essas estrelas.&lt;br /&gt;Enquanto tenta quebrar as últimas resistências de Lígia, abre o porta luvas do carro e, de lá, retira uma caixinha.&lt;br /&gt;- O que é?&lt;br /&gt;- Abra e descubra.&lt;br /&gt;Lígia, curiosa, obedece.&lt;br /&gt;- Dois dadinhos?&lt;br /&gt;- Na batata. Dois dadinhos.&lt;br /&gt;- Para que servem? O que estão escritos neles?&lt;br /&gt;- Calma princesa. Por etapas. Vamos até a garagem?&lt;br /&gt;Enquanto fala, Julinho vai subindo vagarosamente a mão pelas pernas de Lígia. Seu coração bate descompassadamente. O dela falta pouco para saltar do peito. A mão do rapaz segue adiante, continua subindo, subindo, mais um pouco, galgando centímetro após centímetro. Lígia, quase sem fôlego está sem ar. O corpo treme. Sua pele sua. Entrementes, os dedos de Julinho bolinam na calcinha e, afoitos roçam a...&lt;br /&gt;Lígia enlouquece. Explode a vontade da posse. A tentação desperta de seu sono acorda furiosa.  &lt;br /&gt;- Está bem. Venha comigo.&lt;br /&gt;O casal sai do carro e entra no escuro da garagem.&lt;br /&gt;- Que volume é esse no seu bolso?&lt;br /&gt;- Uma lanterna.&lt;br /&gt;- Para que você quer uma lanterna, Julinho?&lt;br /&gt;- Vamos jogar dadinhos. É assim. Deixa eu te explicar. Na face que cair você deverá praticar o que estiver escrito.&lt;br /&gt;- E o que é que estará escrito?&lt;br /&gt;- Como vou saber?  Você terá que jogar.&lt;br /&gt;Os dois se acomodam num canto bem no fundo da peça ao lado do CITRÖEN dos pais de Lígia. Julinho tira a lanterna do bolso e procura, com o foco, um espaço livre, no chão.&lt;br /&gt;- Aqui está legal. Chacoalhe os dados com uma das mãos e jogue, devagar.&lt;br /&gt;A garota obedece.&lt;br /&gt;- O que saiu escrito?&lt;br /&gt;- Neste aqui, NA MESA. No outro, COM A PORTA ABERTA.  &lt;br /&gt;- Não valeu. De novo.&lt;br /&gt;Lígia faz a segunda tentativa.&lt;br /&gt;- E agora?&lt;br /&gt;- No primeiro, AO AR LIVRE, no segundo, SEXO ORAL NELE.&lt;br /&gt;- Ótimo. Vá em frente.&lt;br /&gt;- O que? Eu!...&lt;br /&gt;- Amor prove que me ama de verdade. São seis meses. Olhe só como estou por sua causa. Veja como você me deixa. Vamos, gatinha, aposto que vai gostar. E pedirá bis. Não dói.&lt;br /&gt;Enquanto fala a criatura desce rapidamente as calças. Num piscar de olhos está de sunga, a camisa aberta.&lt;br /&gt;- Tire fora. Olhe o que vou fazer.&lt;br /&gt;Do bolso da camisa puxa um vidrinho pequeno.&lt;br /&gt;- Nossa Senhora, Julinho, o que tem nesse trocinho?&lt;br /&gt;- Calma, Lígia, isso aqui é Jelly Well.&lt;br /&gt;- Jelly o quê?&lt;br /&gt;- Gel corporal.&lt;br /&gt;- Qual é a serventia?&lt;br /&gt;- Vou passar na pontinha do... Do Juninho.&lt;br /&gt;- Credo! Não vou agüentar esse negócio comprido e grosso dentro de mim. Esqueceu que sou virgem? Você sabe que nunca transei. &lt;br /&gt;- E estou muito feliz por nós dois. Mas veja bem: não vamos introduzir o “Juninho” dentro de você. Inicialmente testaremos colocando o neném na sua boquinha. Obedeça aos dados. SEXO ORAL NELE. Experimente. &lt;br /&gt;- Eu, eu...&lt;br /&gt;- Deixa de conversa fiada. Sinta o sabor do gel na ponta da sua língua.&lt;br /&gt;- Tenho nojo. Nunca fiz antes...&lt;br /&gt;Todavia, diante de tanta e acirrada insistência (embora não suportasse mais esperar para ver como era a coisa) Lígia, meio sem jeito e ressabiada, começa a praticar sexo oral no namorado. Contudo, à medida que vai sorvendo o espesso membro, sente que seu organismo se descontrai e se desprende da tensão que até minutos atrás a atormentava.&lt;br /&gt;- Chega... Que gosto horrível... Vou... Vou...&lt;br /&gt;- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Por quê parou? Merda, eu estava quase...&lt;br /&gt;A donzela, desvairada, sai correndo e vomitando para todas as direções e, pior, deixando o namorado a ver navios e bolinhas coloridas no meio do aposento escuro, quase as três da manhã.&lt;br /&gt;Dia seguinte, mesmo horário, mesmo lugar, à cena se repete.&lt;br /&gt;- Jogue os dadinhos.&lt;br /&gt;- Hoje é sua vez, gatinho. À vontade.&lt;br /&gt;O rapaz cede. &lt;br /&gt;- Saiu EM FRENTE AO ESPELHO e SEXO ANAL.&lt;br /&gt;- Tudo bem. Vamos nos contentar só com o que temos. Não vou lá em cima buscar um espelho, a menos que você faça absoluta questão. &lt;br /&gt;- Para mim, tudo bem. Faremos sem o espelho.&lt;br /&gt;- Afinal de contas, amor, qual a função do espelho?&lt;br /&gt;- Desfrutar melhor dos movimentos... Você adoraria ver o Juninho entrando no seu... Na sua bundinha. Dá uma sensação...&lt;br /&gt;Risos. &lt;br /&gt;-  Pense que não faltará oportunidade. Talvez na próxima. A gente vem pra cá preparado e trás tudo que tem direito. A propósito, ia esquecendo: deixa te mostrar o que minha irmã Sofia me deu de presente antes de ir hoje cedo para o trabalho. Cadê a lanterna? &lt;br /&gt;Lígia levantou o vestido e de dentro da calcinha retirou uma pequena latinha. &lt;br /&gt;- Posso saber o que tem dentro desse recipiente? &lt;br /&gt;- Calma. Dentro de alguns minutos matara a sua curiosidade. Agora senta aqui a meu lado e deixa te falar uma coisa. Contei tudo o que fizemos ontem a Sofia, ou melhor, o que tentamos e não conseguimos.&lt;br /&gt;- Pó, você abriu pra sua irmã?&lt;br /&gt;- Sim. Qual o problema? &lt;br /&gt;- Jesus Cristo, estamos fritos.&lt;br /&gt;- Relaxe, meu príncipe. Fique frio. Ela é sangue bom. Alias, me deu altos conselhos.  Deixou bem clara a nossa situação. Maninha, vá em frente. Para segurar a onda e manter um homem embaixo dos seus pés, não espere, dê. Solte a franga. Mostre logo do que é capaz. Detalhe: ele vai chegar junto e te pedir uma comida básica no traseiro. A primeira vez dói pra caramba. Parece que as pregas estão sendo arrombadas e arrancadas ao mesmo tempo, por um estilete.  Por mais carinhoso que o cara seja, enfiando o troco com jeitinho e usando de toda delicadeza, você ira no inferno e voltara umas trocentas vezes. Mas não se assuste. Depois acostuma. Na segunda metida, aposto que estará cabriolando no pau dele, tão carente, mas tão carente, quanto uma criança recém saída do gueto. Me deu isto e pediu que escondesse na calcinha. &lt;br /&gt;- E o que é?&lt;br /&gt;- Unta cu.&lt;br /&gt;- Unta o quê?&lt;br /&gt;-   Deixe de conversa fiada. Você jogou os dadinhos, lembra? Pois trate de fazer o que está escrito neles. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explicações mal explicadas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;M&lt;br /&gt;AL E PORCAMENTE PANTOLFO CHEGOU DA RUA E SE ACOMODOU no sofá da sala para tirar os sapatos, o pequeno Luan, que assistia desenhos na Cartoon Network, desligou o aparelho e encarou o pai, muito sério.&lt;br /&gt;- O senhor saberia me explicar quem nasceu primeiro? O homem ou a mulher?&lt;br /&gt;- O homem. &lt;br /&gt;- E a mulher?&lt;br /&gt;- Veio de uma costela de Adão.&lt;br /&gt;- E quem é Adão?&lt;br /&gt;- O primeiro homem.&lt;br /&gt;O garoto sentou ao lado do pai e cruzou as pernas como se fosse adulto. &lt;br /&gt;- Foi?&lt;br /&gt;- Isso.&lt;br /&gt;- E onde ele está agora?&lt;br /&gt;- Morto.&lt;br /&gt;- Se ele está morto, como é que a mulher nasceu da costela dele?&lt;br /&gt;- Obra de Deus, meu filho. Obra de Deus. Cadê sua mãe?&lt;br /&gt;- Saiu com a Maria. Foram ao supermercado fazer compras.&lt;br /&gt;- Seu irmãozinho?&lt;br /&gt;- No parquinho com a babá. Pai tem um negócio que está me causando um monte de dúvidas? Será que o senhor...  &lt;br /&gt;- ...Se estiver ao meu alcance.&lt;br /&gt;- Voltando a esse tal de Adão. O senhor falou que a mulher veio da costela dele. Se a mulher veio da costela desse tal de Adão, a mamãe saiu da sua costela?&lt;br /&gt;- Não, filho. Mamãe e papai são diferentes.&lt;br /&gt;- Diferentes? Como?&lt;br /&gt;- Mamãe nasceu na casa de seu avô Tonico e de sua avó Simone.&lt;br /&gt;- E o senhor?&lt;br /&gt;- Eu vim da casa de vovô Anacleto e de vovó Custódia.&lt;br /&gt;O moleque parecia absorto em pensamentos distantes.&lt;br /&gt;- Pai, onde é que o vovô Tonico e a vovó Simone nasceram? E o vovô Anacleto mais a vovó Custódia, vieram do mesmo lugar?&lt;br /&gt;Boquiaberto, Pantolfo não sabia o que responder. Precisava pensar rápido, inventar uma desculpa qualquer que satisfizesse a curiosidade do filho e o fizesse retornar aos desenhos.&lt;br /&gt;- Todos eles vieram lá do céu, no bico de uma cegonha enorme.  &lt;br /&gt;- O senhor também veio no bico dessa cegonha?&lt;br /&gt;- Como todo mundo... &lt;br /&gt;- Pai, essa cegonha trás gente grande igual todo adulto ou só carrega criança do meu tamanho?&lt;br /&gt;- Só criança do seu tamanho.&lt;br /&gt;- No bico?&lt;br /&gt;- No bico.&lt;br /&gt;- E a criança não cai?&lt;br /&gt;- Não, não cai. A cegonha é muito cuidadosa.&lt;br /&gt;Luan começou a estalar os dedos das mãos, como fazia seu avô Anacleto. Parecia nervoso e preocupado. Aliás, estava. E muito.&lt;br /&gt;- Pai, meu irmão Lucas veio no bico dessa cegonha?&lt;br /&gt;- Veio. E pousou bem ai nos fundos do quintal.&lt;br /&gt;- Que troço mais esquisito!...&lt;br /&gt;- O que é esquisito, filho?&lt;br /&gt;- Se for mesmo a cegonha quem trás as crianças como é que o Lucas saiu da barriga da mamãe e nasceu na maternidade? Será que a cegonha errou de endereço?&lt;br /&gt;Pantolfo abriu a boca e franziu o cenho diante dessas revelações. Para ele, até então, o guri não passava de uma criança com o espírito embebido na aventura da idade e estava só querendo conhecer um pouco mais da vida. Todavia, a história da barriga e da maternidade mexeu fundo com sua cabeça.&lt;br /&gt;- Quem falou que o Lucas saiu da barriga da mamãe e nasceu na maternidade?&lt;br /&gt;- O padre.&lt;br /&gt;- Padre? Que padre?&lt;br /&gt;- Padre Gregório.&lt;br /&gt;- Quem levou você a esse tal de padre Gregório?&lt;br /&gt;- Tia Elaine.&lt;br /&gt;- Quando?&lt;br /&gt;- Não sei.&lt;br /&gt;- Não sabe?&lt;br /&gt;- Acho que “era” ontem.&lt;br /&gt;Risos.&lt;br /&gt;- Sua mãe acompanhou vocês?&lt;br /&gt;- Não. Mamãe parou na padaria.&lt;br /&gt;- Na padaria?&lt;br /&gt;- É pai. Ela disse à tia Elaine que iria comprar uns trecos: ovos, pão de forma, manteiga, não sei mais o que e fermento.&lt;br /&gt;- Fermento? Para que sua mãe precisa de fermento?&lt;br /&gt;- Acho que é para pôr na torta que vai fazer para tia Vânia.&lt;br /&gt;- Torta para tia Vânia?&lt;br /&gt;- Ele vai fazer aniversário, esqueceu? Mamãe está preparando uma torta de surpresa. Eu e tia Elaine fomos até a paróquia convidar o padre.&lt;br /&gt;- Mmmmmmm!...&lt;br /&gt;- Pai, o padre Gregório é mulher?&lt;br /&gt;- Não conheço pessoalmente o padre Gregório, filho, mas por tudo quanto é mais sagrado, de onde você tirou essa idéia?&lt;br /&gt;- Ele não usa uma saia preta e comprida?&lt;br /&gt;- Todos os padres usam.  De mais a mais, aquilo não é saia. É batina.&lt;br /&gt;- Mamãe usa batina?&lt;br /&gt;- Sua mãe usa saia.&lt;br /&gt;- E tia Elaine usa batina?&lt;br /&gt;- Saia.&lt;br /&gt;- E tia Vânia?&lt;br /&gt;- Saia. Todas usam saia. A Maria, a babá de seu irmão, sua avó... &lt;br /&gt;- Por que os padres usam batina e não vestem calça?  O senhor não acha que tia Elaine e tia Vânia ficariam mais bonitas se usassem uma batina igual a do padre Gregório? Ou vice-versa? O senhor teria coragem de usar batina, ou uma saia bem curta igual a da Maria, nossa empregada?&lt;br /&gt;Pantolfo começava a mostrar sinais de irritação e impaciência. O moleque queria saber demais, e a uma velocidade vertiginosa. Torrava a paciência. Principalmente depois de um dia estafante e cheio de encrencas no escritório da companhia. Teve uma idéia.&lt;br /&gt;- Filho, você não quer chupar um sorvete?&lt;br /&gt;- De morango ou de abacaxi?&lt;br /&gt;- Você escolhe o sabor que melhor que aprouver.&lt;br /&gt;- Melhor o quê?&lt;br /&gt;- Agradar. Melhor lhe der satisfação.&lt;br /&gt;Luan, contudo, não se fez de rogado. Voltou à bateria de perguntas. &lt;br /&gt;- Pai, como é o nome da primeira mulher?&lt;br /&gt;- Eva.&lt;br /&gt;- Eva?&lt;br /&gt;- Eva.&lt;br /&gt;- Gozado! O senhor não vai acreditar. Ela mora ali embaixo, depois da pracinha, perto do açougue. É a mãe do Funchal.&lt;br /&gt;- Mãe... Mãe de quem?&lt;br /&gt;- Do Funchal, um colega meu. Estuda comigo. A gente senta um ao lado do outro.&lt;br /&gt;- Filho, essa Eva é outra. Não é a que saiu da costela de Adão.&lt;br /&gt;- Como é que essa outra Eva conseguiu sair da costela desse tal de Adão?&lt;br /&gt;- Já disse: ela não saiu...&lt;br /&gt;- O senhor não acabou de falar que a Eva saiu da costela de Adão?&lt;br /&gt;- Sim. &lt;br /&gt;- Então?&lt;br /&gt;Pantolfo colocou as mãos em concha no rosto miúdo do garoto e tentou parecer calmo. Por dentro, entretanto estava uma pilha. &lt;br /&gt;- Lembro que estávamos comentando a respeito da primeira mulher, não da mãe de seu amiguinho aí...  Como é mesmo o nome?&lt;br /&gt;- Funchal.&lt;br /&gt;- Claro, Funchal. Que nome.&lt;br /&gt;Luan continuava disposto a não dar tréguas.&lt;br /&gt;- Pai, o que é costela?&lt;br /&gt;Em resposta o pobre e cansado pai arrancou do bolso uma nota de dez reais e a balançou no ar.&lt;br /&gt;- Olha só. Vamos gastar tudo em sorvete?&lt;br /&gt;- O senhor não respondeu: costela, o que é costela?&lt;br /&gt;- Está bem. Você ganhou. Costela, ou melhor, costelas, são esses ossos que temos aqui nas costas.&lt;br /&gt;No que falava, Pantolfo se posicionou de lado e, com o braço esquerdo, tentou indicar as vértebras à linha média no ventral do tronco.&lt;br /&gt;- Está vendo?&lt;br /&gt;- Não senhor.&lt;br /&gt;- Tudo bem. Vamos voltar ao sorvete? Você falou em morango e abacaxi...&lt;br /&gt;O menino, porém, andava longe. &lt;br /&gt;- Droga! Agora acho que “pirei”...&lt;br /&gt;Pela segunda vez Pantolfo voltou a arregalar os olhos. Fixou o rosto do filho como nunca havia feito até então. Não queria acreditar no que acabara de ouvir.&lt;br /&gt;- Acha que o quê?&lt;br /&gt;- Pirei...&lt;br /&gt;- Explique “pirei”.&lt;br /&gt;- Todos os meus amiguinhos da escola falam: pirei quando vi a professora levantando a calcinha no banheiro, pirei quando minha madrasta chegou e me pegou batendo uma punheta. Pirei quando o diretor me pegou mijando, de pau duro, na parede da secretaria...&lt;br /&gt;- E no seu caso, como é que você acha que pirou? &lt;br /&gt;- Tio Léo veio dormir aqui em casa quando o senhor viajou.&lt;br /&gt;- E dai?&lt;br /&gt;- Trouxe com ele a tia Berenice. Eu escutei os dois conversando lá no quarto da Maria. Tio Léo disse e mamãe também ouviu quando ele falou que a tia Berenice era a costela dele. Tia Berenice saiu da costela do tio Léo, pai?&lt;br /&gt;O telefone tocou. Pantolfo quase à beira de um ataque de nervos (não tinha mais saída para tantas perguntas e, sobretudo, empombado com a sagacidade e a inteligência do primogênito), deu um pulo do sofá e correu atender. Graças a Deus havia sido salvo pelo gongo. Mais um bloco de perguntas e entraria em pânico. Do outro lado da linha alguém procurava pelo Luan.&lt;br /&gt;- É seu amigo navio.&lt;br /&gt;O pequeno franziu o cenho.&lt;br /&gt;- Meu amigo navio? Eu não tenho nenhum amigo navio, pai.&lt;br /&gt;O infeliz levou as mãos à cabeça. Não sabia mais o que fazer, ou dizer. Na verdade, sua vontade se constituía numa só: arrancar os poucos fios de cabelo e sair correndo feito um louco pelo meio da rua. Optou por gritar o nome do coleguinha e pronto. Assunto encerrado.&lt;br /&gt;- Funchal, Funchal. É o Funchal...&lt;br /&gt;- E por que o senhor chamou meu amigo Funchal de navio?&lt;br /&gt;Teve vontade de explicar ao sapeca que Funchal era um transatlântico que ele vira atracado no porto, quando voltava para casa. E, coincidentemente, seu amiguinho tinha o mesmo nome desse navio. Conteve o ímpeto a tempo. Sabia, de antemão, que as explicações, se as fosse dar, não se restringiriam só a isso.    &lt;br /&gt;- Escuta aqui, seu espertinho. Atenda ao telefone e deixe de conversa fiada. Vou lá fora comprar cigarros.&lt;br /&gt;-   Cigarros? Para quem? O senhor não fuma!... E o meu sorvete? Cadê o dinheiro que o senhor tirou do bolso e ia me dar para comprar sorvete?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                                                          Anjo noturno&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bernardo Fede Chulé sabia quando a vizinha gostosona do 301 estava em casa. Morava no 201, o que lhe proporcionava, na pacífica contemplação dos sons produzidos por ela, uma viagem ao faz de conta onde meditações bucólicas embaraçavam sua alma de homem solitário. De repente se via no meio da cena, como se estivesse lá em cima, ao lado dela, igual um poeta sentado e embevecido com o sussurro das árvores docemente agitadas pelo calmo sibilar do vento.&lt;br /&gt;A misteriosa moradora - dona de um corpo escultural e perfeito - reunia todos os encantos do ser ideal com os quais qualquer sujeito normal sonharia. Em razão disso, Bernardo Fede Chulé se tornou perdidamente apaixonado. Uma paixão delirante, inconseqüente, inexplicável, que impregnava nas paredes pequenos nuances de senilidade misturados com momentos de furor e de ciúme mesclados com pitadas de reviravoltas de ternura e lágrimas.&lt;br /&gt;A linda chegava sempre por volta das 5 horas da manhã. Estivesse dormindo ou não, ele acordava com o barulho dos sapatos dela nos degraus. Moravam, ambos, num prédio antigo, de três andares onde se acessava as residências por uma escada de corrimão amarelo. Logo que entrava em casa a jovem ia ao banheiro. Ouvia a tampa da privada sendo abaixada às pressas e, depois, a descarga acionada. Em seguida ela se dirigia para o quarto. Livrava os pés dos sapatos altos e os toc, toc, toc, toc, contra o piso de cerâmica cessavam. Abria algum tipo de guarda-roupas ou algo semelhante, o que produzia um diálogo rústico entre o ato de ser aberto e o ranger das dobradiças como o de um gato assustado soltando um miado fora de tom.&lt;br /&gt;Bernardo Fede Chulé imaginava, a partir desse instante, que ela se despia completamente das roupas usuais. Tinha início uma série de andanças calmas e suaves como o de um desabrochar de flores. Naturalmente a catita circulava nua, ou só de calcinha. Tudo não passava de simples deduções devido à convivência, o apuro dos ouvidos e a meticulosidade nas observações. Do quarto ela entrava no banho. Abria a torneira. Sobressaiam, então, os ruídos da porta do box sendo acionada, do chuveiro quente ligado e da água escorrendo pelo ralo. O fragor desse asseio corporal durava meia hora, quarenta minutos, às vezes mais.  Outros estalidos de menor importância vinham em auxílio das repetições desses sons, até que inesperadamente se tornavam fracos como se a donzela sumisse em pleno ar. Mas não. Em meio ao curto silêncio, ela logo dava sinais de que estava lá, bem viva e esvoaçante. Ligava a televisão. Vozes e tiros, gemidos e berros substituíam a calmaria reinante. Ela surfava nos canais à procura de algo que preenchesse vazios ou espantasse a solidão.&lt;br /&gt;O passeio durava um segundo. Logo esquecia o controle e se atinha ao reprodutor de cds. A voz adocicada de Ana Carolina (ela adorava Ana Carolina) tomava conta do ar, se misturava à magia da quase manhã, perdia a timidez e saia pela janela como leve brisa balouçando ao acaso. Bernardo Fede Chulé, embalado por essa tranqüilidade inabitual e, inebriado pela voz da intérprete, dava a seus devaneios uma cor risonha, saia literalmente do chão, como se flutuasse. Voltava à vida quando os ponteiros do relógio passavam das duas da tarde.&lt;br /&gt;Uma bela madrugada, por volta das quatro da matina, ele acordou com passos diferentes no corredor. Não os dela, mas de alguém oposto aos hábitos e costumes a que estava acostumado. Apurou os sentidos. Ouviu, então, a voz grave de um homem e tal constatação bastou para lhe fazer mergulhar em horríveis visões. Seu mundo caiu. Desmoronou, veio a baixo. A sedutora moradora do 301, realmente, trouxera consigo um estranja à tira colo. Estava patente a sua presença no pedaço e, por mais que quisesse, não poderia simplesmente fazer de conta que não se importava.  Deixar a coisa pra lá, meter o travesseiro sobre o rosto e tentar conciliar o sono, bem sabia, seria humanamente impossível. &lt;br /&gt;Afinal, de onde vinha esse cuidado sem razão, por que, essa preocupação descomedida com a moça? Não era nada sua, nem um simples laço de amizade mantinha com ela. Que ganharia se metendo em sua vida? Sabia que a ocupante do apartamento acima do seu se assemelhava a uma dessas deusas hollyhoodana só vista nos cinemas, e daí? Vezes sem conta forçara encontros, contudo, nesses instantes trocavam apenas ligeiros “olas” insossos e, uma vez, uma somente, num desses esbarros fugidios, ela lhe dirigiu um sorriso seco e sem a indicação de que pretendia manter amizade duradoura ou qualquer coisa equivalente.&lt;br /&gt;Entretanto, nesse dia, a ida daquela graciosa para a cama, com o tal sujeito que viera com ela, avançou para seus tímpanos como um cortejo melodramático aos sons de uma canção sombria e brutal. Não a de Ana Carolina, mas uma melodia simultaneamente dura e solene, onde se misturava o pensamento fixo enroscado nos dois abraçados, atarracados quem sabe, num beijo, rolando, por certo, sobre os lençóis e os gritos de prazer daquela fêmea, durante o ato e, após, saciada pelo apogeu do gozo supremo, o descanso merecido. Essa loucura aparentemente infantil fez com que seus pensamentos desordenados explodissem em ondas de um frenesi impetuoso. &lt;br /&gt;Bernardo Fede Chulé se viu em meio a uma multidão horrorosa, como se tivesse sido atirado à sanha de monstros de toda espécie reunidos ao seu redor. Ao quadro lúgubre, se juntaram barulhos ensurdecedores, gemidos, gargalhadas, gritos e urros distantes que outros tantos pareciam responder. A formosa do 301, a partir desse momento, perdera, para ele, seu caráter de nobreza. Deixou de ser a princesa que morava em um castelo de mimos dentro de seu coração desafortunado e vazio para se transformar numa figura ignóbil e grotesca. &lt;br /&gt;Bernardo Fede Chulé resolveu que era hora de esquecê-la de vez. Para sempre. Colocar uma pedra enorme em cima. Assim pensando, caminhou até o frízer, abriu uma cerveja bem gelada, estourou umas pipocas no micro ondas e  botou um pornô pra rolar. Na sala, diante do aparelho de dvd, para não ficar na mão e a ver navios, fartou os desejos incontidos, ressentidos, num cinco contra um em homenagem (não a menina do 301), à musa graciosa que brilhantemente coadjuvava no filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demônios eternos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Q&lt;br /&gt;UANDO EU ERA PEQUENO, TINHA UM MEDO  terrível da Cuca, que vovô João, dizia a toda hora, viria me pegar, se eu fizesse alguma coisa errada e me levaria dentro de um saco preto para um lugar muito distante. E eu fazia muita coisa errada, porque era criança e criança não tem o discernimento das pessoas adultas, de saber distinguir o que é certo e o que é errado, de diferenciar entre o feio e o ridículo, ou de separar o bem e o mal, como o joio do trigo. E fazendo coisas erradas, entrava na “bainha do facão”, uma espécie de protetor de couro duro onde vovô João guardava um facão enorme, usado para cortar cana na vendinha onde comercializava pasteis, quibes, coxinhas e caldo de cana. Essa bainha de facão odiosa entrava em cena quando eu o tirava do sério. Se transformava, de repente,  numa espécie de cinto que comia sem dó nem piedade por cima do lombo. &lt;br /&gt;Lembro que vovó Marta acordava muito cedo para fritar uma porção de salgados, (já preparados na véspera) para, às sete horas em ponto, a pequena portinha de ferro estar escancarada ao publico e vovô João aumentar o volume dos seus trocados nos bolsos. &lt;br /&gt;Morávamos em frente a um grupo escolar, onde, aliás, eu também estudava, na parte da tarde. Na hora do recreio, o velho Airão abria a porta de madeira. Um bando de meninos e meninas, entre afoitos e alegres, corria a atravessar a rua movimentada para pegar um lugarzinho melhor na vendinha de meus avós. A maioria da garotada ficava do lado de fora, comendo sentada na calçada, porque não cabia todo mundo lá dentro. À noite, na hora que fechavam, os dois velhinhos faziam a festa, e antes de ser servido o jantar, ficavam num canto do quarto contando um amontoado de moedinhas. Depois separavam cada uma pelo seu valor correspondente e depositavam em pequenas latas de leite em pó. Só então, depois de cumprido esse ritual, os dois se separavam. Vovô ia esconder o dinheiro atrás de uma velha estante, que havia no quarto do casal e vovó Marta seguia para a cozinha, para preparar o jantar. Geralmente a última refeição se constituía numa suculenta panela de sopa com os mais variados tipos de legumes. &lt;br /&gt;Mas a tal da Cuca, meu Deus, essa praga povoava meus dias de manhã à noite.  Seguia meu rastro pelos corredores, se fazia presente na sala de aula, me vigiava pelas esquinas e estava sempre por perto, preste a dar o bote e me matar. O Orlando, um amiguinho meu, que estudava na sala ao lado, era paralítico, se movimentava com a ajuda de dois paus de arrimo e praticamente todos os dias, quando tocava a campainha para o intervalo, costumávamos trocar o lanche das nossas lancheiras. Ele falava, com o rosto tomado pelo pavor, que na sua casa havia um bicho “danado de medonho”, que seus pais diziam que se não estudasse direito e repetisse o ano, ele seria entregue tão logo soubessem da notícia pelo boletim. Era o Saci Pererê, um menino mal encarado, filho do demônio, que andava pulando numa perna só e fumava um cachimbo comprido cheirando a enxofre. Com a Aninha, uma outra coleguinha de classe (que sentava do meu lado direito) não acontecia diferente. Aninha morava com uma tia chata, de cabelos avermelhados, duas casas abaixo da minha. Não tinha mãe nem pai. Eles morreram quando atravessavam o leito da via férrea, num acidente horrível, envolvendo o  carro  de passeio  onde viajavam e o Litorânea, um trem expresso, de passageiros, que cruzava a cidade, tarde da noite, vindo da capital, com destino ao interior. O bicho da Aninha era o Boi da Cara Preta. A simples menção desse troço a deixava em pânico, aos prantos e em estado de choque. &lt;br /&gt;Porém, o tempo passou. A infância cedeu lugar ao mundo adulto. Cresci, virei gente grande. Casei. Arranjei um monte de filhos. Hoje, olhando para eles, percebo que a mesma história dos tempos dos meus avós, das tias e dos pais dos meus amiguinhos de infância continuam se repetindo, indefinidamente. E com certeza, serão eternos, movidos pelo medo e pelo ressentimento que cada um carrega dentro de si. Serão imortais esses maus nascidos, alimentados pelas línguas dos nossos entes queridos e amados, que ainda conseguem ressuscitar e fazer desses demônios, bichos de aparências indescritíveis, com sete cabeças e mil braços, invencíveis e indestrutíveis como os fantasmas iracundos que estão dentro de nossos corações.&lt;br /&gt;A Cuca não pega, o Boi da Cara Preta não assusta nem leva ninguém para lugar algum. Tampouco o Saci Pererê, e tantos outros...&lt;br /&gt;Nada disso existe. Esses seres inexpressivos são figuras mitológicas, sem alma, frutos de mentes doentias que lhes deram vida e forma, movidos por uma imaginação tacanha. O nosso medo bobo, por eles todos, está bem aqui dentro do peito, escondido, pronto para entrar em cena a qualquer momento. Eu sou a Cuca, o Orlando o Boi da Cara Preta, a Aninha o Saci, ou vice-versa. Nós próprios criamos um receio que não existe e vivemos com ele, como se fosse uma doença incurável, para o resto de nossas vidas. A Cuca, definitivamente não  estará, jamais, espreitando quem quer que seja, no final do corredor, nem o Saci Pererê entrará por uma janela que ficou aberta, como igualmente o Boi da Cara Preta não correrá, desembestado, em volta da casa, intencionado em levar, com ele, preso aos chifres, uma menininha linda que não quis dormir de luz apagada. A escuridão sombria é o pavor medonho do nosso quarto. Somos nós mesmos, idiotas petrificados, refletidos no espelho do nosso terror. Como a luz benigna que se acende, também vem de dentro de nós e se espalha como o sol bonito lá fora, por todo o infinito que o Criador nos deu de presente. Esses demônios todos têm a vida que lhes damos e respiram o ar que colocamos em suas narinas. Como fazia vovô João. Por isso, essas criaturas se movimentam segundo nossas vontades. Esses bichos-papões que andam, à solta, pelos becos e guetos de nosso dia-a-dia, a amedrontar, hoje, nossos filhos, e amanhã, e certamente depois, tirarão o sossego e o fôlego de nossos netos e bisnetos, estão e estarão vivos dentro de cada um que os queira alimentar. Estão presentes em nosso caminho, como aquela gigantesca árvore do mal fazendo uma sombra escura cair, pesada, por sobre nosso futuro. Precisamos, pois, cortá-la, para que não tenha mais vida plena. Arrancar, de uma vez, a raiz maligna que nasce do centro da nossa alma e brota, como se tivesse mil tendões.  Exorcizar esses demônios de maneira que só restem deles, uma lembrança longínqua, esquecida, apagada, atenuada para sempre, num canto ermo da nossa memória. &lt;br /&gt;                  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Golpe de mestre &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt; MENINO ENGRAXAVA SAPATOS NO CENTRO DA cidade e naquele momento cruzava a ponte voltando para casa com sua caixinha debaixo do braço. De repente seus olhos argutos e muito vivos avistaram a peça que descia rio abaixo, ao sabor do vento morno da tarde ensolarada. Como um doido danou a correr enquanto gritava para o pessoal que bebia cerveja na birosca do Waldemar, em torno de um outro grupinho que tocava cavaco, surdo, reco-reco e pandeiro:&lt;br /&gt;- O sofá, o sofá, venham ver, o sofá!...&lt;br /&gt;A rapaziada se pôs de pé e acorreu para onde o moleque apontava o precioso achado. Em pouco tempo, uma multidão de moradores da Favela do Elefante, ao ouvir a gritaria e perceber o corre-corre, engrossou a massa dos curiosos. Era assim: qualquer novidade mudava o quadro daquelas famílias humildes. Num abrir e fechar de olhos, o cotidiano de cada um saia do marasmo e explodia para uma espécie de alvoroço inusitado. A miséria se escondia num canto e em seu lugar nascia o momento mágico do irreal e do ilógico. Saídos de ruelas e becos os mais diversos, homens de bicicleta e sem camisa, mulheres com crianças no colo e agarradas às barras de seus vestidos imundos, paravam os afazeres. Até os comerciantes cerravam as portas de suas vendas e lojinhas para se juntarem à raia miúda que, em polvorosa, se acotovelava em fila tripla, espalhada por toda a extensão ribeirinha com a finalidade de bisbilhotar o que o rio trazia em seu leito.&lt;br /&gt;Misturado em meio a tubos de óleo, pedaços de sacolas, sacos plásticos, latas de cerveja e refrigerante, garrafas descartáveis, restos de acampamentos e piqueniques, lá vinha, boiando, meio capenga, o enorme sofá vermelho de curvim. Nessas alturas alguém lembrou de chamar o Rubião Mathias, líder comunitário que junto com um vereador local e um representante do prefeito faziam um trabalho voluntário exatamente no sentido de conscientizar os cidadãos da periferia a não jogarem dejetos no velho rio que às vezes dava a impressão de estar morrendo em lenta agonia. Mas não estava. Quando chovia por muitas horas, a favela virava um inferno. Se o temporal perdurasse por muitas horas, as águas subiam acima do nível normal, atravessavam o asfalto, engarrafavam o trânsito, invadiam os barracos e muitas vezes deixavam famílias inteiras ao desabrigo. Afora o desespero de perderem o pouco que possuíam, a tragédia, nessas ocasiões, não vinha sozinha. Trazia, consigo, a desgraça e a incerteza de um amanhã cheio de dores. A maioria das cabeças-de-porco que ocupavam praticamente todo o terreno no qual se fundava o vilarejo dos casebres, eram construídas com caixas de papelão, depois envoltas em plásticos e cobertas com folhas de zinco.  Muitas vezes essas construções precárias não resistiam ao temporal e, em conseqüência, vinham abaixo e com eles à desgraça de alguém aparecer morto, porque na hora precisa, (tentando resgatar um aparelho de tv, roupas de cama e até comida) não atinavam com o bom senso de largar tudo e escapar a tempo de salvar a pele. Mas nesse dia não havia chovido. O dia transcorrera calmo e sossegado. O rio apresentava um curso coberto por uma película oleosa, onde uma variedade de microorganismos perigosos deveriam estar proliferando a céu aberto. Sem contar nos cinco milhões de metros cúbicos de sedimento, lixos e efluentes de esgotos industriais e domésticos, bem ainda coliformes fecais e descargas de outros afluentes que terminavam se juntando a ele, a rotina seguia sua seqüência normal.  &lt;br /&gt;Não fosse, igualmente o pestinha ter dado o alarme, a favela findaria o resto da tarde em clima de total tranqüilidade:&lt;br /&gt;- O Sofá, o sofá. Venham ver!...         &lt;br /&gt;O que teria de tão extraordinário naquele cacareco mal-ajambrado para movimentar uma centena de desocupados e vadios em torno de sua presença? Por que a favela em peso se levantou num salto gigantesco para lhe colocar os olhos em cima? Não era apenas um velho móvel vermelho de curvim? Que estranho mistério o envolvia? &lt;br /&gt;As respostas estavam num fato acontecido algumas semanas atrás. Um traficante conhecido como “Chiquinho Fumaça” havia sido preso junto com seu bando num arrastão que a policia fizera, sem aviso, em sua brejada. Os representantes da lei, contudo, não encontraram nada do que procuravam, ou seja, cocaína, pedras de craque e maconha. O “Chiquinho” comandava uma boca de fumo da pesada no coração da favela, mas na hora do “pega prá capar”, não havia nada que o incriminasse. O sujeito parecia ter trato com o coisa ruim. Algumas horas antes de ser levado para a carceragem, como que adivinhando e antevendo os acontecimentos, operou um processo de “engravidamento” no sofá, ou seja, acondicionou tudo que se relacionava ao seu comércio ilegal numa espécie de fundo falso, bem camuflado. Contratou um carroceiro de fora da favela e transportou o “material”, incluindo dinheiro, jóias e uma boa quantia de dólares para a casa de uma de suas amantes que morava numa outra favela, não muito distante, também por coincidência, à beira do mesmo rio e, cujo endereço até o próprio diabo desconhecia. O interessante, nessa história, é que a moça que receberia o sofá sabia que o companheiro vivia às margens da lei, contudo, não atinava com o segredo valioso que ele escondia dentro de si.  &lt;br /&gt;Na segunda noite, contudo, o inesperado aconteceu. O “Chiquinho” apareceu enforcado misteriosamente em sua cela. Sua morte foi comentada em todos os jornais e programas de televisão. A amante, logo que soube dos fatos, e temerosa de sobrar uns respaldos de encrenca, resolveu ir embora da cidade. Fez as malas e antes de abandonar, de vez, o barraco, achou por bem “dispensar” o sofá, atirando o ao rio.&lt;br /&gt;Quando a noticia da morte de “Chiquinho” se espalhou pela favela do Elefante, muita gente, na calada da noite, resolveu tomar posse dos bens do falecido.  Todos sabiam que o camarada tinha culpa no cartório.  Só não sabiam como os homens da lei não o haviam flagrado com a boca na botija.  Em meio a tanto disse-disse, a vizinhança e os próprios colegas, por unanimidade, concluíram que o espertalhão havia “enxertado”, de alguma forma, o velho sofá vermelho de curvim e sumido com ele, sabe Deus, para onde. A prova disso é que a policia ficou a ver navios...   &lt;br /&gt;Depois de alguns dias, caso passado, outros investigadores retornaram à favela a fazer perguntas. Claro que uma pá de gente lembrou do carroceiro e da carroça fretada. Claro que uma pá de gente chegou a ver, realmente, o sofá vermelho saindo, numa boa. Porém, nesses lugares, ainda impera a lei do silêncio. Conclusão: mesmo que algum idiota tivesse visto ou presenciado qualquer tipo de manobra estranha, faria, com certeza, vistas grossas, ou colocaria um zíper na língua para não ser assassinado e amanhecer com a boca cheia de formigas.   &lt;br /&gt;Mas na tarde daquele dia, a porra do menino voltava da cidade, onde trabalhava engraxando sapatos. De repente, no meio da ponte, seus olhos argutos e muito vivos avistaram a peça que descia rio abaixo, ao sabor do vento morno da tarde ensolarada:&lt;br /&gt;- O sofá venham ver. O sofá do Chiquinho está vindo ali, venham, venham depressa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tudo culpa da pia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;T&lt;br /&gt;ENHO UM AMIGO COMUM, O PEDRA NA VESICULA que, impreterivelmente, nos finais de semana, não deixa de beber a sua cachaça. Chova ou faça sol, haja algo ou não para comemorar, lá está ele, fiel a sua companheira.&lt;br /&gt;Outro dia, ao socorrer uma jovem que fora atropelada no trânsito, fui parar, quase as duas da madrugada, num pronto socorro desta cidade. Para surpresa minha quem não encontro na recepção, com a cara toda arrebentada preenchendo uma ficha para ser atendido? Ele mesmo, Pedra na Vesícula. Entre espantado e boquiaberto (ou mais boquiaberto e desesperado pelo fato de ter me visto), lhe perguntei, de chofre, o que havia acontecido. Meio estonteado e titubeante, na verdade mais para lá do que para cá, o coitado explicou com uma voz bastante rouca:&lt;br /&gt;- Foi a pia. Se estou aqui, agora, neste estado lastimável que você está presenciando, agradeço a ela. Unicamente a ela. &lt;br /&gt;- A pia? Mas que pia?&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, Barbosinha. Você não sabe o que é uma pia?&lt;br /&gt;- Claro que sei o que é uma pia. Mas que relação pode haver entre uma pia e esse seu estado deplorável?&lt;br /&gt;- Vou tentar explicar. Como sempre faço, depois do serviço, passo na birosca do Aleijadinho. Tomo umas geladinhas com alguns amigos de copo para calibrar o organismo debilitado. Depois de algumas boas rodadas, acabo de chegar no lar doce lar. Entro direto para o banho, janto, vejo um pouco de novela na televisão e então vou para um quartinho que tenho nos fundos. Não sei se você sabe, mas eu construí um cômodo nos fundos lá de casa. Na verdade, fiz uma puxadinha para a Narcisa, minha filha, que vai casar até o final deste ano. Lembra da Narcisinha?&lt;br /&gt;- Mais ou menos. Quero saber da tal história da pia. Não enrola e conta logo.&lt;br /&gt;- Calma, homem, eu chego lá. Como estava dizendo, me dirigi para o quartinho. Sempre que resolvo “embriagar” os ossos, encharcar a alma, me desligar dos problemas, me tranco nesse aposento e “meto bronca”. Bebo até o copo fazer bico e a garrafa pedir arrego. Minha mulher, a Rita, que você já conhece, não aprova a idéia. Aliás, ela odeia quando bebo alguma coisa, mesmo que seja uma xícara de café. Acredito até que pretendia “tirar uma” e eu não estava muito afim. Não é todo dia que você está com vontade de “dar no coro”, e esquentar aquelas partes secretas, não é mesmo? Conclusão: a filha da mãe da mulher me pegou de porrada e a coisa acabou nesse quadro que o companheiro está vendo com os próprios olhos.&lt;br /&gt;- Mas espera lá. Você não falou que não foi a Ritinha?&lt;br /&gt;- De fato.&lt;br /&gt;- Então?&lt;br /&gt;- As “cacetadas” que a Ritinha me deu, você sabe, não fizeram nem cosquinha. De mais a mais, tapinhas de amor não doem. A culpa realmente foi da droga da pia.&lt;br /&gt;- Está bem, quero explicação. Sou todo ouvidos.&lt;br /&gt;- Vou procurar ser o mais claro possível. Na verdade, tenho sempre em casa, dez ou doze garrafas de aguardente, da “boa”. Coisa de primeira. Acontece que a Ritinha bateu na porta do quartinho e me chamou para ir deitar. Iniciamos uma pequena discussão. Entre tapas e beijos ela resolveu medir as forças e avançou, resoluta para cima de mim, de cabo de vassoura e me obrigou a jogar as garrafas fora. Imagine... &lt;br /&gt;- Você não obedeceu, não é mesmo?&lt;br /&gt;- Nem poderia. Como já estava grogue, ou para lá de Bagdá, peguei a primeira garrafa, bebi um copo e joguei o resto na pia...&lt;br /&gt;- Continue.&lt;br /&gt;- Peguei a segunda garrafa, bebi outro copo e joguei, também, o que havia sobrado dela, na pia. Parti para a terceira garrafa e aí fiz o seguinte: mandei para dentro o resto da água que os passarinhos não bebem e joguei o copo na pia. Voou vidro para tudo quanto é lado. Com a quarta garrafa não foi diferente. Bebi na pia e joguei o resto no copo...&lt;br /&gt;- Como é que é?&lt;br /&gt;- Você já vai entender: na quinta garrafa, eu peguei uma tigela cheia de tira-gosto e atirei para o cachorro.&lt;br /&gt;- Para o cachorro?&lt;br /&gt;- É. Mas ele não estava a fim. Deu uma cheirada básica e foi embora. Meu cachorro não se dá bem com o cuminho.  Depois disso, eu joguei uma tampinha nos cornos da Ritinha. Ela fica puta da vida, perde o juízo, quando eu atiro uma tampinha no seu rosto. Não sei o que tem contra as tampinhas. Acredito que seja trauma de infância. O pai dela, que já morreu, meu sogro, que Deus o tenha, trabalhava numa fabrica de rolhas. Pois então. Enquanto ela se desvencilhava da tampinha, eu aproveitei e ingeri, de uma só vez, toda a bagaceira. Depois, passei a mão na sexta garrafa, meu chapa. Corri para a pia, corri com vontade e, antes de chegar nela, bebi seu conteúdo. Bebi na moral, sem ao menos respirar. Ato contínuo joguei o copo no resto. &lt;br /&gt;- O quê? &lt;br /&gt;-  O copo no resto, cara. Joguei o copo no resto. É difícil entender o meu papo?&lt;br /&gt;- Vá em frente...&lt;br /&gt;- A sétima, meu prezado, peguei no resto, enfiei o dedo nos olhos da nossa empregada, a Lucrecinha, que veio correndo, quando se apercebeu do bafafá comendo solto e, antes dela me xingar todinho, bebi a pia.&lt;br /&gt;- Bebeu, bebeu a pia?&lt;br /&gt;- Isso mesmo. Na seguinte, nem lhe conto! Que loucura! Passei a mão no copo, arranquei a pia do lugar e a arremessei com tudo, contra a nona garrafa. O troço caiu no chão e explodiu como uma bomba, dessas caseiras. &lt;br /&gt;- Você ficou louco? Pirou de vez?&lt;br /&gt;- Calma, deixa eu acabar de concluir. &lt;br /&gt;- Ta legal. Prometo não interromper mais.&lt;br /&gt;- Pois bem. Por derradeiro, joguei a décima garrafa no copo, tropecei na décima primeira e me atirei, incontinente (enquanto segurava a décima segunda garrafa debaixo dos braços), de cabeça, na pia.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gêmeas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;B&lt;br /&gt;ilico Tanajura inventou de pegar um desses cofrinhos de plástico que essas financeiras distribuem nas ruas a título de propaganda como chamarisco para angariar clientes novos. Caiu na besteira de levá-lo para casa. Um fiasco. Logo que meteu a cara dentro do apartamento, topou, na sala, com Crístiam, uma das suas filhas. A pequena correu beijar o pai e, ao fazê-lo, descobriu o cofrinho num dos bolsos do paletó.&lt;br /&gt;- É meu, papai, é meu?&lt;br /&gt;- Sim trouxe para você.&lt;br /&gt;- Oba, oba!...&lt;br /&gt;Lembrou, então, da Cristiane, gêmea da Crístiam. Coçou a cabeça. Acabara de criar um problema muito sério. Tentando remediar a situação, saiu correndo atrás da filha, mas a pequena sapeca já havia sumido pela porta da cozinha. Certamente iria levar a novidade para a amiguinha de escola que coincidentemente também era vizinha e morava dois andares acima. Tarde demais. O que estava feito, não tinha como desfazer ou remediar. &lt;br /&gt;Pediu uma cerveja à empregada e enquanto a Lurdinha preparava a bebida, foi ao quarto e se livrou do sapato incômodo e do terno. Odiava sapato social. Terno, então, era a morte. Meteu os pés num chinelo, vestiu uma bermuda meio surrada e pegou uma camiseta na gaveta da cômoda. Retornou à sala. Ligou a televisão. Passeou pelos canais. Nada de bom. Lembrou que comprara um DVD e havia um filme na estante que ainda não assistira. “Vai ser agora”.&lt;br /&gt;Lurdinha chegou com a cerveja e um potinho de porcelana com azeitonas verdes, seu tira-gosto preferido. A serviçal estendeu uma toalhinha e acomodou tudo numa mesinha de centro. &lt;br /&gt;- Mais alguma coisa, doutor?&lt;br /&gt;- Minha mulher ligou?&lt;br /&gt;- Chegará às oito. Hoje é quarta-feira e o senhor sabe, ela tem dentista.&lt;br /&gt;- Cadê minha outra filha? A Crístiam eu sei que está na casa da Samara. E a Cristiane?&lt;br /&gt;- Foi ao shopping com dona Esther, sua sogra.&lt;br /&gt;Bilico apertou o play. Acomodou as costas numas almofadas e botou as pernas para cima. Depois de um longo dia, alguns minutos de relaxamento no conforto aconchegante do velho lar. Sem mulher, sem criança, sem a sogra vigiando cada gesto seu... Que maravilha, ele sozinho, como um rei, só com a empregada a seu serviço. Bastava estalar os dedos e lá vinha a coitada correndo, solícita, atenciosa, um amor de pessoa. O filme começou.&lt;br /&gt;Bilico Tanajura gritou a Lurdinha que lhe renovasse as azeitonas e trouxesse mais uma geladinha.&lt;br /&gt;O filme estava na sua melhor parte. De repente entrou na sala a Crístiam agarrada nos cabelos da Cristiane e a avó na cola, fazendo mais barulho que as duas, na tentativa de acalmar os ânimos entre as briguentas. &lt;br /&gt;- Parem com isso, meninas, parem, pelo amor de Deus.&lt;br /&gt;Crístiam não arredava pé. Continuava mantendo a irmã submissa as suas garras, presa pelos cabelos. Cristiane, sem saída, praticamente sendo arrastada, gritava e chorava desesperadamente. Bilico deu um salto do sofá e olhou feio para as duas.&lt;br /&gt;- Alguém pode me dizer o que é que está acontecendo por aqui?&lt;br /&gt;- Ela pegou meu cofrinho.&lt;br /&gt;- Ele é meu. Eu não peguei.&lt;br /&gt;- Papai trouxe e deu para mim.&lt;br /&gt;- Mentira. Esse aqui é meu. Fui eu quem achou no bolso de papai.&lt;br /&gt;E tome puxada de cabelo pra cá, beliscada pra lá, chutes e tapas.&lt;br /&gt;- Bilico deu um berro.&lt;br /&gt;- Calmaaaaaaaaaaaaaaa!... Querem, por favor, me escutar, as duas?  &lt;br /&gt;Ambas se aproximaram. A sogra de Bilico aproveitou o ensejo e veio na onda. Botou o dedo no rosto do genro.&lt;br /&gt;- Você não tinha nada que ter dado essa porcaria a Crístian. Olha só a confusão.&lt;br /&gt;- Dona Esther, por favor, as filhas são minhas.&lt;br /&gt;- Mas eu sou a avó.&lt;br /&gt;- E eu o pai, esqueceu?&lt;br /&gt;- Vá à merda...&lt;br /&gt;- Se a senhora for comigo, cheiraremos juntos!...&lt;br /&gt;A velha partiu para cima do rapaz, mas foi contida pela filha mais a empregada que entravam exatamente na hora que o circo começava a querer pegar fogo. &lt;br /&gt;- Mãe, por favor, Lico, tenha modos.  Por que essa confusão toda?&lt;br /&gt;- Por conta de um cofrinho que esse energúmeno trouxe da rua e deu a Crístiam. Esqueceu que tem duas crias. Esse negócio de preferência é um caso sério.&lt;br /&gt;- Não tenho preferência, ô velha jararaca, caninana. Gosto das duas com a mesma intensidade. Vai ver se estou na esquina...&lt;br /&gt;- Me dá um cabresto que se você tiver lá aproveito e trago no laço, para não perder a caminhada.&lt;br /&gt;- Chega. Silêncio, os dois. Mãe, para o quarto.&lt;br /&gt;Dona Esther não se fez de rogada.&lt;br /&gt;- Burra...&lt;br /&gt;- Mãe!...&lt;br /&gt;A velha saiu furiosa, indignada, soltando marimbondos pela boca. &lt;br /&gt;- Você não acha que já está bem grandinho para ficar implicando com minha mãe? Olha a idade dela.&lt;br /&gt;- Querida, foi ela quem começou. Eu estava quieto, no meu canto, tomando minha cerveja, vendo meu filme... Pergunte a Lurdinha.&lt;br /&gt;A esposa de Bilico ia retrucar, mas Crístiam interrompeu a discussão.&lt;br /&gt;- Pai, quem é que vai ficar, afinal, com o cofrinho?&lt;br /&gt;Bilico fez uma cara de ternura e contemplou a jovenzinha que olhava para ele muito séria.&lt;br /&gt;- Você, quem é?&lt;br /&gt;- Sou a Crístian, pai.&lt;br /&gt;- Mentira. Ela é a Crístiam. Você é a Cristiane.&lt;br /&gt;- Não, pai, eu sou a Crístiam, ela é que é a Cristiane.&lt;br /&gt;- Prove.&lt;br /&gt;- Sou eu. Não está vendo?&lt;br /&gt;- Estou vendo duas meninas iguais. Vestidas iguais. Cabelos iguais. Olhos iguais. Quantos anos você tem?&lt;br /&gt;- Cinco.&lt;br /&gt;- E você?&lt;br /&gt;- Cinco.&lt;br /&gt;- Que cor é o seu sapato?&lt;br /&gt;- Preto.&lt;br /&gt;- E o seu?&lt;br /&gt;- Preto.&lt;br /&gt;- Você é a Crístiam. Ela é a Cristiane.&lt;br /&gt;- Não, pai, eu sou a Cristiane. Ela é a Crístiam.&lt;br /&gt;Bilico rodava com as duas em volta de si e começava uma brincadeira que dava gosto de ver. Homem de paciência chegou ali parou.&lt;br /&gt;- Agora quem é você?&lt;br /&gt;- Eu sou a Cristiane. Ela é a Crístiam.&lt;br /&gt;Voltou a se sentar no sofá. Tomou um gole de cerveja e em seguida se voltou para as gatinhas. &lt;br /&gt;- E agora?&lt;br /&gt;- E agora o quê?&lt;br /&gt;- Quem é você?&lt;br /&gt;Risos.&lt;br /&gt;- Eu sou a Crístiam, já falei, pai.&lt;br /&gt;- De novo? E ela?&lt;br /&gt;- A Cristiane, ora.&lt;br /&gt;Mais risos.&lt;br /&gt;- Tive uma idéia: vou dar o cofrinho a quem falar a verdade. Quem é a Cristiane?&lt;br /&gt;- Eu.&lt;br /&gt;- E ela?&lt;br /&gt;- A Crístiam.&lt;br /&gt;As duas irmãs voltaram a trocar puxões de cabelos.&lt;br /&gt;- Mentira, você é a Crístiam, eu sou a Cristiane.&lt;br /&gt;A esposa de Bilico vendo que não tiraria farinha com o marido, nem o deixaria fora do sério, virou as costas, rindo a mais não poder e foi cuidar de preparar o jantar. Lurdinha ainda retornou com mais um punhado de azeitonas e cerveja. A brincadeira entre os três seguia em frente, com a agravante de que cada uma delas queria provar ao pai, quem era realmente quem.&lt;br /&gt;- Eu sou a Crístiam.&lt;br /&gt;- Mentira dela, pai, a Crístiam sou eu. Ela é a Cristiane.&lt;br /&gt;- Cala a boca. Sua boba. Eu sou a Crístiam. Pai, ela é que é...&lt;br /&gt;Bilico brincou tanto com as duas que ambas só pararam com a algazarra na hora em que as panelas fumegantes chegaram e todos se prepararam para a última refeição do dia.&lt;br /&gt;- Pois bem. Como ninguém aqui me provou quem é quem, de verdade, eu confiscarei o cofrinho. A partir de agora ele é meu. Com licença, vou lavar as mãos.&lt;br /&gt;Saiu da sala levando o cofrinho. As mocinhas estavam inconformadas.&lt;br /&gt;- Viu só? Você mentiu para o papai. Eu sou a Crístiam.&lt;br /&gt;- Chata, burra, nojenta. Você é a Cristiane. Eu sou a Crístiam.&lt;br /&gt;A mãe ralhou deixando claro que durante o jantar não queria ouvir nem um pio. As duas mocinhas obedeceram. Todavia, continuaram a trocar farpas com os olhares carregados de insatisfação. Se ódio matasse, certamente morreriam, ambas, em conseqüência dele.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Heróis da persistência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt; PORTUGUES MANOEL ANTONIO QUER ENTRAR  de qualquer jeito para o Guinness. Pretende ficar um mês e quinze dias numa fossa cheia de merda só com a cabeça do lado de fora. Durante esse período sua alimentação será a base de pão misturado à água com açúcar e sal grosso. Na verdade, Manoel quer ultrapassar o recorde de um outro patrício seu, o Antônio Santos, que, aliás, já está com o nome gravado no mais famoso dos livros. O tal lusitano conseguiu ficar parado, feito estátua, exatamente vinte horas, onze minutos e dois décimos de segundos. Quando lhe contaram que havia quebrado o próprio recorde (nenhum outro antes havia tentado tal façanha), Manoel desmaiou nos braços de seu empresário e patrocinador. Foi levado às pressas para o hospital mais próximo da praça onde se exibia para uma multidão de curiosos. &lt;br /&gt;Ultimamente o rapaz de pouco mais de vinte anos anda reclamando com seu médico de fortes dores nas pernas e nos braços. &lt;br /&gt;No entanto, o que mais incomoda, são suas nádegas. Estão muito inchadas e a pobre criatura não está conseguindo sentar com tranqüilidade seu volumoso traseiro nem no colchão de água morna que ganhou de uma empresa que lhe deu mil e oitocentos euros, o equivalente a cinco mil reais para participar da interessante empreitada.&lt;br /&gt;Essa história dos portugueses querer bater recordes gigantescos não é de hoje. Remonta desde os tempos anteriores a Pedro Alvares Cabral, quando este navegador solitário nem pensava em descobrir que além de pau, havia mulheres bonitas e gostosas no Brasil. Recentemente, em Lisboa, ou mais precisamente numa praia de areia fina, em uma vila de pescadores, perto de Sesimbra, aconteceu um certame chamado de o “Torneio das Escadas”. Os participantes tiveram que subir mil degraus em apenas quatro minutos. Só dois chegaram ao topo. Outros cento e cinqüenta desistiram porque descobriram que à medida que subiam, sentiam fortes dores de cabeça e tonturas à altura das axilas.&lt;br /&gt;Mas a história não pára por ai: em Sintra, uma portuguesa, Maria da Lata, em vinte e cinco minutos, montada numa bicicleta, conseguiu atropelar quarenta e oito galinhas. Segundo o jornal Cabo Espichel, dessas quarenta e oito só duas tiveram morte instantânea. Dez passaram a usar muletas e trinta e cinco estão em cadeira de rodas. Em Tejo, um professor de educação física de uma escola da rede pública local e uma balconista de Cascais, ambos com trinta anos, se fizeram passar por médicos por quase uma década. Foram presos recentemente porque conseguiram fugir de um navio, em alto mar, disfarçados de botes-salva-vidas.&lt;br /&gt;Manoel Rodrigues, um outro português nascido e criado perto do Parque Nacional da Arrábida, mas atualmente residindo em Lisboa e trabalhando como faxineiro da Torre de Belém, também deverá colocar seu nome no Guinness. O cidadão em questão tentará dar a volta ao mundo plantando bananeiras e chupando laranja. Já o irmão dele, o Joaquim, que trabalha no Mosteiro dos Jerónimos, como vigia, pretende escrever um romance usando apenas a orelha direita, a despeito da brasileira da cidade de Campos, Ana Cristina de Lima Ferreira que escreveu um livro com a língua. Esse cidadão porá em suas histórias o belíssimo cenário das ruas estreitas de Alfama e do Bairro Alto, onde a trama toda se desenvolverá em dezoito capítulos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho nu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E&lt;br /&gt;u me considerava feio, cara, muito feio, até o dia em que  -, Mãe Santíssima –, não quero nem lembrar! Chega a me dar arrepios...&lt;br /&gt;- Continue.&lt;br /&gt;- A mulher chegou lá em casa, conversamos uma meia hora na sala, sobre os assuntos mais triviais, tomamos umas cervejas, comemos uns tira-gostos e depois começou a pintar um clima. Fomos para o quarto.&lt;br /&gt;-  Então valeu a pena?&lt;br /&gt;- Não tenho nada a reclamar. Correu tudo às mil maravilhas. Porém, na hora em que ela se dirigiu ao banheiro para lavar as partes pudentes e voltou sem roupa, enrolada numa toalha...&lt;br /&gt;- Espere ai. Deixa ver se entendi direito. Vocês transaram vestidos?&lt;br /&gt;- Mais ou menos.&lt;br /&gt;- Como, mais ou menos?&lt;br /&gt;- Na verdade, eu fiquei logo peladão. Estava em meu território e, em nosso território, ou bem ou mal, somos o rei, o manda chuva. Quanto a ela, logo que se deitou a meu lado, toda fogosa e doida para soltar a franga, pedi que arriasse a calcinha...&lt;br /&gt;- Arriasse?&lt;br /&gt;- É. Solicitei gentilmente que só tirasse a calcinha. Que ficasse de saia, blusa e sutiã.&lt;br /&gt;- E ela?&lt;br /&gt;- Achou estranho transar de roupa e tudo só tirando a peça intima.&lt;br /&gt;- Chegaram aos  finalmente?&lt;br /&gt;- Sem sombra de dúvidas. Ela, na cama, é divina,  maravilhosa.  Faz  gato e sapato com uma pica ereta e dura. Se não tivesse acontecido comigo, eu mesmo não acreditaria. A poderosa tem o dom e colocar o indivíduo para ir e voltar ao céu, umas trezentas vezes. Confesso que fiquei de quatro, queixo caído.&lt;br /&gt;- Conta a história da calcinha. Estou intrigado com essa parte. Ela tirou e vocês mandaram brasa?&lt;br /&gt;- Sim, nos engalfinhamos até que ela deu uns gritos estridentes.&lt;br /&gt;- Seriam de prazer?&lt;br /&gt;- Acho que sim. Em seguida gemeu, botou as duas mãos na cabeça e quase arrancou os cabelos, sem contar que se mexia mais que cobra em areia quente...&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- Cobra em areia quente.&lt;br /&gt;- E cobra se meche em areia quente?&lt;br /&gt;- Se meche ou não, meu prezado, não posso lhe assegurar com precisão. Vovô Gob, já falecido -, que Deus o tenha em sua Glória -, dizia que sim e comentava  com os amigos dele, quando o assunto girava em torno de mulheres.&lt;br /&gt;- E depois da trepada?&lt;br /&gt;- Como te falei, ela foi tomar banho. Ficou uma hora no chuveiro quente. Pensei na minha conta de luz. Voltou enrolada numa toalha.&lt;br /&gt;- E esfregou de novo o brinquedo na sua cara?&lt;br /&gt;- Pior que isso. Cismou de ficar pelada na minha frente. Não se contentou só de mostrar aquele corpo feio e gordo, mas passou a dançar  uma dança esquisita. Você precisava estar lá para presenciar tudo. Parecia uma&lt;br /&gt;avariada maluca.&lt;br /&gt;Risos&lt;br /&gt;- Diante disso você caiu em cima dela de novo?&lt;br /&gt;- Qual o quê! Tive vontade sair em desabalada carreira. A potranca tinha além do corpo feio, umas pernas  horríveis, cheias de veias verdes, a bunda horrorosa, descomunal, repleta de estrias, sem falar na pança enorme, derramando banha pura e finalmente o troço... o troço...&lt;br /&gt;- Troço? Que troço?&lt;br /&gt;- O sexo dela. A xoxota no meio das pernas. Meu caro amigo, que desatino!&lt;br /&gt;- O que havia com o sexo dela?&lt;br /&gt;- Parecia um filho de cruz credo desmamado.&lt;br /&gt;- Filho de cruz credo desmamado? Explique.&lt;br /&gt;- Não tenho como. Pretendia até tirar uma segunda, mas ao ver o material ali, às claras, bem diante de meu nariz....&lt;br /&gt;- Caiu matando?&lt;br /&gt;- Ao contrário. Apaguei. Brochei!&lt;br /&gt;- E quanto a ela, em relação a você?&lt;br /&gt;- Adorou, disso eu tenho plena certeza. O tempo todo amou estar por baixo de mim. Suava em bicas. A  vagabunda estava no seco,  no cio, acho que não via um... acho que não via uma vara há tempos.&lt;br /&gt;- Acabou a festa com você de pau murcho?&lt;br /&gt;- Para mim, sim, para  ela, não. Tentou, ao  seu modo, uma segunda seção.&lt;br /&gt;-O que foi que ela fez?&lt;br /&gt;- Caiu de boca. Agarrou no ferro pelo talo e mamou como nunca vi mulher nenhuma mamar. Saiu de beiço inchado, os maxilares doendo. E olha que em matéria de mulher não sou nenhum marinheiro de primeira viagem.&lt;br /&gt;- E como ele se comportou?&lt;br /&gt;- Ele quem?&lt;br /&gt;- O seu ... o seu... pinto?&lt;br /&gt;-Me sacaneou. Permaneceu de cabeça baixa o tempo todo: flácido e mole. Acho que nem assoprando decolaria. Não quis nada com o trabalho. Mas a filha da mãe mostrou que tem talento, garra, determinação, força de vontade. Foi em frente. Não desistiu...&lt;br /&gt;- E o que ela fez? Conta, conta, conta de uma vez.&lt;br /&gt;- Me fez um belo de um fio terra.&lt;br /&gt;- Um o quê?&lt;br /&gt;- Fio terra, cara, fio terra.&lt;br /&gt;- E o que é fio terra?&lt;br /&gt;- Não tenho como explicar. Espere um pouco. Se você virar a bunda eu mostro.&lt;br /&gt;- Virar o quê? A Bunda?&lt;br /&gt;- É. A bunda.&lt;br /&gt;- E por que eu faria tal coisa?&lt;br /&gt;- Não quer saber como é o fio terra?&lt;br /&gt;- Querer é claro que eu  quero, mas virar o rabo pra você...&lt;br /&gt;- Não somos amigos?&lt;br /&gt;- Claro que sim..&lt;br /&gt;- Então. Arria um pouco a calça, abaixa a cueca que lhe mostro em um minuto. &lt;br /&gt;– Vou trancar a porta. Pode chegar alguém e até explicar o porque de estar de bunda virada para seu lado...&lt;br /&gt;Porta chaveada, o amigo voltou e fez o que o outro pediu. &lt;br /&gt;- Então, como é esse tal de fio terra? &lt;br /&gt;Deu um grito que ecoou por toda a casa. Acabara de levar  uma tremenda de uma dedada no olho do cu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lâmpada milagrosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;T&lt;br /&gt;ANGERINO CHUPADO DA SILVA TRABALHAVA NUMA SEÇÃO onde mexia com uma série de arquivos mortos. Por causa deles, passava o dia procurando velhos papeis de pensionistas e aposentados que requeriam benefícios ao INSS. O problema é que muitas dessas criaturas já haviam passado desta para melhor, mas alguém, em nome dos falecidos “defuntos” pretendiam uma revisão disso, ou daquilo, enfim, havia uma máfia  lá fora mamando às custas dos “de cujos” e claro, dos parentes que desconhecendo a verdadeira pretensão dos cabeças da gangue, entregavam documentos sem pensar duas vezes nas conseqüências de tal ato. &lt;br /&gt;A função de Tangerino: desarquivar esses processos e encaminhar ao chefe da seção que por sua vez mandava tudo para o pessoal da perícia. Dia desses, num desses arquivos, Tangerino encontrou uma lâmpada tipo a do Aladim. Satisfeito com o achado, pensou num jeito de levar a raridade embora. Talvez a coisa fosse mágica. Como todo ser normal acreditava piamente em sonhos, e por acreditar neles, quem sabe...&lt;br /&gt;Na hora do almoço saiu mais cedo e disse ao encarregado que iria atrás de um par de sapatos novos, tendo em vista que o seus estavam a muito, furados. E realmente isso era verdade. Assim, comprou um modelito vagabundo na primeira loja que avistou.  Jogou o velho no lixo e voltou contente para a repartição com a caixa vazia debaixo do braço. Se alguém perguntasse sobre o embrulho diria que ali  dentro estava o pisante antigo que levaria de volta para usar nos finais de semana. A idéia: economizar o novo. Continuar surrando o velho. No fundo, a função da caixa era outra: meter dentro dela a lâmpada misteriosa. Assim fez. Orgulhoso da sua vivacidade gabou-se do plano que arquitetara. Ninguém desconfiara de nada e ele saiu da sala, passou pela diretoria, pegou o elevador e para não levantar suspeitas antes de ganhar a rua tomou um cafezinho requentado com o porteiro e fumou um cigarrinho com o vigia. &lt;br /&gt;O trajeto até sua casa demorou uma eternidade enervante. Nunca o trem demorara tanto da estação Luz até Prefeito Saladino onde morava com a mulher, um casal de filhos e uma sogra rabugenta. No aconchego do lar, beijou a esposa na cadeira de rodas e o casal de filhos que brincava com Ritinha, a empregada. Só então se predispôs a esconder o pacote num lugar seguro. Pensou em um que seria inquestionável. Havia entre o guarda-roupas e a parede um vão. Ali Tangerino depositou a caixa. Para despistar curiosos, pegou uma cadeira quebrada e entulhou com umas roupas que estavam sobre a cama. Essa atitude ajudaria a afastar as crianças.&lt;br /&gt;Em seguida tirou os sapatos, a camisa, pegou uma toalha limpa no armário, levou uma bronca da sogra chata que apareceu de repente reclamando das coisas deixadas no meio do caminho, da camisa suada sobre a cama e da toalha limpa que ela havia acabado de tirar do varal para guardar.&lt;br /&gt;- Por que não usa mais uns dias a que está lá no banheiro?&lt;br /&gt;Fazendo ouvidos de mercador Tangerino fingiu não ter escutado uma palavra.  Assobiando “Quero que vá tudo para o inferno”, de Roberto Carlos, encostou a porta do banheiro, (nunca trancava a porta, tinha essa mania) ligou o chuveiro e mandou a sogra para a casa do Carvalho. Do Carvalho mesmo, melhor não confundir com aquilo que alguns homens costumam não carregar no meio das pernas.&lt;br /&gt;O Carvalho: sujeito bom, pacato e humilde, da mesma idade da sogra e que vivia paquerando a jararaca. Por azar de Tangerino, a maldita não dava chance para o infeliz leva-la, de vez, para dividir as escovas de dente com ele. O elemento nutria sentimentos nobres com relação a setentona, mas a megera não abria guarda. O fato é que seu Carvalho, duro, - perdão, Tangerino, mole, debaixo do chuveiro, quando via água quente jorrando sobre a cabeça esquecia da vida. Nesse esquecimento levava horas para voltar a si, ao menos para pensar na conta de luz e no rombo que sofreria seu bolso, no final do mês, quando viesse o talão. Nesse interregno a velha resolveu ir ao quarto do genro e preparar uma muda de roupas. Estava quase na hora do banho da filha, que por infelicidade, num desastre de automóvel fraturara as duas pernas e estava toda engessada, sem poder se locomover para as necessidades mais prementes.&lt;br /&gt;La chegando estranhou, de cara, deparar com uma cadeira encostada no canto com algumas das peças de roupas que ela, a pouco, havia passado. Faltava guardar nas gavetas correspondentes. Quem as colocara ali? As crianças, com certeza!&lt;br /&gt;Sem pensar duas vezes, passou a mão na cadeira. Ao passar a mão na cadeira, uma blusa foi ao chão. No que apanha, a velha enxerida avista a caixa de sapatos acondicionada detrás do roupeiro.&lt;br /&gt;- Danadinho. Isso é arte do Marcelinho mais a Francisquinha.&lt;br /&gt;Pegou a caixa de qualquer jeito. A caixa abriu-se, sem querer, e no abrir, caiu no chão à estranha lâmpada fazendo um barulho seco contra o assoalho. Os olhos da velha abriram-se numa cobiça só. Ao ver a jóia, seus pensamentos trouxeram à baila tempos passados.&lt;br /&gt;- Meu Deus parece àquela lâmpada do... como é mesmo o nome do personagem? Ah! Lembrei. Aladim!...  Mas espere, pior que é!&lt;br /&gt;Correu à porta, espiou o corredor. A filha, coitada, estava com os olhos pregados na novela. As crianças brincavam.&lt;br /&gt;- Será que se eu fizer alguns pedidos e esfregar, esse treco funciona?&lt;br /&gt;Trancou se por dentro, silenciosamente.  Ansiosa, e meia trêmula, não esperou mais. Não custava tentar. Experimentou. Na primeira esfregada, uma grande luz branca começou a surgir do bico da lâmpada enquanto uma imensa forma humana masculina ia se projetando no espaço. Num piscar de olhos pintou na frente dela um gênio com cara de Brad Pitt esbanjando músculos bem trabalhados. Até a voz lembrava o astro, embora a tradução do inglês para o português fosse de péssima qualidade.&lt;br /&gt;- Diga, minha ama e senhora. Estou aqui para lhe servir. Peça e atenderei. Devo informá-la que tem direito a três pedidos.&lt;br /&gt;- Só três?&lt;br /&gt;- Que realizarei imediatamente. Então, madame, o que vai ser?&lt;br /&gt;A velha estava um pouco atordoada e desconcertada com tudo o que estava acontecendo, mas não se fez de rogada. Pensou por um instante e decidiu.&lt;br /&gt;- Quero minha filha fora daquela cadeira de rodas e andando normalmente.&lt;br /&gt;- Seu pedido é uma ordem.&lt;br /&gt;Puf!&lt;br /&gt;No minuto seguinte a sogra de Tangerino Chupado ouviu gritos vindos da sala e fortes batidas na porta. Complemente atordoada, correu abrir. Deparou com a filha andando, Marcelinho, Francisquinha e Ritinha, logo atrás, na maior algazarra.&lt;br /&gt;- Vó, a mãe voltou a andar. Cadê o pai?&lt;br /&gt;Enquanto Francisquinha dava meia volta com Ritinha e ia a busca do pai, para contar-lhe a novidade, a velha passou a mão na filha e no neto e praticamente arrastou os dois para dentro do quarto, voltando a passar a chave na porta.&lt;br /&gt;- Mãe, quem é esse cara e de onde ele saiu? Não me diga que a senhora...&lt;br /&gt;- Calma, filha, não é nada do que está pensando. Deixa que depois explico. Seu gênio vamos em frente: quero ter muito dinheiro para poder viajar e conhecer o mundo com minha filha aqui e meus  lindos netos.&lt;br /&gt;E o gênio, solícito.&lt;br /&gt;- Como disse a pouco, madame, seu pedido é uma ordem.&lt;br /&gt;Puf!&lt;br /&gt;Uma avalanche de dinheiro caiu de um buraco que se abriu no teto. Em menos de um minuto metade da peça estava abarrotada de notas de cem.&lt;br /&gt;- Meu Deus, Meu Deus, não acredito. Minha filha estamos ricas.&lt;br /&gt;O gênio interrompeu a velhota e observou.&lt;br /&gt;- Falta o terceiro, minha ama e senhora. Por favor?&lt;br /&gt;A velha parou de rir e ficou séria. A filha abraçou Marcelinho e encarou o gênio. A velha olhou para a filha, depois para Marcelinho e voltou-se para o gênio.&lt;br /&gt;- Chega o ouvido aqui, meu bom amigo. Vou mandar o terceiro pedido.&lt;br /&gt;O encantado, com suas maneiras estudadas e extremamente cortês chegou o ouvido até perto da velha. Realmente um homem bonito, sem falar no porte elegante que lhe emprestava ares de um daqueles antigos reis que viviam em castelos medievais a beira de lagos eternos. Uma pena que vivesse enlampado.&lt;br /&gt;Tradução de enlampado: o mesmo que engarrafado.&lt;br /&gt;- Meu terceiro pedido é o seguinte: quero...&lt;br /&gt;Completou baixinho, sussurrando o restante da frase de maneira que só o encantado a escutasse.&lt;br /&gt;- Perfeitamente, madame. Seu pedido é uma ordem.&lt;br /&gt;Puf!&lt;br /&gt;Vem lá de dentro, correndo, a Francisquinha, com Ritinha a tiracolo segurando com as duas mãos um porquinho todo molhado pingando água pelo chão.&lt;br /&gt;Praticamente esmurram a porta. Quando a mesma é aberta...&lt;br /&gt;- Mãinhê olhe só o que achei no banheiro, debaixo do chuveiro! &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Locutora de terminal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A&lt;br /&gt; MOÇA DO ALTO FALANTE DA ESTAÇÃO RODOVIÁRIA que anunciava as saídas dos ônibus interestaduais e as respectivas plataformas de embarque parece que tinha botado alguma coisa que não gostara, na boca e, por  causa disso, dava a impressão de estar engasgada. Célio pensou logo num ovo quente. Depois de alguns segundos concluiu que decididamente o ovo quente estaria fora de cogitação. Quem sabe a beldade estivesse comendo alguma coisa mais leve: um pedaço de pão, uma banana, um sanduíche ou pipoca. &lt;br /&gt;Não que ovo quente fosse pesado, ovo de rodoviária é igual pastel.  Neste nunca se acha o queijo e a carne, naquele, não se escuta o cocoricar da galinha.&lt;br /&gt;“... Atenção senhores passageiros com destino a Casa do Chapéu. Horário de 9:30. Por favor dirijam-se...”&lt;br /&gt;Pudesse estar com essa jovem, o Célio a faria engolir o microfone. Junto, o papel que estava lendo, ou melhor, tentando. Pelo que seus ouvidos escutavam a desgranhenta nem ler direito sabia. Soletrar, nessas alturas, já estaria de bom tamanho. Ao menos se decorasse a porcaria do texto ou procurasse pronunciar as palavras com mais precisão, com certa flexibilidade, sem atropelar as vírgulas e deixar para trás os pontos finais.&lt;br /&gt;“... O terminal rodoviário informa para dores gripes e resfriados procure a Farmácia do Chicão ao lado da Viação Sebo nas Canelas boxe 34...”&lt;br /&gt;Pensou com seus botões que essas criaturas deveriam ter um curso de como tratar com um texto corretamente, dando-lhe a devida atenção e respeito, seguido, claro, da prática do exercício da pronúncia certa e com desenvoltura.     &lt;br /&gt;Falar sem cantar, procurar ler como se estivesse conversando normalmente. Nada de boa viágeeeeeeeeem (esse viá sem a conotação da Kely Key, tão em moda). Ridículo o “... apresentem-se para embarque na plantaforma...”&lt;br /&gt;Parece que uma abelha havia entrado em seus tímpanos e lascado uma tremenda de uma ferroada. Não é plantaforma que se diz, mas PLATAFORMA. Meu Deus durma-se com um barulho desses, ou melhor, viaje-se com um barulho desses, ou, pior ainda, espere-se pelo horário da passagem com uma incisão dessas na pele sedutora da língua portuguesa.&lt;br /&gt;“... Senhores passageiro a Informe Bem deseja-lhe boa viagem...”&lt;br /&gt;Cadê o “os” de passageiros e o “lhes” de deseja-lhes? O gato comeu! &lt;br /&gt;Com certeza a infeliz não tinha nada na boca. Célio pensou, a princípio, tratar-se de um ovo, um ovo quente. Logo depois achou que fosse um pau, uma lasca de madeira atravessada, uma espinha de peixe. Essas coisas também atrapalham. Contudo, o melhor que tinha a fazer seria colocar nos ouvidos os fones ligar seu pequeno aparelho de CD e ouvir a Egüinha Pocotó. Todavia, Célio não se conformava. Professor de português graduado em letras, mestre em lingüística pela universidade de Campinas não descia garganta abaixo essas baixarias da língua. Uma palavra dita de forma errada fazia com que perdesse o sono. Uma frase mal construída espantava a tesão. Com um verbo colocado erroneamente chorava, enjoava, magoava, enfim, ficava estressado.  Se tivesse um tantinho assim de chance, ia lá na cabina onde a garota da rodoviária estava sentada e lhe enfiava, incontinente, o CD que ganhara da namorada, enfiava sem dó nem piedade goela adentro. Tinha importância não: era um CD pirata do Lacraia! Desses que vem com tapa olho na tampa.&lt;br /&gt;                                                &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu bem, não é nada disso que você está pensando!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt; REPORTER PEGOU TONINHO BAIACU NESTE INÍCIO DE SEMANA, bem no meio da praça, de surpresa, meio de supetão. Atrás do repórter, um cara com uma câmara ligada gravava cada palavra que saia de sua boca, enquanto um outro, com uma luz forte, acesa acima da cabeça, suspensa por uma espécie de mastro, tentava jogar o foco diretamente na direção do seu rosto. Em redor dos quatro, uma pequena multidão de pessoas começou a formar uma rodinha, até que o cordão humano se tornou coeso e atento, não só as perguntas que eram formuladas, como também às respostas do entrevistado. Não se ouvia a respiração de ninguém. Na verdade, todos estavam ávidos para saber o que o jornalista queria com aquela entrevista e como o Toninho Baiacu (até aquele momento um ilustre desconhecido, para todos, na praça) se sairia da empreitada.&lt;br /&gt;- Você me disse que se chama Antônio, ou melhor, Toninho. E me disse também que tem um apelido engraçado. Poderia dizer qual é esse apelido? &lt;br /&gt;- Pois não: Toninho Baiacu.&lt;br /&gt;- E por que Toninho Baiacu?&lt;br /&gt;- Porque desde pequeno, aprecio esse tipo de peixe. Baiacu é um peixe. Não como outro, por melhor que seja. Daí o pessoal lá de casa, meu pai, meus irmãos, minhas irmãs, resolveram me chamar de Baiacu. E pegou... &lt;br /&gt;- Toninho, vou lhe fazer algumas perguntinhas, você vai participar, ao vivo, do programa do Fernandinho Cuca Fresca, da Rede Vem que é Mole. Pode ser? &lt;br /&gt;- Claro.&lt;br /&gt;- Olhando para esta câmara, quando eu falar três. Podemos começar? Um, dois, três. Fernandinho estou aqui com o nosso amigo Toninho, conhecido, na intimidade dos amigos, como Toninho Baiacu. Por favor, diga um olá para o Fernandinho.&lt;br /&gt;- Olá, Fernandinho, tudo bem? É um prazer muito grande participar do seu programa. &lt;br /&gt;- Toninho, vou lhe fazer algumas perguntas. Aliás, as mesmas que já fiz anteriormente para dois caras da pesada que estão concorrendo com você.  O Marcos e o Cláudio.  Preste atenção. Não pode pensar muito, tem de falar o que vier na cabeça, certo? O menor tempo ganha um final de semana, com tudo pago, para curtir, com a namorada, amiga, ou quem você quiser levar como acompanhante para a suíte presidencial do Motel Fome dos Prazeres, do nosso amigo Léo, para quem eu mando um abraço. Preparado?&lt;br /&gt;- Positivo.&lt;br /&gt;- Você é casado?&lt;br /&gt;- Não, sou solteiro.&lt;br /&gt;- Bem, sendo solteiro, fica um pouco complicado. Mas tudo bem vamos lá: saberia dizer para o público aqui presente e para todos os demais telespectadores qual é o maior e o melhor truque feminino?&lt;br /&gt;- Bem, embora seja solteiro, como já lhe falei, tenho, graças a Deus, um punhado de mulheres aos meus pés. Você me perguntou qual é o maior e o melhor truque feminino. Pois bem: o maior é quando a mulher, na cama, nos leva ao delírio, ou a loucura. O melhor é quando alcançamos, juntos, os finalmente e gritamos: Mengo, Mengo...&lt;br /&gt;- Vejo que o amigo é um flamenguista doente.&lt;br /&gt;- Eu? Com certeza.&lt;br /&gt;- Pois muito bem: quem você levaria para uma ilha deserta?&lt;br /&gt;- Eu? Deixa ver: a Karina Bacchi? Não, muito nova! A Xuxa? Acho que a Xuxa não faz o meu tipo. Já sei: a Juliana Ferraz, apresentadora do SPORTV.&lt;br /&gt;- Sentiu o lance aí, ô Fernandinho? Nosso amigo aqui tem bom gosto. Mandou bem.&lt;br /&gt;- E por que a Juliana?&lt;br /&gt;- Ela é gostosa demais. Tem um traseiro...&lt;br /&gt;- Três coisas que você pediria, caso ela chegasse aqui, agora.&lt;br /&gt;- Eu? Três coisas?  A quem, a Juliana?&lt;br /&gt;- Claro.&lt;br /&gt;- Me leva ao céu, beleza.  Joga minha cara na parede e depois me pisa com toda força. Espezinha meu pescoço até sangrar.&lt;br /&gt;- Casamento?&lt;br /&gt;- Eu? Tô fora.&lt;br /&gt;- Companheira ideal.&lt;br /&gt;- Prá mim? Bem, eu... a  Monique. Isso mesmo, Monique, uma vizinha do arco da velha que mora de frente para minha casa. Ai! Me arrepio todo, só de pensar nela...&lt;br /&gt;- Toninho, como você se define?&lt;br /&gt;- Eu? Bem: gostoso, machudo, bom de cama...&lt;br /&gt;- Consegue marcar quantos gols numa só noite?&lt;br /&gt;- Eu? Bem. Tenho que responder a isso?&lt;br /&gt;- Claro, você está ao vivo, para todo o Brasil.&lt;br /&gt;- Bem duas, três, sei lá. Depende do pedaço de mau caminho que estiver comigo. Se for a Carolina Magalhães, por exemplo, acredito que consiga alcançar o clímax umas quatro ou cinco vezes.&lt;br /&gt;- Garoto esperto, Fernandinho. Esse aqui bota nós dois no bolso. Só gosta do que é bom. Agora, a última, concorrendo com o melhor tempo. Se for você, e vou torcer para que seja, um final de semana com tudo pago na suíte presidencial do Motel Fome dos Prazeres, do nosso grande amigo Léo. Boa sorte. Toninho, se você chegasse em sua casa agora, e recebesse o recado de que sua vizinha, como é mesmo o nome dela?&lt;br /&gt;- Monique...&lt;br /&gt;- Isso mesmo, se você chegasse em sua casa agora e recebesse a notícia de que a Monique pediu para que você fosse até a casa dela trocar uma lâmpada e, quando você chegasse lá, ela viesse abrir a porta só de calcinha e sutiã, e tivesse segurando, nas mãos, uma lâmpada, e na outra uma escada, para você subir e trocar a lâmpada, claro, o que é que você faria? Dois segundos. Tempo.&lt;br /&gt;- Engolia a lâmpada e me acendia, depois, todinho, dentro dela, como um curto circuito subindo ligeiro, pela escada.&lt;br /&gt;- Muito bem: resposta inteligente e criativa. Vamos a mais um candidato. Temos o Marcos, o Cláudio, e o Toninho. Vamos lá, deixa eu ver, quem vai ser, okei, você aí, atrás da moça de amarelo, o cara de blusa azul. É, você, mesmo. Vem prá cá, correndo. Fernandinho diretamente dos nossos estúdios, a produção com o cronômetro nas mãos, marcando o melhor tempo: quem será o vencedor? Toninho Baiacu, Marcos, Cláudio ou... muito boa tarde, como é o seu  nome?&lt;br /&gt;O Domingo, finalmente, chegou. Nesse dia, acontecia o aniversário da sogra de Toninho. Estava, pois, por conta desse evento, reunida, a família, em peso, bem como parentes e amigos em torno da mesa farta e das bebidas, e a aniversariante. No quintal imenso rolava um churrasco no capricho, refrigerante para a garotada a dar com o pau e para os marmanjos muita cerveja gelada. Por volta de oito da noite, todos resolveram sentar na sala defronte a piscina e ficar de olho na televisão. Ou melhor, para assistir ao Programa do Fernandinho Cuca Fresca. No transcorrer da semana, a emissora vinha anunciado, durante a programação, nas chamadas do Programa, que o sujeito que ganhara o prêmio residia no bairro de Santo Antão, exatamente onde o Toninho morava. Para aumentar o impasse e criar expectativa em torno da audiência, o canal de TV não revelava o nome do vencedor, e só mandava para o ar o nome do bairro que tinha sido contemplado. Praticamente quando a comunidade de Santo Antão ficou sabendo, a galera, em peso, abriu a caixa da curiosidade: todos, sem exceção, queriam saber quem era o felizardo, para evidentemente cumprimentar o sortudo e dar-lhe os parabéns.    &lt;br /&gt;De repente, eis quem toma conta da telinha. Isso mesmo. Toninho Baiacu, em carne e osso. Os filhos, quando viram o pai, promoveram uma algazarra sem tamanho. Um dos garotos grudou no seu pescoço, o outro pulou em seu colo enquanto o menorzinho saiu em disparada chamando pela empregada da casa, que conversava nada mais, nada menos com a Monique, a vizinha da frente.&lt;br /&gt;- Tia Monique, tia Monique, papai está aparecendo na televisão...&lt;br /&gt;Vieram as duas, correndo e tomaram acento no meio da sala. A esposa, eufórica, danou a gritar:&lt;br /&gt;- Fiquem quietos, todos. Vamos escutar o pai de vocês.&lt;br /&gt;A velha sogra levantou-se e como era meia surda foi ficar mais perto do aparelho.&lt;br /&gt;- Meu genro, você daria para ser artista. Fica bem, diante de uma câmara e um microfone.&lt;br /&gt;O sogro não se fez de rogado.&lt;br /&gt;- Lembra um pouco meus tempos de rapaz, esse danado.&lt;br /&gt;Toninho levantou-se de, num salto e correu para a televisão.&lt;br /&gt;- Meu velho sogro tem um jogaço, na Band...&lt;br /&gt;A esposa deu um chega para lá, a cunhada achou ruim, o sogro, idem e a dona Gertrudes, a sogra que aniversariava, estava mais atenta e ligada que cheirador de cola, depois de ter lambuzado o nariz pela trigésima vez. Toninho Baiacu entrou em pânico. Justo nesse dia o desgraçado do programa do Fernandinho estava indo ao ar, e pior, tudo indicava ser ele o felizardo. Pulou daqui e dali, tentando despistar os presentes. Vamos ver outra coisa: essa porcaria do Fernandinho só bota no ar coisas sem sentido. Vamos para o SBT... &lt;br /&gt;Toninho quase apanhou. A galera, em peso, queria assistir na íntegra, a entrevista dele, na praça e saber das respostas que havia dado às perguntas do repórter. A esposa, nem cabia em si de contentamento, naturalmente levada pela euforia de estar vendo o marido, pela primeira vez numa tela de televisão. O infeliz olhou para a sogra, para o sogro, para aos filhos, para a cunhada, para aos amigos, e seus olhos fixaram-se depois, em Monique. Com certeza, naquela noite iria tudo por água abaixo: sua vida, seu lar, seus filhos, a amizade dos amigos. Era o fim. Era o fim, sem sombra de dúvidas.   &lt;br /&gt;Minutos depois quando a entrevista acabou, e o repórter, finalmente, revelou o nome do vencedor, as coisas de Toninho Baiacu já estavam todas no meio da rua, jogadas não só pela esposa, como pela sogra e pela cunhada.&lt;br /&gt;Foi chegando gente, foi chegando vizinho, amontoando caras e rostos nos muros em derredor, juntando a turma do bar e também alguns conhecidos do Toninho que vieram dar os parabéns e apertar sua mão. &lt;br /&gt;Tarde demais. Toninho mal teve tempo de pegar os documentos e botar uns trocadinhos no bolso, para pagar a passagem do ônibus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iniciação&lt;br /&gt;“Ah! Essas mulheres, sempre tive uma, amando quatro de cada vez...”&lt;br /&gt;(Fernandinho Saraiva).&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A&lt;br /&gt; PRIMEIRA, DE UMA SÉRIE DE MUITAS, QUE TIVE O PRAZER DE colecionar, ao longo da vida, foi uma empregadinha doméstica que veio trabalhar em casa, logo que mudamos para o apartamento novo. Elizabete. Loirinha, de olhos verdes, dezenove anos. Uma gracinha de menina, um amor de pessoa. Personalidade acima de qualquer suspeita. Monumental. Quando a vi, pela primeira vez, meus olhos se encheram de minúsculos coraçõeszinhos apaixonados. O tal cupido que o Lilico, meu irmão de vinte e sete vivia falando toda hora, finalmente havia atirado seu dardo envenenado e acertado em cheio o meu coração de garoto que começava a descobrir as coisas boas do mundo. Logo que veio morar com a gente, Elizabete não trouxe muitas coisas. Sua bagagem, se bem recordo, não passava de uma bolsa de naylon, bastante surrada, de um verde desbotado, meia dúzia de sacolas de supermercados com sapatos, discos e uma outra, com uma caixa cheia de produtos de beleza.&lt;br /&gt;Mamãe a ajudou a se instalar. Deu-lhe um cobertor, lençóis, fronhas, uma colcha e um travesseiro. Não havia cama. Nos primeiros dias Elizabete dormiu no chão, de frente para a porta, numa espécie de estrado improvisado por papai. Os meses foram passando...&lt;br /&gt; Durante o dia Elizabete cuidava de todos os afazeres domésticos oriundos de uma casa de família: lavava, passava, vigiava  um irmão recém-nascido, (raspa de tacho, como apregoava meu velho), fazia feira aos domingos e, ainda, ajudava mamãe a servir o café, o almoço, o lanche da tarde e, a noite, o jantar. Depois de cumpridas todas essas tarefas, ela se retirava para seu quarto e ficava por horas a fio ouvindo discos numa velha radiovitrola.&lt;br /&gt;Com o passar dos dais, as coisas para ela melhoraram consideravelmente. Havia, agora, num canto, uma penteadeira, com um espelho oval, um banquinho e uma cômoda, onde colocava, bem arrumadinho, um monte de lps de Roberto Carlos, Jerri Adriane, Wanderlei Cardoso, Gilliard, Odair José, Diana, Jessé, Cely Campello, Guilherme Arantes, Adilson Ramos, Carlos Alberto e tantos mais. Naquele tempo, não existiam os CDs, os bolachões, ou discos de vinil, com capa plástica e tudo mais faziam a festa e invadiam as lojas de discos. Elizabete seguia uma espécie de ritual: entrava no quarto, encostava a porta, não passava a chave, apagava a luz e acendia um pequeno abajur em forma de elefante. Despia-se, esparramando as roupas a caminho do banheiro. Tomava uma ducha longa e demorada, de meia hora, talvez um pouco mais.  Vinha, então, a melhor parte. Saia do chuveiro, só de calcinha e estirava o corpo na cama de solteiro que meu irmão doara para ela, logo depois do seu casamento com a Liliane. &lt;br /&gt;Meu posto de observação ficava num lugar bastante engraçado. Para as sessões de espionagem, lembro que precisava trepar numa espécie de baú repleto de livros  e cadernos atirados às traças. Essa peça jazia, jogada as traças, perto da máquina de lavar roupas e do tanque, na varandinha, ao lado da porta da cozinha. Era dali que espreitava, às escondidas, a Elizabete, depois do seu retiro para a intimidade. Havia uma báscula que nunca fechava, servia mais como passagem de ar para resfriar o ambiente. Uma espécie de cortina caia por sobre os vidros lisos e devido a isso, se tornava difícil ou quase impossível alguém, do outro lado dar comigo espionando.  Ademais, tomava um cuidado medonho para que ninguém pegasse no flagra, principalmente o Nelsinho, outro irmão, ainda solteiro, que costumava trazer a namorada para dar “uns amasso” numa espécie de dispensa, onde guardavam, além das ferramentas de papai, mantimentos em estoque, latas de óleo, garrafas de cerveja, produtos de limpeza, botijões de gás e outras quinquilharias.&lt;br /&gt; O fato e que a cada nova manhã Elizabete ficava mais radiante. Simplesmente abafava. O salário que ganhava, aplicava em coisas de uso pessoal. Tinha um excelente bom gosto, a danada. Gostava de usar roupas curtas e justinhas à pele, (estava em moda a mini-saia) e geralmente as garotas imitavam a cantora Wanderléia. Por assim, quando colocava um daqueles minúsculos chortinhos realçando o bumbum, ou uma saia deixando à mostra a calcinha, eu viajava na maionese. Pirava na batatinha. À noite, os ares ficavam mais densos. Elizabete saia do banho, se enfiada numa camisola branca, muito curta e transparente, que mostrava, em todo o esplendor, seu corpo de mulher, as formas perfeitas, a barriguinha, o umbiguinho, com destaque para o biquíni minúsculo com enfeites de gatinhos cobrindo carinhosamente o triângulo do amor. Para mim, tudo aquilo dava a impressão de estar espremidinho, pedindo socorro. Nessas horas, voava em pensamentos distantes, ao tempo que roia desesperadamente as unhas. Um dia Elizabete pulou fora do banho, sem nada cobrindo a nudez, sem a calcinha, sem a toalha, sem qualquer recato ao pudor, a água quente escorrendo, macia por sobre seus cabelos formando uma poça nos azulejos brancos do chão.   Caminhou até o aparelho de som e colocou cuidadosamente um disco no prato. Ajustou o volume de maneira que  somente seus ouvidos pudessem curtir a melodia: era o Odair José e as musicas desse artista faziam um sucesso danado, na época e ela, fã de carteirinha, sempre que podia, botava alguma coisa dele para rodar.  Tinha, inclusive, um pôster tamanho gigante, pregado na parede, ao lado da janela, que dava vista para o prédio contíguo:&lt;br /&gt;“... As minhas coisas”.&lt;br /&gt;de repente estão tristes&lt;br /&gt;compreenderam que  não existe&lt;br /&gt;nada mais entre nós&lt;br /&gt;Meu violão&lt;br /&gt;caiu de cima do armário&lt;br /&gt;suas cordas rebentaram&lt;br /&gt;dando adeus a minha voz”...&lt;br /&gt;A graciosa parecia absorta. Sem ao menos se enxugar ou se cobrir com a toalha, deitou de barriga para baixo, deixando à mostra, para meu  deslumbramento, um senhor par de pernas bem torneadas, que terminavam numa montanha  de ancas bem proporcionadas, dessas de deixar qualquer homem maluco com visões sinistras do paraíso. Vendo aquilo, o instinto falava alto. Aliás, isso sempre acontecia. Bastava fixar os olhos em Elizabete, algo anormal como um fogo interior transformava meu ser. Cuidadoso, olhava para a porta da cozinha. Ninguém por ali. Corria os olhos para o lado da dispensa. Nada, também. Então, relaxava, dava asas à imaginação. Abaixava o calção até a altura dos joelhos e colocava para fora, o membro enrijecido pelo tesão que sentia por aquela deusa maravilhosa que me deixava completamente louco e fora de qualquer controle. Do meu posto, acomodado na ponta dos pés e por sobre o baú de livros, chegava até mim uma visão privilegiada da cama e, em cima dela, o pecado em todas as suas formas, exposto sobre o lençol de algodão e, ao fundo, parte da entrada do banheiro onde ela refrescava o cansaço estafante do dia-a-dia. Enlouquecido, sonhava acordado.  Imaginava mil coisas como por exemplo estar deitado ao lado dela, entrelaçado em seus braços, o sangue fervendo nas veias, o suor escorrendo, os sentidos todos em alerta. O meu deslumbramento, entretanto, não ia além de um momento de pura felicidade, um momento fugaz, muito rápido. Elizabete desconhecia os meus anseios secretos e tampouco imaginava que a comia, que a devorava, literalmente,  da cabeça aos pés, centímetro por centímetro, sorrateiro, como um bicho acuado, enquanto ela, na tranqüilidade de seu retiro pessoal, sabe-se lá, pensava em algum namoradinho distante. Nesse chove não molha, enquanto descontraída, ela cuidava de si, ora pintando as unhas ora escovando os cabelos, que caiam até a cintura. A  musica rolava.  Eu, de cima do baú, só me restava a satisfação de me contentar com um querer enorme, mas frustrado. &lt;br /&gt;Nervoso, com os neurônios em alerta geral, agarrava o nervo duro e irrequieto no meio das pernas. Chegava à exaustão, devido a cadência empregada com as mãos, para atingir o clímax, chacoalhando, sem parar o órgão genital. Essa brincadeira de mau gosto, (de mau gosto porque somente eu participava), perdurou por muitos e muitos meses, até que numa noite, também já prestes a gozar, eis que de repente, o Nelsinho, como surgido dos quintos do inferno assomou no umbral da porta da dispensa, com a droga da namorada a tiracolo. Os dois me pegaram de calças arriadas, na hora agá, no instante derradeiro, justamente quando meu corpo, voltado para os prazeres da carne, uma vez mais, liberava uma porrada de espermatozóides em homenagem àquela deusa encantada, que recostada sobre a cama e ao som do Odair José, seguia indiferente aos meus problemas de menino adolescente batendo às portas dos dezesseis.&lt;br /&gt;- Bonito, seu moço. Descascando banana em plena oito horas da noite! E ainda por cima importunando a Bete. Deixa o pai saber disso.&lt;br /&gt;Não contente, completou a frase:&lt;br /&gt;- Mãe, ô mãe, venha até aqui na cozinha ver um negócio...  &lt;br /&gt;Exatamente o que temia acabou acontecendo. Deu uma encrenca dos diabos. Para mim, evidentemente. Mamãe acorreu, com uma vizinha de apartamento, chata, que não saia lá de casa, o senho franzido, os olhos dilacerados pela fúria. Enquanto meu irmão me puxava o braço, aos beliscões, me arrancando, em contrapartida, pelado, de cima do baú, em vão tentava esconder o pinto da namorada dele, como da mamãe e da vizinha. Aliás, essa maldita destrambelhada, me olhava como se estivesse encarando um maníaco. O engraçado, o cômico, no meio desse povo todo que apareceu, uma vergonha infinita veio vindo lá do fundo e queimou, por inteiro, meu rosto pálido. Se fosse a Elizabete, com certeza, o vexame não atingiria graus tão altos.&lt;br /&gt;Em meio à confusão que tomou forma, Elizabete saltou da cama, acendeu a luz, desligou o som e meteu o bedelho. Pegou-me num beco sem saída, numa situação caótica que não desejaria ao pior inimigo. Levei, na frente de todos, uns belos tabefes no meio das ventas. Quando papai chegou à cinta comeu firme no lombo. Apanhei feito cachorro magro e sem dono. Depois desse mico, optei por ficar de molho, quase um mês, confinado dentro do quarto, com vergonha de aparecer para Elizabete, embora soubesse, de antemão, que a namorada de meu irmão Nelsinho, havia  contado a ela,  com riquezas de detalhes  o incidente, desde o instante em que  me pegaram com as mãos na massa. Pronto, estava na boca de todos o meu segredo, desvendado, exposto, com direito até a apelido: “tarado da bunda branca”. Em parte, a alcunha ajudou muito. De tanto falarem do meu traseiro branco, Elizabete, por fim, aquiesceu. Veio chegando, aos poucos, de mansinho, devagar. Parecia não ter pressa. Trazia o café, o almoço, o lanche, conversava muito sobre tudo, sentava a meu lado para ver televisão...&lt;br /&gt;Rolou o clima num final de semana. Ninguém em casa. Do seu jeito, como só ela sabia. Aconteceu.  Perdi a virgindade e, junto, os medos bobos que povoavam minha adolescência. Passei a conhecer, a partir de então, um mundo diferente e, dentro dele, um sonho obscuro, onde um universo imensurável se abriu. Elizabete me fez ver o outro lado da moeda, ou seja, o reverso da clausura na qual   vivia enfurnado. Conheci mais, senti  o prazer,  conheci o amor, a felicidade se  fez plena, e a alegria de viver que todos buscam veio ao meu encontro, como um sol gostoso batendo no rosto. Elizabete ficou com a gente por quase oito anos.  Nesse tempo,  me ensinou tudo o que hoje sei, tudo o que um homem deve saber para fazer uma mulher se sentir plenamente realizada.  Nosso caso de amor, que deu até aborto, infelizmente terminou no dia em que completei a maioridade. Vinte e um anos. Meu Deus, estraguei tudo! Ela me pegou, na cama de casal dos meus pais, com a filha de uma moradora nova, que se mudara recentemente, para um apartamento, porta com porta, no  andar em que morávamos.    &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para bom entendedor, uma cerveja basta.&lt;br /&gt;(para meu amigo SIVUCA, im memorian)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt;NTEM FOI UM DIA MISERAVELMENTE MASSADOR.  Chato pra cachorro. Pra cachorro não,   particularmente pra mim. Se nós, ou melhor, se eu tivesse o dom de adivinhar ou prever os acontecimentos futuros, como a espertalhona da Mãe Diná, certamente não teria saído de casa. Verdadeiro desastre. Logo ao por a cara para fora do apartamento, tropecei nas escadas do prédio. Quase quebro o pé. &lt;br /&gt;Até a parada, para tomar a lotação, uma chuva intermitente me deu um banho daqueles de gelar até os cabelos da alma. Não sei se alma tem cabelo, mas vá lá, isso é de somenos importância. Geralmente ensopo os ossos nos dias de aguaceiro. Não uso guarda-chuvas, aliás, nunca uso guarda-chuvas. Tenho verdadeira ojeriza a esse tipo de objeto, ainda mais porque ando com a cabeça nas nuvens e acabo esquecendo a porcaria em qualquer lugar. &lt;br /&gt;No ônibus, acomodei o traseiro ao lado de uma mulher gordona, parecia mais com um piano de cauda desafinado, de segunda mão, recém saído de um antiquário. A dona ocupava o assento da janela e boa parte do meu, aliás, mais o meu que o espaço a ela reservado. Tive que viajar até o ponto onde pretendia descer, espremido feito uma sardinha raquítica dentro de uma latinha hermeticamente fechada. Que droga! Nessas horas é que a gente aprende e tem consciência de como se sente uma miserável sardinha numa latinha hermeticamente fechada. E a bendita senhora me olhava de soslaio, como se me recriminasse por estar prostado exatamente naquela cadeira. &lt;br /&gt;Ao deixar o coletivo, ainda embaixo de fortes pancadas de São Pedro, tomei outra ducha ao atravessar a rua para galgar a calçada que dava até os escritórios da firma onde trabalho. Um automóvel, vindo não se sabe de onde, passou feito um furacão. Deu aquela espirradela de água suja de lama ao bater os pneus num buraco. Desta vez tive sorte. &lt;br /&gt;Outros também foram atingidos. Só ouvi gente xingando a mãe do infeliz. Não sei porque, as pessoas pensam distribuir impropérios afrontosos, direcionados principalmente às mães. Existem umas figuras, de línguas afiadas, que nessas horas perdem a linha, a estribeira, o bom senso. Mandam o motorista deseducado e barbeiro enfiar o carro naquele lugar, como se naquele lugar coubesse um carro, com motor e todos os acessórios que o acompanham. Segui meu caminho. Parei na banca de revistas do Epitáfio, para correr os olhos nos jornais pendurados. &lt;br /&gt;“Cachorro faz mal à moça” – estampava um, em letras garrafais – enquanto outro proclamava o novo salário mínimo. &lt;br /&gt;Uma vergonha, esse negócio de salário mínimo. Por mais que o povo brigue por um regime de rendimentos melhores ou condições igualitárias justas – e não consegue, ou melhor, nunca consegue, o governo ganha os tubos e põe a culpa na Previdência.  Não sei porque, a Nação não explode, de uma vez, com a Previdência. Chama minha atenção um jornaleco sensacionalista. A manchete com letras destacadas anuncia: “marido mata esposa com bife que lhe foi fritado”.  &lt;br /&gt;O dono da banca pergunta se vou levar alguma publicação, sabendo, de antemão, que jamais gasto dinheiro com besteiras. Sigo adiante. &lt;br /&gt;O próximo alvo é a casa de discos do André da “Muleta”. Colocaram esse apelido nele, porque perdeu uma perna num acidente de motocicleta. Nunca o cara chegou a montar em uma, porém, um desgraçado, pilotando embriagado,  passou por cima dele. Antes de cumprimentar o mancebo - palavra esquisita, essa - poderia ser substituída por moço, rapaz ou jovem. Um amigo meu, o Canterbury, me chamou a atenção dizendo que é feio colocar apelido em alguém. Segundo ele, mancebo é um cabide para pendurar roupas, formado por uma haste nos braços. A bem da verdade, não estou interessado no verdadeiro significado dessa droga de palavra. O Canterbury que vá, portanto, chupar prego ate desenferrujar a cabeça. &lt;br /&gt;Nesse momento, o André botou um CD para rodar. Adorei o balanço da música. Lembrava Mestre Sivuca, aquele do acordeom. Perguntei de quem era o disco e o André, brincalhão, gritou: é do Severino Dias.&lt;br /&gt;- E quem é Severino Dias?&lt;br /&gt;- Você não conhece Severino Dias?&lt;br /&gt;- Nunca ouvi falar.&lt;br /&gt;- Pois saiba que esse cidadão é reconhecido no mundo inteiro. Brasileiro natural de Itabaiana, na Paraíba. Nasceu em 26 de maio, de 1930. Esteve exilado no exterior, convencido da marginalização da música instrumental e do solista popular brasileiro.&lt;br /&gt;- Estou pasmo!&lt;br /&gt;- Quer saber mais? O poderoso aí tem um currículo de fazer inveja. Trabalhou com Mirian Makeba, Harry Belafonte, Oscar Brown Júnior e fez varias turnês. Tem três CDs individuais nos Estados Unidos e dois na Europa.&lt;br /&gt;- Tudo bem. Apesar desses esclarecimentos interessantes, seu Severino Dias continua sendo para mim como um bife bem gostoso, mas mal passado.&lt;br /&gt;Um cliente que comprava, até aquele momento calado, observando o desenrolar do papo, pediu um aparte e entrou na conversa:&lt;br /&gt;- Severino Dias você sabe muito bem de quem se trata, meu amigo. Aposta uma cerveja?&lt;br /&gt;- Não recordo! Severino, Severino, Severino?&lt;br /&gt;    - Vale uma cerveja? &lt;br /&gt;- Positivo. Se faz tanta questão...&lt;br /&gt;- Severino Dias é o Mestre Sivuca, aquele do acordeom!....  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece até pegadinha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt; APARTAMENTO DEFRONTE AO QUE BISONHO  mora, possui duas campainhas distintas. Uma delas tem uma tampinha cinza e o buraco redondo com duas pernas de fios soltas. Quando chega alguém querendo falar com o morador, que, diga-se de passagem, nunca ninguém viu nem mais gordo nem mais magro, existe abaixo do olho mágico da porta do sujeito uma caixinha dessas modernas, ou melhor, a campainha de verdade, para que seja comprimida e, uma vez acionada, alerte o residente de que há gente do lado de fora. Sempre que pinta uma viva alma no pedaço,  Bisonho fica sabendo, não porque bisbilhote o tempo todo, simplesmente o alarme sonoro do subir e descer do elevador disparava um “plim” igual o da Globo e, corroborando a atitude desse mecanismo, as dobradiças enferrujadas da velha engenhoca rangem desesperadamente.&lt;br /&gt;Nessas ocasiões, o rapaz aproveita para espiar, claro, pelo olho mágico e ver quem é a visita que anda a cata do vizinho misterioso. Curiosidade de quem não tem o que fazer. Contudo, um bom exercício para passar o tempo. Bisonho se deparava, nessas ocasiões, com as situações mais engraçadas e inusitadas possíveis. Outro dia uma moça loira, procurava pelo botãozinho da campainha. Ela não viu, diante de si, a caixinha, abaixo do olho mágico e por essa razão começou a futucar, na esperança de enfiar um dos dedos no buraco da tampinha cinza e juntar os fios. Os dedos não ajudaram em nada. Talvez fossem os anéis que atrapalhassem. Quem sabe a cor dos cabelos. Em seguida ela introduziu o polegar e o indicador com o objetivo de a qualquer custo fazer funcionar a geringonça. Puro fiasco. Saiu furiosa, cuspindo marimbondos.&lt;br /&gt;Não foi diferente com um cidadão baixinho, de chapéu na cabeça e uma bolsa dessas 007. O infeliz chegou ao cúmulo de a certa altura das frustradas tentativas, meter a cara no olho mágico com a finalidade de ver se enxergava alguma coisa dentro do apartamento. Também teve problemas com os fios. Pelo visto, e pelo ar desagradável que fechou em seu rosto, deve ter tomado um tremendo de um choque. Desistiu, pois, da empreitada. Resmungando, deu meia volta e desapareceu. &lt;br /&gt;Bisonho chegou à conclusão de que as pessoas, de um modo geral, são levadas e expostas ao ridículo por pura comodidade. Ninguém pára por alguns instantes com a intenção de analisar o que está posto e visível diante dos olhos. E pensar numa solução simples que dê algum resultado prático. Às vezes, um problema insignificante, de solução clara, está logo ali, atropelando, mas a pressa, o e nervosismo juntos, de mãos dadas com a velha burrice botam tudo a perder. &lt;br /&gt;O incrível e cômico na história: quem quer que chegue logo se vê as voltas com os fios da campainha. Talvez, no fundo, seja essa a verdadeira intenção do dono do apartamento. Dar choque nos chatos que não desistem de vir até sua residência perturbar o sossego. Ele deve rir muito e se divertir um bocado. De qualquer forma, esse vizinho de Bizonho não quer, decididamente, ser incomodado por ninguém. Por que, então, fornece o endereço correto de onde mora?  Desse o de uma tia, ou o de um amigo, e preservasse a sua privacidade com unhas e dentes, não com fios desencapados.&lt;br /&gt;Mas os trocinhos da campainha soltos, de certa forma instigam a atenção dos que acampam, de repente, diante da entrada do elemento, seja com pressa, suando em bicas, ou porque tenham outros afazeres a serem cumpridos, além daquele de estar ali. Pelo sim, pelo não, todos os que estiveram no corredor esqueceram de atentar para os mínimos detalhes e de apertar o botãozinho correto, à vista de um cego, logo abaixo do olho mágico.&lt;br /&gt;Bizonho percebeu, nessas suas olhadelas clandestinas, que cada ser humano reage de uma maneira diferente. Uns xingam, outros fazem caretas, olham para os lados, desconfiados, inclusive, teve um visitante, que se deu ao trabalho de encarar o olho mágico da sua porta. Não se sabe com qual finalidade. Deve ter levado um puta susto, pois ficou evidente que estava sendo filmado. As mulheres, em meio a essa confusão, são as mais interessantes de ser reparada: elas se ajeitam, penteiam os cabelos, retocam a maquiagem, renovam o batom dos lábios. Os homens são menos exigentes com a aparência. Só corrigem o nó da gravata, os óculos, ou dão uma batida discreta, com uma das mãos, no paletó, para afastar algum posinho ou cisco, que por ventura tenha ficado grudado. Pensam em tudo, esses ilustres visitantes, mas esquecem do mais simples: apertar o botãozinho da segunda campainha, logo abaixo do olho mágico ou, por outra, de bater suavemente, com os nós dos dedos, produzindo um leve toc, toc, toc, na porta sisuda e silenciosa, parada, estática, bem diante de seus focinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A&lt;br /&gt; MERCEDES PRETA, COM OS VIDROS FUMÊ, encostou silenciosamente na única bomba que se encontrava vazia para abastecimento. Cristiane, uma das moças veio, solícita, atender. O motorista, um sujeito magro, abriu meio vidro, o bastante para passar a chave:&lt;br /&gt;- Completa o tanque, por favor.&lt;br /&gt;Cristiane, mais que depressa procurou despachar o homem no menor tempo possível. As ordens do gerente, nesse sentido, giravam em torno do posto ter alguns diferenciais que precisavam ser seguidos ao pé da letra:  oferecer bom atendimento ao cliente, agir com rapidez e elegância na maneira de abordar, preservar a discrição e, em hipóteses nenhuma, sair de cara feia, ou xingar os engraçadinhos, caso levasse uma cantada. O segredo estava também na diplomacia, na perspicácia e no saber se livrar dos elementos chatos, de mansinho, numa boa, com classe,  sem lhe ofender a moral e o decoro.&lt;br /&gt;Cristiane desde que fora admitida, como frentista, agia nos conformes. Aliás, as demais colegas se espelhavam nela. Assim, naquela manhã ao ver chegar a Mercedes preta, tratou de fazer o seu trabalho sem mais delongas.  Contudo, não pode deixar de reparar no que acontecia no interior do veículo. Embora a janela não estivesse totalmente aberta, ela percebeu que a acompanhante do sujeito magro –, uma loirinha de cabelos compridos –, praticava sexo oral. Talvez a garota estivesse sendo forçada a fazer aquilo. Ninguém, em sã consciência, por mais depravado e sem vergonha que seja, se submeteria a pagar um mico daqueles. Por outro lado, se havia uma terceira pessoa ameaçando (escondida, talvez, no banco de trás), por que não gritou, nem tentou abrir a porta e sair para pedir ajuda?&lt;br /&gt;Dorinha, a colega de Cristiane se aproximou para oferecer outros serviços, entre eles um cafezinho. Cristiane ainda tentou desviar a atenção da amiga, mas era tarde. O sujeito magro, desta vez, não abriu o vidro, escancarou a porta. Dorinha, diante disso, deu de cara com a cena patética. O cidadão, com o troço para fora da bermuda e a moça do banco do carona (a loirinha dos cabelos compridos), grudada nele, chupando, como se aquele ato fosse a coisa mais banal e corriqueira desse mundo. Dorinha, porém,  seguiu à risca, as instruções: não esquecia da história dos três macaquinhos. Essa é a melhor filosofia para se trabalhar num posto de gasolina ou em qualquer outro lugar.&lt;br /&gt;Sem perder a calma e mostrando serenidade, dirigiu-se ao cliente, desempenhando maravilhosamente a sua função e,  por fim, propôs o café:&lt;br /&gt;- O senhor aceita?&lt;br /&gt;- Por gentileza.&lt;br /&gt;- Sua companheira não gostaria de...?&lt;br /&gt;O rapaz se abriu num sorriso debochado:&lt;br /&gt;- Como pode ver, ela está ocupada, de boca cheia. Acredito que não vai querer misturar café ao leite condensado que logo deve jorrar em abundância.&lt;br /&gt;Dorinha se afastou. Cristiane havia acabado de completar o tanque. Foi sua vez de se aproximar do freguês:&lt;br /&gt;- Sua chave, senhor. Deu R$ 72 reais e 50 centavos. Vai querer o cupom fiscal?&lt;br /&gt;- Não, belezura. Só estou à espera do cafezinho que a  outra atendente solicitamente me ofereceu. Como pode perceber, não posso me dar ao luxo de me levantar daqui,  ou a minha gatinha teria que interromper a sua merenda. Como é seu nome?&lt;br /&gt;- Cristiane.&lt;br /&gt;- Aqui está o dinheiro. R$ 75 reais. Pode ficar com o troco. &lt;br /&gt;Dorinha chegou trazendo um copinho de plástico cheio de café dentro de uma bandejinha pequena.&lt;br /&gt;- Senhor.&lt;br /&gt;- Obrigado. Como é seu nome?&lt;br /&gt;- Dorinha.&lt;br /&gt;- Bonito. Gostei. Cristiane também. Legal. Vocês duas são uns amores. &lt;br /&gt;A loirinha continuava na mesma posição, chupando, sem parar, imprimindo à cabeça um vai e vem cadenciado. Enquanto sorvia o café, o sujeito magro segurava nos cabelos dela e ordenava:&lt;br /&gt;- Mais rápido, mais rápido. Cuidado para não derrubar meu café.&lt;br /&gt;Agradeceu a bebida, fechou a porta. Antes de ligar o motor voltou a abrir  o vidro.  Dirigiu-se as duas:&lt;br /&gt;- Meninas, aqui está o copinho. Tenham um bom dia.&lt;br /&gt;Saiu tão silenciosamente como chegou.&lt;br /&gt;- Você viu o que eu vi?&lt;br /&gt;- Estou pasma! Olhe, estou tremendo. Meu Deus, que coisa horrível. Como é que uma garota simpática, de boa aparência, não deve ter 17 anos, pelo que pude perceber,  se presta a fazer aquilo, em público?&lt;br /&gt;- Dinheiro, amiga. O vil metal, como diz meu pai, faz das pessoas gato e sapato.&lt;br /&gt;- Jamais passaria por um ridículo nessas proporções. Nem que a criatura fosse meu marido ou o príncipe mais bonito da face da terra. É o fim da picada!&lt;br /&gt;- Concordo plenamente. E que picada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inocência ultrajada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;M&lt;br /&gt;aria Julieta tinha tudo a tempo e a hora, do bom e do melhor. Não lhe faltava absolutamente nada. Essa mordomia se estendia do fogão de cozinha à cama onde dormia feita sob medida em madeira de lei, passando pelo carro último tipo estacionado na garagem e acabando nos vestidos de grife encontrados em lojas granfinas e sofisticadas. Em seu close, ao lado do guarda-roupa, perfilados um ao lado do outro, elegantes pares de sapatos para cada um dos dias do mês. Vestia uma elegância ímpar e jamais repetia um modelo. Madame de vitrina, praticamente todas as tardes um convite lhe esperava para um chá de confraternização ou troca de gentilezas nas residências de amigas – a maioria esposas de médicos que trabalhavam na clínica  Tapajós&amp;Tapajós, em plena Alphavile em Barueri. A pouco completara 25 anos, ao contrario do maridão, doutor Cornélio Dias Tapajós, cirurgião plástico renomado, em tempos passados assistente de Ivo Pitangui. Homem mais velho, passava dos 60. Todavia, não negava fogo. Mesmo nessa faixa de idade, dava trabalho, não fazia feio ou deixava a desejar. Punha, na moral, como se costuma dizer por ai, muitos garotões no chinelo, tal o vigor e a disposição na hora de fazer gracinhas para a esposa quando partia para o vamos ver como é que fica. E ficava mesmo. O casamento deles ia de vento em popa.&lt;br /&gt;Maria Julieta não completara 16 anos quando viu, pela primeira vez, no consultório da clínica, o cara que viria a ser, dentro em breve, o  príncipe encantado da sua vida.  Tudo aconteceu ao acompanhar a única tia com quem vivia desde os 5 anos, que se internara para se livrar de uns incômodos que ameaçavam sua beleza. A jovenzinha se acendeu por dentro como uma desatinada, diante do primeiro garoto que lhe deu uma piscadela de olhos mais demorada e falou meia dúzia de palavras bonitas ao pé do ouvido. Ele também não ficou atrás. Investiu nas olhadas e paqueras, na verdade, ambos se  corresponderam à altura, até que uma semana depois jantavam de mãozinhas dadas, como dois pombinhos apaixonados. Houve um pedido formal de casamento entre taças de champanhe e caviar e,  nessa hora, ela Maria Julieta flutuou num espaço desconhecido que se descortinava a sua frente. &lt;br /&gt;A principio, a tia deu contra, mas, afinal ela não passava de uma menina ingênua e ele, um coroa. Contudo, diante da devolução do cheque passado à clínica e uma série de outras conveniências, acabou por concordar com o matrimonio. Em menos de duas semanas Maria Julieta, agora senhora Cornélio Tapajós se mudava de mala e cuia para a espetacular  mansão do médico em Aldeia da Serra, bairro nobre nas cercanias da grade São Paulo. Oito anos de felicidade plena e incondicional, regadas com muito amor, carinho, badalações, festas, encontros, simpósios, viagens, idas e vindas ao exterior. A garotinha do Morumbi, de certa forma, acertara na sorte grande. Não que precisasse. Trazia o vento dos bons presságios soprando sobre sua cabeça, ou mais precisamente a partir  da morte dos pais, num acidente ocorrido na Rodovia dos Imigrantes, em direção a Santos.  Passara a viver, desde esse fatídico dia,  com a tal da tia ricaça, que lhe tratava como filha e a amava como ninguém. Jovem e bonita, conquistara sua independência financeira. Conseguira, num curto espaço,  galgar destaque na sociedade aliás, seu rosto de princesa dos contos de fada não saia das colunas sociais. Como esposa de um cirurgião plástico conhecido internacionalmente, sua ascendência às altas esferas da burguesia chegou num abrir e fechar de olhos. Até aquele dia...&lt;br /&gt;A porta de uma das cristaleiras, que ajudavam a adornar a sala imensa e ricamente mobiliada, emperrou. Em conversa com uma das empregadas que compunham a ala das serviçais a seu dispor, Maria Julieta descobriu que Chiquinha, a copeira, tinha um irmão entendido em assuntos relacionados a móveis finos e os consertava com impecável precisão. Assim, Pedro Mariano teve acesso à residência dos Tapajós. Num sábado, logo depois das  9 da manhã, estava o moço com a irmã, à espera de que a patroa despachasse o patrão para se ater ao que o levara até ali. A espera não se fez muito delongada. Menos de meia hora depois, Pedro Mariano se viu diante de uma deusa nunca dantes imaginada. A beleza ímpar da rainha Tapajós não obedecia a limites. O destino, a partir desse encontro mudou sistematicamente a vida de todos os envolvidos e acabou com a paz que reinava naquele doce lar. Pedro não se deparara com ninguém tão especial, pelo menos a  ponto de ficar embasbacado, queixo caído, feito um doente mental. &lt;br /&gt;- Me acompanhe, por favor.  Mostrarei ao senhor  o móvel que pretendo seja prontamente restabelecido à normalidade.   &lt;br /&gt;Pedro Mariano se deixou levar pelo braço como um extasiado diante de algo que até então só vira nas telas dos cinemas. Uma hora depois, o serviço ficava pronto. Mandou a irmã avisar que tudo estava nos conformes. A dona da casa voltou à cena. Desta feita, entrou na sala mais elegante que antes. Pedro sentiu um tremor. Começou a suar. Sua camisa colou nas costas.&lt;br /&gt;- Senhora, me permite lavar as mãos?&lt;br /&gt;Maria Julieta fez que sim, pediu um suco à Chiquinha que se afastou prontamente em direção a cozinha. A sós, ela e o rapaz, ao invés de conduzi-lo para os banheiros destinados aos empregados, apontou o seu, que ficava dentro do quarto da suíte do casal. Pedro Mariano, ao entrar naquele ambiente chiquérrimo, quase teve um ataque. Primeiro porque nunca havia visto nem estado num ambiente tão luxuoso e, segundo, ao lado do sanitário e da banheira de hidromassagem, havia uma parede, ou melhor, a parede se constituía num quadro enorme de Maria Julieta, de corpo inteiro, nua em pêlo, comendo uvas e fazendo uma pose tremendamente provocante e sensual. Seus brios de macho entraram em estado de alerta. Houve uma dificuldade enorme para abrir o zíper e tirar o grosso volume que latejava dentro da cueca apertada. Sentiu vontade de se acabar numa série de ejaculações em homenagem àquela formosura, que se oferecia, como uma gata selvagem, querendo ser possuída e amada. &lt;br /&gt;Ao urinar, o jato escorreu para fora do vaso formando uma poça em torno de um tapete com desenhos do Piu-Piu. Pedro Mariano esquecera de mirar o fundo da bacia da privada, tamanha a tensão que  fragilizava seu estado  emocional..            &lt;br /&gt;Sem saber que estava sendo observado, Maria Julieta encostou a porta de acesso a seu quarto e se achegou do banheiro. Espiou, então,  para o rapaz, ou melhor, sua atenção, nesse momento se desviou para o que ele segurava numa das mãos. Ao deparar com “aquilo” enorme e descomunal entre os dedos, arregalou os olhos e soltou um gritinho de espanto. Pego de surpresa, Pedro Mariano girou sobre si mesmo e, ao fazê-lo se viu, de calças curtas, diante de Maria Julieta, em carne e osso.&lt;br /&gt;A partir daquele momento, nenhum dos dois conseguiu tirar o outro da cabeça. Até que a coisa acabou tendo que ser resolvida na cama. Pedro Mariano passou, então, a quebra galho oficial da mansão, ou seja, a fazer pequenos retoques aqui e ali. Cada dia  pintava  algum objeto para ser consertado ou restaurado. Além de quebra galho, o sortudo ganhou, igualmente, o posto de amante oficial da bela e apetitosa patroa de sua irmã Chiquinha e, como tal, a desfrutar não só dos prazeres que o corpo da amada lhe proporcionavam, mas dos presentes caros que ela comprava e oferecia em troca das mijadas que, como a presença dele, na casa, passaram a ser constantes no banheiro da suíte do  quarto de casal.&lt;br /&gt;O ilustre  Cornélio Tapajós, cirurgião plástico renomado,  exatamente dois anos depois, sem querer, sem esperar, sem ser avisado e sem planejar nada, acabou dando um flagra. Voltou de repente, para buscar o estetoscópio que esquecera sobre o criado-mudo. Maldita hora.Topou com a jovem esposa no banheiro, encostada no próprio retrato, aos gemidos de “vai, meu gato, me encha as entranhas com seus pêlos” sendo possuída, por Pedro Mariano. Enlouqueceu. Primeira reação: atirou na despudorada. Meio da testa. Os miolos dela mancharam a parede e seu corpo escultural se coloriu de sangue. Em seguida, o médico despachou o amante, sem se importar com aquela frase conhecida que surge na boca dos envolvidos nas horas erradas “amigo, me escute, não é nada disso que o senhor está pensando”. &lt;br /&gt;Aldeia da Serra virou um inferno. Em meio aos gritos de “se entregue que é melhor, jogue a arma pela janela e saia de mãos para cima” da polícia, que cercou a mansão e do desespero dos empregados, vizinhos e curiosos Cornélio Tapajós da Clinica Tapajós&amp;Tapajós, encostou a arma no ouvido e puxou o gatilho.       &lt;br /&gt;         &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peça de inquérito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt; AQUILEU ERA REALMENTE UM HOMEM com agá maiúsculo. Macho até debaixo d’água. Como delegado titular da homicídios, um exemplo de policial linha dura. Queria tudo certinho e dentro dos conformes. Seus subordinados sabiam da fama, por essa razão, quando sentado em sua cadeira, no amplo gabinete, ninguém brincava. Até advogado de porta de cadeia receava visitar preso nessas ocasiões. Final de semana, depois do expediente, decidiu pescar com amigos, numa cidadezinha fora do seu Estado. Geralmente nessas pescarias rolavam muita carne no espeto, cerveja e mulheres bonitas. Até aí, tudo bem, o Aquileu não estava de serviço, nem perto de sua jurisdição, ao contrário, mais de seiscentos quilômetros o separavam da pacata Santa Gertrudes. Ademais, que mal havia sair da rotina e distrair um pouco as idéias? Filho de Deus gozava direitos iguais como todo ser humano mortal. &lt;br /&gt;Assim, passou a mão nas tralhas, tirou da garagem uma BMW vinho, adquirida recentemente, e ainda sem placas e com os plásticos nos bancos e ganhou mundo.&lt;br /&gt;Na roda de amigos e garotas, a algazarra corria às mil maravilhas. Depois de pescar num riozinho de águas límpidas e beber todas, se embrenhou, para caçar, mato a adentro, com alguns dos muitos rapazes que haviam sido convidados. No decorrer da farra, contudo, e no alvoroço que se seguiu, deixou cair, por descuido, numa espécie de clareira, todos os documentos. Daí em diante, nada restou nos bolsos que o identificasse. Pior, na história toda, é que ninguém viu a carteira rolar, nem ele próprio se deu conta. Aliás, estava como os demais, fora de si e grogue, mal conseguia parar em pé. &lt;br /&gt;No domingo à noite, apesar dos companheiros insistirem para que não voltasse sozinho (afinal, passara todo o dia misturando cerveja, vinho e cachaça), Aquileu, teimoso, feito uma mula, tomou um demorado banho de cachoeira, mandou para dentro um prato de arroz com feijão e carne de porco e, em seguida, encarou a longa estrada de volta. Quilômetros à frente, uma blits o fez interromper a viagem. Tinha nego espalhado e armado até os dentes por todos os lados. Uma gangue vinda de Belo Horizonte havia saqueado um supermercado e levado todo o dinheiro da féria. Coincidentemente um dos carros envolvidos era uma BMW vinho. A Civil, e a Rodoviária fecharam o cerco. Não passava nem agulha. O sujeito que interceptou Aquileu chegou gritando.&lt;br /&gt;- Pula fora, devagarzinho, não faça nenhum gesto suspeito e mantenha as mãos onde eu possa vê-las.           &lt;br /&gt;- Sou da casa...&lt;br /&gt;- Identificação.&lt;br /&gt;Procura daqui, procura dali, nada. Somente nessa hora  Aquileu, efetivamente foi se dar conta de que deixara, ou perdera, todos os documentos. Não havia absolutamente nenhuma prova que fizesse dele um cidadão honesto e decente. Ainda assim, procura daqui, mexe dali, vira de um lado, futuca de outro, qual o quê. Nem os do carro, no porta-luvas para salvar a pátria.&lt;br /&gt;- O bafômetro. Tragam o bafômetro.&lt;br /&gt;- Meu amigo sou delegado de polícia.&lt;br /&gt;- Identificação...&lt;br /&gt;Fizeram uma vistoria minuciosa. Arrancaram tudo de dentro da BMW, inclusive uma pistola sete meia cinco, uma escopeta, duas caixas de munição e cartuchos deflagrados. Diante de tantas evidencias, partiram para uma geral. &lt;br /&gt;Aí a cobra entrou em cena e começou a fumar de verdade.&lt;br /&gt;Aquileu era bom de briga. Lutava caratê, kung-fu e capoeira, além de conhecer a fundo outros esportes violentos. Por ter recusado a assoprar o bafômetro, e por não poder provar o transporte das armas e das balas, levou um tapa no meio das ventas. Furioso, não deixou por menos, revidou. Partiu para a desforra devolvendo o tabefe. Um esquisitão, que segurava um revolver trinta e oito perdeu a arma e dois dentes. Outro beijou o asfalto com a testa esfolada. Um terceiro voou longe e caiu de quatro dentro de uma valeta perto do acostamento. A confusão, de repente criou formas gigantescas. Cada um que tentava pegar a unha, o Aquileu, ou ajudar os companheiros, saia com a fuça vermelha e o olho inchado. Vendo que perdiam terreno, um dos presentes solicitou reforço.&lt;br /&gt;Pintou, na área, meia dúzia de viaturas vindas de todas as direções, sirenes ligadas e as luzes intermitentes ligadas. Um barulho infernal. Acionaram, também, o comissário do lugarejo, um velhote metido a valentão, que chegou, quase no mesmo instante. Todavia, Aquileu, por mais brigão e arisco que fosse e, ainda levando em consideração os vapores do álcool acumulado, e mais, exausto de tanto dar e receber cacetadas, acabou dominado, aliás, completamente nocauteado.&lt;br /&gt;Finalmente conseguiram colocar-lhe as algemas. &lt;br /&gt;- Cadê o valentão?&lt;br /&gt;- Tá ali, doutor... &lt;br /&gt;O tal comissário, muito brabo, e abusando do seu poder chutou com força as costas de Aquileu.&lt;br /&gt;- Então você é um delegado?&lt;br /&gt;- Positivo. Seu colega. Meu nome...&lt;br /&gt;- Identificação...&lt;br /&gt;- Acredite, não posso provar agora, mas...&lt;br /&gt;- Seus comparsas foram para onde? Que rumo tomaram? E o produto do roubo, onde esconderam?&lt;br /&gt;Cadê o restante das armas? Além de você, quantos mais conseguiram fugir? Desembucha de uma vez que é melhor. Lá na cadeia tenho uns métodos interessantes para fazer o sujeito soltar a voz. Tenho certeza que o meu amigo “delegado”, desculpe, o doutorzinho, particularmente, vai adorar... &lt;br /&gt;Com a prisão do suspeito desfizeram a barreira. Levaram Aquileu, a BMW e as armas para a Delegacia.  Na porta do prédio onde funcionava a DP, uma multidão de curiosos aguardava a chegada do comissário e do misterioso assaltante.  Assim que se viu em frente ao edifício, o comissário ordenou a um agente que levasse o “delinqüente” para os fundos da construção e desse uma chuveirada fria no mais novo Jean-Claude Van Damme do pedaço para lhe acalmar os ânimos agitados. Em obediência, dois “canas” de olhos vermelhos e cabelos em desalinho se apresentaram para dar inicio ao tratamento vip, que consiste, primeiramente, na revista corporal, ou como é conhecida na gíria dos malandros, a “arrancada das penas do frango”. &lt;br /&gt;Depois vem o tradicional banho do descarrego, ou o jato de água fria com mangueira de bombeiro, que atira a criatura longe. Por derradeiro, uma visita a sala especial, onde “encapuzados”  fazem qualquer brutamontes soltar a língua e confessar que matou a mãe e comeu a irmã de sobremesa. Nessa ordem, começaram pela camisa. Em seguida o cinto, os sapatos, o relógio, celular, cordão de ouro, pulseira, até que chegou a vez da calça. Aquileu voltou a ficar endiabrado e a distribuir porradas, mesmo estando com os braços para trás, presos ao bracelete. Todavia, seus esforços resultaram em vão. Dominado, uma vez mais, pelos grandalhões com traços de Arnold Schwarzenegger, finalmente o jeans rolou pernas abaixo...&lt;br /&gt;O espanto veio junto. A comoção pegou a todos, de surpresa. Tomou forma em rostos de aparências rudes que nunca abriram brecha para sorrisos.  Olhares incrédulos seguidos de um Ohhhhh! uníssono, pipocou de canto a canto.  &lt;br /&gt;O comissário veio lá da recepção, onde dava entrevista à FM 91,9 Rádio Comunitária. Tudo girava em torno de política. O prefeito, o padre, os vereadores, todos, sem distinção, se faziam presentes no átrio da delegacia. Repórteres dos dois jornais diários, ávidos por um furo jornalístico, inédito naquele condado, obtiveram  permissão para adentrarem no recinto e fotografarem o absurdo. Um sensacionalismo bizarro que certamente aumentaria a venda dos periódicos por muitas semanas. A gargalhada vinda dos fundos da construção estrondeava pelos quatro cantos e criava mais força, à medida que a notícia ia se propagando, numa velocidade incrível, de boca em boca, entre a multidão em polvorosa. O parrudo delegado Aquileu, saradão, queimado de sol, corpo atlético e de boa aparência, no lugar da cueca, usava uma minúscula calcinha vermelha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/900875850386783289-5462175314160235605?l=aparecidodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/feeds/5462175314160235605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=900875850386783289&amp;postID=5462175314160235605' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/5462175314160235605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/5462175314160235605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/2007/10/outra-perna-do-saci.html' title='A OUTRA PERNA DO SACI'/><author><name>Blog oficial do escritor Aparecido Raimundo de Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02993589939207432978</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-900875850386783289.post-5784430690126457910</id><published>2007-10-07T15:21:00.000-07:00</published><updated>2007-10-07T15:21:39.313-07:00</updated><title type='text'>APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA</title><content type='html'>&lt;a href="http://aparecidodesouza.blogspot.com/"&gt;APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/900875850386783289-5784430690126457910?l=aparecidodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/' title='APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/feeds/5784430690126457910/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=900875850386783289&amp;postID=5784430690126457910' title='48 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/5784430690126457910'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/900875850386783289/posts/default/5784430690126457910'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aparecidodesouza.blogspot.com/2007/10/aparecido-raimundo-de-souza.html' title='APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA'/><author><name>Blog oficial do escritor Aparecido Raimundo de Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02993589939207432978</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>48</thr:total></entry></feed>
